sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

agora, faltam cinco horas e alguns minutos para que isso tudo se pinte de branco e vire uma coisa nova. e mesmo sabendo que tudo o que aconteceu vai ficar em uma outra página do calendário, tudo o que eu consigo desejar é um abraço seu.
- Eu juro, não estou brincando.
- Você devia era parar de besteira. Parar de tanta melação. Eu não gosto, acho muito esquisito de sua parte.
- Mas eu não to brincando, Lia. Eu juro que é o que eu acho. Eu queria te dizer isso, e eu sei que é bem esquisito, mas é verdade. Talvez seja porque eu me acostumei, ou porque eu sempre convivi com isso, mas é verdade: pra mim, você é a menina mais bonita desse planeta.
- E pra mim você é o menino mais bobo desse planeta. E chato. Já disse que não gosto dessas conversas. Nem o Pedro. Ele não ia gostar de te ouvir falando isso, aposto que não. Não parece conversa de amigo.
- Que Pedro, Lia! Esse Pedro é invenção sua. Ele não te dá a mínima, e você sabe disso. Sabe que ele é um idiota, um sem noção. Eu não. Eu sou seu amigo, eu converso com você, e gosto das mesmas músicas que você repete mil vezes no iPod. Se não parece conversa de amigo, é porque não é, Lia. Você sabe que não é.

Todo mundo sabe que não é.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Theodora 3

Desespero. A garota se debatia na sua posição incomoda, no escuro, esperando por algum milagre conseguir se soltar. Suava, chorava, ardia, batia, apertava. Theodora estava naquela posição à uma hora e meia, e ainda não sabia o porquê. Não havia entendido a ultima conversa com aquele senhor tão indecifravelmente pertubado, e cada vez mais sentia que O Segundo estava perdido, sem saber para onde ir, porque ela havia vacilado.
Estava tudo escuro, e o chão parecia sujo por algo um pouco gosmento. Já haviam passado-se horas, até que ela conseguira se ajoelhar. Não podia ver um palmo a sua frente, mesmo estando no escuro há tanto tempo.
De repente, as luzes foram sendo ligadas: a de trás, depois mais na frente, e assim sucessivamente.
A sala era verde, e estava completamente suja com uma espécie de gosma preta e verde-escura. Estava completamente vazia, exceto por alguma coisa no canto esquerdo.
Era uma garota, um pouco maior que Theodora. Seus cabelos eram longos e negros, e ela vestia uma camisola que devia ser branca antes de ser completamente manchada pela sujeira. A menina parecia inconsciente, e tinha arranhões por todo o corpo.
Tentou arrastar-se até ela, mas ao virar-se para a parede, paralisou. Em letras negras e desalinhadas, estava escrito:

"O bem e o mal vem sempre com um sinal, apontando a direção. Tenha cuidado, dessa menina não vem nada bom."

Theodora respirou fundo. Parecia que tudo começava a se esclarecer, e então as coisas caíram mais uma vez. Ela não sabia o que aquela menina poderia fazer quando acordasse, não sabia como sair daquela sala assustadora, e não sabia se conseguiria encontrar O Segundo a tempo de salvar a sua irmã e toda a sua cidade.
Ela não sabia de muitas coisas, e aquela frase na parede não deixava com que ela tomasse nenhuma decisão.

Acho que eu deveria dizer o quão mal eu me sinto por saber que estou entrando em uma estrada que não tem um final feliz, e que vai ser difícil de sair bem dessa. Deveria estar me lamentando por estar sendo idiota e por sempre escolher errado e tudo isso. Acho que mergulhar deveria fazer com que meus ouvidos doessem, mas não faz.E digo mais: há três semanas inteiras que estou embaixo da água, e ainda não senti falta de ar. Há três semanas que não sinto incômodo nenhum por estar nesse azul imenso, e não me dói nada.
Acontece que às vezes, quando o sol bate forte lá em cima, posso me ver em um reflexo ou outro. E então, eu me lembro de tudo aquilo que eu devia ter deixado pra trás ao entrar na água: me lembro da minha camisa cinza, de um cheiro forte e doce, das marcas nas suas mãos e dos seus olhos claros.
Diferente de antes, não há nada que me diga que isso é errado. E é justamente isso que me faz subir à superfície.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

lucas

sabia que outro dia, assim só pra sentir gosto de dois mil e nove coisas, abri o Google pra procurar imagens de locutores de rádio?
você tem que experimentar. é tão diferente do que a gente imagina!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

na parede do banheiro

Em um canto, um papel de picolé de açaí amassado e sujo. No outro, um buraco um pouco maior do que uma formiga, e um pouco menos escuro que um gato.
Todo um caminho: siga o espelho, vire a esquerda na foto do Raul Seixas e passe por cima do olho um pouco vesgo da Rita Lee. Desvie do azulejo pintado, e contorne a terceira letra da palavra Alegria. Deixe o resto da frase pra trás.
Depois é só seguir pelo caminho marcado entre dois espaços brancos, até entrar em um caminho escuro. Tudo bem, porque você não precisa saber onde ir: vai acabar dando sempre no mesmo lugar.
Algumas folhas, um pouco de terra e muitas migalhas sendo carregadas de um lado pro outro, batendo-se umas nas outras.
Ninguém nunca viu para onde vai, ou se aquilo é mesmo comida. A gente só supõe.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

gatos pretos de olhos de bola de gude

"Respire fundo e pergunte-se porque você está ali..."
Eu já tinha decidido: no final, tudo o que eu queria era aquele caderno da cor do meu tio, e com aqueles desenhos que eu tinha feito. Estava na primeira gaveta, mas a primeira gaveta é sempre a última a ser aberta.
Eu sabia quem estava vindo, e sabia que logo o céu se tornaria rosado e os gatos iam descer pela janela em busca de comida. Sabia que eu tinha pouco tempo pra esconder o que eles não podiam ver, e sabia que bolas de gude enxergam melhor do que qualquer íris.
Você sempre sabe quando um deles está vindo, pelo sentimento que aqueles miados provocam, e pelo reflexo do vidro com o sol. Você sente aquilo e sabe que eles vão estar te vigiando e te mostrando o que você sabe que já viu demais, que já tem de menos.
Pouco a pouco, eu puxava a gaveta da cor da aurora, com medo de despertá-los. Respirando fundo e entendendo que aquilo me levaria de volta para o meu travesseiro sem ouvir o ruído de pequenas patinhas arranhando o azulejo da cozinha.
Mas quando abriu-se a gaveta, ele não estava lá. O caderno tinha ido embora, fugido com os meus desenhos que - eu sempre soube - também não gostavam de mim. E as palavras, cada uma delas, que eu dediquei para os meus temores e minhas verdades menos claras, todas foram embora, em menos tempo do que se pode esperar.
Não foram necessários minutos, e eles estavam ali: os olhos brilhando, as patas nos azulejos e o miado insistente, exibindo um filme que eu não suportava mais ver.

"... Porque no final das contas, isso é o que menos importa."

já foi

não tem como explicar. nem melhorar um pouco a situação, olhar por um outro lado. acho que agora não tem nem como olhar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

nome nenhum

Um olhar. É a unica coisa necessária para que rolemos no chão de tanto rir, só pelo fato de não precisarmos de palavras pra explicar o que estamos pensando. Está tudo ali: naquele olhar. Todas as piadas, agonias, as raivas, os sites e os problemas mal resolvidos.
Ela, por trás daqueles óculos, sabe de toda a minha angústia e de todos os meus rancores. Conhece meus ódios e tem bem claro o que me faz rir e o que me causa mau-humor pelo resto do dia.
E eu, por trás da minha insegurança, sei da sua obsessão por signos, da sua sabedoria engraçada e dos seus tempos de "Lacoste girl".
Nós não precisamos dizer porque estamos rindo, assim como não precisamos nos apresentar e nos conhecer. Já estava tudo ali, nos vagalumes e em um certo pássaro azul que preenche as nossas noites engraçadas.
E isso não precisa ter nome nenhum.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

vickk

eu olhava pra janela e via as paredes dos prédios, o preto e branco das pessoas olhando os relógios. eu me confundia com a quantidade de placas e informações, enquanto tentava bolar um plano de vista na minha cabeça.
e então, você apareceu. você trouxe cores, trouxe um pouco mais de vida de verdade, um pouco mais de amor. trouxe o que eu não tinha a muito tempo: graça. veio com suas risadas e seu jeito meio bêbado, me levando para um caminho onde os arco-íris eram mais visíveis, e os duendes exibiam seus potes de ouro.
eu estava procurando o tempo todo por algumas árvores, e você me trouxe uma floresta inteira. Por favor, não apague tudo o que você coloriu. é um caminho longo e tortuoso, eu bem sei. mas não é o suficiente pra te fazer esquecer do quanto o seu sorriso importa nesse mundo.
eu te amo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

canadés

Olhei ao redor: na sala, várias pessoas com caras e tons diferentes sentadas no sofá e conversando sobre coisas que eu nunca entenderia. Fazia barulho, e eu estava enjoada.
Mas já era muito tarde para fingir que não via e subir as escadas mais uma vez. Já tinha passado muito tempo desde a última vez que eu decidira fechar os olhos e tropeçar no mesmo segundo degrau, para depois desabar no quinto e me arrastar até o último.
Eu decidira, alguns minutos atrás, que iria tentar encontrar o que havia neles que me provocava tanto medo de mim mesma.
Tropeçando em pés e em olhos assustados e curiosos, sentei-me no canto do sofá e esperei. Não sabia o que esperar, mas alguma coisa certamente viria. Até que ela se virou:
- Afinal, o que está procurando?
Na nossa frente, um homem que parecia uma lebre de monóculo estava servindo chá. Uma bandeja em cada orelha, duas cartolas em cada mão. Uma xícara em canapé. Cada pé.
- Não sei. Achei que vocês me diriam.
Ela se virou para seus companheiros e riu. Depois, voltou-se para mim novamente e me encarou por alguns segundos, só pra me assustar. E tinha resultados.
- Dizer o quê? Não é você que sempre passa por aqui e nos ignora? Nós te convidamos para a nossa festa, te oferecemos chás e cadapés, e você nunca nem ao menos acenou a cabeça!
- Mas eu...
- Passa correndo, correndo como se nada importasse, e nós... coitados! coitados de nós, não é Roseline?
Uma mulher de vestido vermelho e cabelo atado no lugar mais alto possível virou-se, balançando os brincos. Sua voz parecia ser a de duas pessoas ao mesmo tempo:
- Pois sim, pois sim. Coitados de nós, Margie.
Na minha frente, o homem-lebre parecia derrubar tudo ao mesmo tempo que mantia o perfeito equilíbrio, oferecendo-me o chá. Mais do que uma oferta, parecia uma ameaça.
Peguei um cadané com as duas mãos e acomodei a xícara nas bandejas, enquanto Margie e Roseline sussurravam algo entre elas.
- Obrigado - disse o homem-lebre - mas a tarefa de levar os chás e os nadacés é minha.
Irritado, virou-se e saiu balançando o pompom.
Naquele momento, eu já não tinha certeza de que eu realmente queria estar ali. Os rostos e corpos ao meu redor começavam a deformar-se, e as aranhas começavam a invadir os cantos.
- Olha, eu acho que tenho que ir agora...
- Ir? Aonde? Você tem para onde ir?
Pouco a pouco, seus rostos começaram a tornar-se assustadores, seus sorrisos cresciam e confundiam-se com seus olhos, e suas mãos se esticavam até meu rosto, as unhas vermelhas bem na minha frente.
Por impulso, fechei os olhos. E de certa forma, arrependo-me de ter fechado. Mas na hora tudo o que eu conseguia fazer era apertá-los mais e mais, e pressionar minhas mãos contra eles.
Quando abri, eu já sabia o que veria: o mesmo sofá de couro marrom, as mesmas paredes verdes e brancas e a mesma escada, me chamando para subir e ignorá-los mais uma vez.

eu não preciso fazer escolhas, não tão cedo. ou talvez eu precise mais do que tudo. eu preciso um pouco mais de tudo.
quantas vezes eu disse pra mim mesma que não podia acontecer mas deixei acontecer? quantas vezes eu vi um reflexo que não pertencia a mim e ri? e quantas vezes, quantas horas que eu passei errando, só tocando o erro com a ponta dos dedos?
eu não estou pronta pra ouvir um "não" tão certo. não estou pronta pra cair por um sorriso, nem pra me esconder dentro de alguns livros. esse é o meu problema: eu sempre estou pronta para o que não posso estar.
não vou ficar me iludindo com os paralelepípedos, mas não vou cair de novo. não estou usando óculos, mas as minhas lentes estão gastas.
preciso de um par de sapatos silenciosos, só por essa noite.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu queria um pássaro, todo azul marinho e brilhante e que não precisasse de gaiola. Que ele fosse, voasse e voltasse, só porque gosta de mim. E que ele cante músicas pra me acalmar.
E que eu possa abraçá-lo sem que ele se machuque, que toda a minha afeição o faça bem. E que ele dormisse comigo, e acordasse vermelho com o meu cabelo.
E brilhante.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

eu lembro. lembro de quando tudo parecia tão impossível, e você só roçava os dedos em um pedaço de pano molhado. e voce nao falava e nao me reconhecia.
lembro de que eu dei um beijo no seu ombro magro porque eu sabia que seria o último. eu lembro que eu caí no chão de um lugar sujo e que me dá arrepios sempre que passo na frente.
lembro que eu sabia de tudo desde o começo, e quase me culpei por nao ter acreditado no oposto. eu lembro que os dias passavam e eu nao acreditava, e quando alguem telefonou as pessoas me abraçavam e eu nao entendia nada, só sentia falta de ar. por que tao apertado?
eu nao entendo, nao consigo perceber o quanto isso tudo foi uma outra vida. o quando eu nasci de novo, e isso nao foi bom. nao nao nao nao.
eu nao entendo a pena, eu nao entendo o medo de falar.
eu sempre achei que você se recuperaria de novo, e vestiria a sua túnica confortável mais uma vez. e os seus óculos redondos seriam postos de novo bem acima do seu sorriso e das suas marcas.
eu nunca pensei que chegariamos tao longe, e hoje isso me parece muito mais distante do que um ano e alguns poucos meses.
eu agradeço pelo seu abraço e pelo seu sorriso de despedida, sempre gostei daquele vestido e daquelas flores.
voce se afastou tanto de mim! nao foi o espaço, foi voce. eu nao consigo entender mais nada.
Olhos fechados, o cabelo mais uma vez empurrado pra trás da orelha; eles sempre voltavam.
Respire fundo e abra os olhos: nada mudou.
Era a quinta vez no mês que aquilo acontecia. De repente, as pontas de seus dedos começavam a soltar purpurina vermelha, e ardiam intensamente.
Chamava-se P. Veio tudo de uma palavra e um jogo estranho, mas ela sabia a história de trás pra frente.
Começou a correr. Tocava em tudo o que podia: pássaros, corpos, paredes, chão, céu. Nuvens? Não se sabe. Parecia meio molhado, mas podia ser só um tubo de ar condicionado.
"Eu te amo!" - alguém gritou.
Então seus olhos começaram a escorrer daquele mesmo pó brilhante e rubro, enquanto ela soluçava repetidamente. Falta de ar, mas quem pensaria em parar de correr? Era impossível.
"Eu te amo" - não era uma voz ao fundo, um sussurro ou um fim de grito de quem está longe. Eram pessoas, bem no seu ouvido. Mais especificamente seis. Seis pessoas.
Estavam em seus ombros, e ela precisava? dizer o quanto os amava também. Todos em seus ombros, tijolos.
Pensou que chega. Tinha que abrir a boca e deixar de confusão: vou gritar! Vou gritar e que vá tudo pras cucuias.
Abriu a boca, mas quando forçou a garganta mais purpurina jorrou por entre os dentes. O que é isso? Não se sabe. Não era terminal, nem benigno.

Poucas pessoas sabem que purpurina solta forma desenhos no ar, junto com o vento. Ela desenhou todo um caminho errado, mas alguns pássaros estão protegidos pelo seu manto vermelho.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Theodora 2

Theodora estava tonta. Sentia um gosto esquisito na boca. Todos os seus membros doíam. Abriu os olhos. Seus sapatos foram arrancados, seu vestido estava em frangalhos, e o mais importante: a caixa havia desaparecido.
Olhou ao redor: não tinha a menor idéia de onde estava. Pensou em fazer um feitiço e iluminar a sala, mas tinha medo de chamar a atenção de algo ruim.
Mais uma vez, ouviu um ruído atrás de si. Dessa vez, o sonoro "Nhééééc" de uma porta se abrindo.
- Elisabeth?
Theodora paralisou. Não sabia o que fazer. Não sabia quem era Elisabeth, apesar de achar já ter ouvido aquele nome antes.
- Elisabeth, está acordada?
Olhou pros lados, mas não havia nenhuma outra garota ali. Aquilo só podia ser com ela.
- Ah, meu anjo... Pode falar. Eu já resolvi tudo, pequena.
Ainda sentada, Theodora deparou-se com calças pretas e um sapato social, bem na sua frente. Procurou pronunciar-se:
- Quem é você?
- Ah, Elisabeth. Bateu a cabeça muito forte? Papai foi muito bruto?
- Me desculpe, senhor. Mas eu não sou Elisabeth. Houve um mal entendido... Eu preciso ir, O Segundo está esperando por mim. Preciso contar-lhe sobre as três maças...
- Ora, ora...
Lentamente, o homem agachou-se, ficando frente a frente com a menina. A lanterna que trazia nas mãos possibilitou que seu rosto fosse visto, e Elisabeth teve que se segurar pra não demonstrar medo ou surpresa.
O homem tinha uma imagem deplorável. De camisa preta, seu rosto parecia muito, muito mais branco do que poderia ser, e tinha cicatrizes por todo o rosto. Na cabeça, um fio de sangue manchava o cabelo branco, que caía sujo por toda a testa. Seus olhos verdes encontravam-se arregalados, e um dos dois piscava freneticamente. Completamente sujo de lama, ele continuou:
- É claro que você é Elisabeth. Está querendo mentir pra mim, mocinha?

Alguém colocou um monte de flores, algumas risadas e um toque de doçura no seu caminhar. Alguém me disse que você é de outro mundo.
E se for, então eu também serei, só por você. Só. Por você.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Theodora 1

Theodora sentou-se na grama. Seus pés ainda tremiam, e a caixa preta encontrava-se firmemente pressionada contra o seu peito, como se qualquer fraqueza pudesse roubá-la de suas mãos. Apertava os olhos e tentava se concentrar no que Tina havia dito antes de todas as explosões, mas nem sabia se tinha ouvido alguma coisa de verdade.
Respirou fundo. Precisava pensar no que iria fazer. Ela não sabia de onde vieram os tiros, mas era óbvio que alguém estava atrás dela, e precisava entender o porquê. Algo a ver com a caixa que segurava nas mãos?
Theodora não tinha a menor idéia do que ela guardava entre as luvas, e tinha medo de descobrir. Naqueles Tempos, tudo era perigoso. Ela sabia que devia fazer alguma coisa com aquilo, mas estava assustada e preocupada demais em fugir quando Tina lhe deu as últimas instruções. Não havia volta, e logo O Segundo estaria ali para lhe perguntar sobre as três maçãs e as notícias dos Tempos de Lá.
Ainda estava encolhida e tensa, com os olhos fechados, quando ouviu um barulho na grama atrás de si.
Tentou pular, mas estava paralisada. Não sabia se era O Segundo, e se fosse, não poderia fazer movimentos bruscos. Mas se fosse aquela coisa mais uma vez, o melhor a fazer seria correr o máximo possível. A verdade é que os Tempos de Lá não eram mais seguros, e Theodora não sabia onde se esconder.
Mas aquilo não era O Segundo, e muito menos alguma sombra de seu mundo perseguindo-a. Aquilo era algo diferente. Algo do que ela nunca supeitaria, mas que naquele exato momento, envolveu-a na escuridão e apagou-a para ir pra um lugar muito, muito pior.

decoração japonesa

Não sei onde está. Pode estar em uma caixa vermelha e japonesa, ou só num pedaço de papel amassado no bolso direito. Pode estar na minha meia lilás ou em um caderno que eu odeio. Eu não me importo, pra falar a verdade, se cabem todos os dias coloridos, as experiências novas, os óculos e lentes ou os roupões infantis em uma caixa, em uma papel ou na minha cabeça.
Não, também não é no coração. Nem no sutiã rosa que todo mundo já viu e acham que é laranja, e nem no cabelo que já foi vermelho, louro, marrom e azul. É mais do que isso.
Eu guardei todas as cartas de um velho que e amo muito no meu bolso direito, os óculos e as lentes nos meus olhos, os roupões no guarda-roupa, os dias na cabeça e as noites no arrependimento. Mas está tudo aqui. Aqui e na esquina que já me mandaram ver se tinha gente. Aqui, e em cada canto da farmácia que me conduziu a uma noite aterrorizante, e em cada pedaço do cobertor que encobriu as minhas mentiras e minhas culpas.
Em todos os cantos, em todos os cheiros, em todas as letras, que o vento vai levando por aí.
Porque no final, vai ser tudo levado pelo vento: meus amores, dores, você, eu, ele, ela. Aquilo o que eu quero e o que não quero. Uma mão que encostou na outra, um bolo de chocolate e um castelo que não é tanto de areia quanto parece.
E junto comigo, vem uma seção de filmes que eu não quero ver, mas que se repetem na minha frente.

Eu não posso fazer nada. Eu tenho que assistir tudo de novo. E a culpa é, mais uma vez, minha.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Elisabeth 2

- Não pode me dar nem uma pista de quem você é? Quem sabe um olhar...
- HMMMMMMM
- Eu sei, eu imagino. Mas você entende? É muito arriscado... Talvez se eu soltar a sua mão você possa escrever na lama.
A menina que parecia um duende parecia querer andar de joelhos, mas as amarras estavam muito apertadas. Ela se sacudia violentamente, mas era inútil. No canto do quarto, Elisabeth havia encontrado uma navalha, que acreditara ter sido posta ali para desamarrá-la, mas a frase na parede a deixava muito confusa.
- Eu não sei o que pode vir da sua boca, me desculpe. Não sei se posso nem tocar em você!
Elisabeth chorava, cada vez mais. Não entendia. Não lembrava do dia anterior, e não tinha a menor idéia do motivo de estar presa ali. Estava com medo. Apavorada.

- O que você acha?
Lia não tinha como responder. Ela havia odiado. Odiava roxo com todas as forças, e tinha um apreço ainda menor por vestidos. O efeito que o glitter provocava nos seus olhos a irritava, e considerava pompons esfiapados a coisa mais brega do universo. Nunca gostou da garota que estava dentro do vestido, e odiava, mais do que qualquer coisa, o fato da sua tiara favorita estar acompanhando o visual. Odiava o jeito que as flores caiam nos cabelos lisos de Marina e não suportava o contraste do louro com o azul claro da peça.
- Eu acho que essa tiara é minha e que você deveria me devolver. Quer mais chá?
Ela iria que responder que não, e Lia serviria mais uma chícara doce enquanto esperava mais algumas horas. Ela era completamente o oposto de tudo aquilo. Seu vestido fora escolhido nos primeiros vinte minutos, e tinha menos brilho do que uma ferramenta de mecânico. Não era necessário nada demais. Nunca era.
- Não, você sabe que eu odeio essa coisa sem gosto.
Mais uma chícara. Mais um gole de raiva, enquanto ela prendia tudo o que queria despejar na chaleira, e servir morno. Estava frio. Sempre estava frio.
- Eu acho que não vou querer nenhum. Cansei dessa loja. Vamos para a próxima?
Respirou fundo. Enfiou as mãos com luvas nos bolsos do casaco e levantou-se. Num golpe rápido, arrancou sua tiara da cabeça da prima e enfiou na bolsa.
- Talvez seja isso que não esteja combinando. Olhe mais uma vez.
- Ah! É verdade. Por que não me disse antes? Agora vou ter que provar tudo de novo.
Lia fechou os olhos. Teve que contar até cem para não se descontrolar e ser o mais sensata possível, por mais que nada daquilo lhe parecesse sensato. Sentou-se, mais conformada, e pacientemente respondeu:
- Eu te disse. Te disse mil vezes, mas você parece que odeia me ouvir.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Elisabeth 1

Ela acordou. Seus olhos ainda estavam embaçados, e o silêncio surrava seus ouvidos. Ainda vestia sua camisola, mas não lembrava de onde estava, nem como tinha ido dormir. Suas mãos - na verdade, todo o seu corpo - estavam sujas de uma lama preta, e o quarto ao seu redor tinha todo um tom verde-escuro. Estava virada para a parede.
Sentia-se fraca, mas resolveu levantar. Não sabia que lugar era aquele, nem onde estavam os seus pais. Hoje, Elisabeth faria 15 anos.
Virou-se. Ao seu redor, todas as paredes verdes-escuras também estavam sujas com a lama nas suas mãos. O quarto estava vazio, exceto por uma sombra que só depois de limpar bem os olhos, ela pôde reconhecer.
Era uma garota. Suas roupas eram listradas, também verdes e pretas. Seu cabelo era em um tom loiro sujo e curto, e seu vestido tinha babados antigos e diferentes. Encontrava-se amarrada, com a boca tapada e ajoelhada. Seus sapatos pareciam ter-lhe sido arrancados, as meias estavam sujas e rasgadas. Um olho estava tapado pela franja, e o outro, brilhante, parecia pedir socorro.
Na sua cabeça, um chapéu também listrado, no formato que ela representava na situação: ?
- Quem é você?
- Hmmmm
A primeira reação foi tentar desamarra-la, mas ao levantar sua franja, viu uma seta apontando para a esquerda. Olhou: na parede da esquerda, escrito em letras negras, encontrava-se a frase:
"O bem e o mal vem sempre com um sinal, apontando a direção. Tenha cuidado, dessa menina não vem nada de bom."

Elisabeth congelou. Precisava pensar. Quem teria escrito aquilo? Por que ela estava ali? Milhares de perguntas vinham a sua mente, e ela esperava encontrar a resposta nas palavras da garotinha. Tentava imaginar o que a levara para aquele lugar, e se aquilo podia ser alguma brincadeira dos seus amigos, ou dos seus pais.
- Eles vão pagar por isso.
Tentou abrir a porta do outro lado do quarto, mas - como imaginava - estava trancado. Pensou em ignorar as palavras de um ou uma louca que a prendera ali, e simplesmente desamarrar a menina. Achou arriscado. Pensou em destapar a sua boca e ouvir suas próprias explicações, mas tinha medo de acabar sendo enganada ou enfeitiçada.
Elisabeth estava trancada em um quarto sujo, em seu aniversário de 15 anos, com uma menina implorando por murmúrios para ser solta, e uma frase muito misteriosa na parede, e não tinha a mínima idéia do que fazer.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É incrível como o tempo é relativo. Por exemplo, você pode passar só meia hora lendo sobre "Peroxissomos", que são organelas membranosas muito pequenas, presentes no citoplasma de células animais e vegetais, que são muito importantes por uma série de motivos que você não quer saber, e ainda assim, vai sentir como se duas horas tivessem passado. Por outro lado, você pode ler 311 páginas sobre o Penúltimo Perigo, e sentir como se houvessem passado minutos. Você pode sentar e ouvir pessoas falando sobre algo entediante como um livro que você não leu ou não gosta, e sentir como se anos se passassem, ou você pode cometer alguns erros e nem perceber que um segundo se passou.
No dia seguinte, você pode dormir por horas e sentir que apenas piscou os olhos, ou você pode olhar para os olhos de uma pessoa que você ama, e com quem você cometeu um erro muito estúpido, e sentir como se esse olhar de relance durasse uma eternidade.
Naquele momento, com a cabeça entre os braços, ouvindo resoluções de problemas matemáticos, e pensando em como eu estava arrependida, eu achei que minutos durariam pra sempre.
Agora, com sono e com necessidade de ler sobre "Peroxissomos" para uma avaliação na Segunda-Feira, mas escrevendo sobre a minha culpa, os minutos parecem voar com a máquina que me faz traduzir meus pensamentos.
Você pode dizer coisas como "eu ainda te amo" ou "está tudo bem", mas nada pode mudar o fato de mesmo que eu saiba a necessidade de ler sobre as tais organelas membranosas que me agurdam na Segunda-Feira, eu li o Penúltimo Perigo, e é assim que eu costumo agir, na maioria das vezes. Foi assim que eu me comportei ontem, anteontem, e todos os dias anteriores.
Não posso imaginar outros frutos para colher ao invés dos que eu colho agora, e isso é desolador. Desolador porque eu sei que deveria ter optado pelos Peroxissomos, desolador porque eu sei que deveria ter optado por ficar quieta, desolador porque, com toda a certeza, esse não é o meu Penúltimo Perigo, nem Penúltimo Desafio e - pior! - essa não é a minha última decepção.
E nem a de vocês.

A lua me verá

As coisas podem ser muito mais complicadas do que parecem. Veja bem, agora eu deveria estar lendo algo em torno de "Complexo Golgiense" e "Secreção celular", ou poderia estar lendo o o Penúltimo Livro de uma série tão desaventurada e desesperadora que te faria chorar, mas ao invés de aprender o que eu - infelizmente - tenho que aprender, ou de ler o que eu tenho completa ansiedade para ler, eu estou aqui, escrevendo sobre como a minha história pode ser desaventurada e desesperadora.
Não posso, de maneira nenhuma, revelar os motivos das minhas angústias, simplesmente porque as conseqüências seriam desastrosas e desoladoras para mim. Mas posso, por outro lado, amaldiçoar cada segundo errado que se passou, e cada dor - física ou não - que estes segundos me provocaram e estão me provocando.
Gostaria de ter controle sobre esse tipo de ruido, mas tudo o que resta são as certezas do quão incerta eu posso me tornar. E agora, peço permissão de cada um dos meus castelos internos, para o meu ódio a mim mesma.
Tenho, agora com todo o direito, a vontade de dormir e esquecer de como se acorda, assim como esqueci de como respeitar e ponderar os sentimentos alheios. Tenho a permissão de mais uma vez deixar escorrer de meus pulsos qualquer sujeira que se estabelece em mim, e "ai" de quem disser que não.
Não tenha pena. Não sinta por mim. Se você sente, é porque me ama, e me amar é muito perigoso.
Quando o sol se esconder, e você estiver com a cabeça encostada no travesseiro, a lua me verá destruindo seus sonhos e textos, sem nem ao menos me dar conta do que está acontecendo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Meus queridos

Estou escrevendo essa carta desde longe, porque lendo e relendo textos, recebendo abraços e mensagens, percebi que não fui clara com relação ao que eu realmente sinto sobre vocês, e seria muito torturante não explicar-lhes melhor, antes que desistam logo disso.

Eu disse que não ficava triste por vê-los indo embora, e meu Deus, isso pareceu uma coisa cruel, que não era o que eu queria dizer. Eu disse tudo errado, e desdizer é complicadíssimo.
O que eu queria mostrar é que eu parecia estar indo embora, mas isso não me deixa mal porque eu sei que não estou. Que estamos todos em uma correnteza só, sendo levados sempre pro mesmo caminho, mas agora uma onda me desviou um pouco de perto de vocês. Se esticassem o braço, me alcançariam, e poderiam puxar-me para junto outra vez. Até que a onda não se desfaça, vocês estarão pegados uns nos outros, como antes eu também estava, e eu estarei a um metro de vocês, por mais que eu tente ir contra isso. Não sei se essa metáfora foi realmente compreensível. Quero dizer que eu estou aqui agora, e vou estar depois, como estive antes. Só estou um pouco distante, por alguma onda que nem sei porque nasceu.
E é por isso que não fico triste. Fico triste por vocês pensarem que a onda me levou pra outro mar, o que pode parecer, se não olharem pro lado um pouco mais ao lado. E fico triste quando pensam isso porque isso os magoa, e tudo o que eu sempre quis por menos foi magoar a vocês, que já são tanto eu quanto os meus braços, pernas, nariz, boca, olhos, coração, ser.
Eu não estou indo embora. Acreditem, eu sou antiga. Eu fico sempre no mesmo galho da mesma árvore, que já secou e renasceu tantas vezes. E mesmo que algumas folhas ou ondas atrapalhem nossos olhares de se tocarem, eu quero que vocês sintam.
Quero que quando estiverem na água, e uma onda me levar por algum tempo para um metro mais ao lado, quero que ao invés de olhar, sintam meu calor ali, perto de vocês e acessível, sempre. Mesmo que um pouco mais distante.
Porque desde um certo dia ensolarado, vocês foram juntando todos os cacos que sempre insistiam em cair de mim, e foram colando tudo, com tanta boa vontade, com tanto amor, com tanta bondade, que eu me tornei um novo mosaico. E nesse mosaico estão vocês e um certo gatinho.
Mas esse gatinho precisa de um texto à mais, porque eu o deixei com frio, sem secar suas lágrimas noturnas.

de pelagem listrada

Estava tentando pôr em palavras a fragilidade de isso tudo.
Um dia, estávamos conversando, meio que por nada e meio que por tudo, assim, como sempre fizemos, e você me falou de um filme. Um filme que falava sobre um brilho, e poemas, e sentimento. Um filme que te fez chorar.
Lembro que você me falou de uma cena em que eles encostavam as cabeças nas paredes, um em cada quarto, com as mãos levemente apoiadas, sentindo a energia um do outro passar. Não parecia nada demais, mas você sentia a fragilidade daquele momento, onde qualquer estalo no chão poderia destruir tudo.
Bom, há quase dois anos atrás, eu ganhei um animalzinho. Um felino, que muda de acordo com o seu humor, podendo se tornar um gato do mato ou um leão. Como bom felino, ama ser o que é e tem o orgulho mais levantado que o seu queixo, escondendo algumas de suas inseguranças na ponta dos dedos.
Depois de um tempo de convivência, ele vivia dentro de mim. Achou uma concha que tinha acabado de se esvaziar, e deitou pra não sair mais. E ali, dentro do meu coração, ele tem uma forma só. A de um filhote de gatinho meio acinzentado com olhos verdes que brilham e bigodes prateados, brilhantes.
O jeito com que ele se acomoda ali dentro é o mesmo com que as mãos tocavam as paredes naquelas cenas. Em uma coisa tão frágil, que pode acabar por qualquer pequeno ruído, mas que se sente mais forte do que ferro. Um meio termo tão delicado, que qualquer movimento um pouco mais rápido provocariam uma espécie de choque ou quebra entre nós.
Hoje em dia, ele continua aqui. E às vezes, quando vou dormir, me sinto tão livre quando o meu animalzinho, e meus olhos brilham tão verdes quanto os dele.
Eu sei o que existe embaixo da juba do leão, conheço o que guardo aqui dentro tanto quanto não conheço, e eu sei, que mesmo atrapalhada, sem-graça e infantil que eu seja, ele precisa de mim, assim do meu jeito.
Eu sei, sei de tudo. E acredite, cada dia eu deixo esse gatinho comer um pedacinho do meu coração, só pra eu pagar por esse erro tão estúpido que eu estou cometendo com ele, mesmo sabendo que não vai ajudá-lo em nada. Ele não vai ficar mais forte com isso, nem vai se sentir mais aninhado ou confortável, é claro. E é um sofrimento inútil, mas que eu acho que se não sofresse, eu preferia era que meu coração fosse engolido de vez.
Eu sei o quanto eu sou idiota, eu sei o quanto eu estou errada, e o quanto eu não consigo explicar o porquê de precisar fazer isso agora. E eu sei que pode ser incompreensível pra você, porque na verdade também é pra mim.
Você pode sair, se quiser. Pode arranhar a concha toda, me deixar machucada e sozinha, sem seus bigodes prateados de gente sábia, que eu sei que eu não mereço. E eu sei que isso parece muito fácil de dizer, eu nunca vou conseguir me expressar por completo. Mas você, você sabe. Você sabe que isso já é tão meu que nada deixa ir embora.
Eu posso te assegurar de que eu sou constituida por castelos de areia, mas ali em um certo canto direito, perto do mar, eu estou terminando de construir umas casas enormes, de tijolos e cimento e tudo! E bonitas, dá pra ver o pôr do sol. Comprei vários livros, chocolates, CD's e bebidas, pra você, e todas as outras partes de nós e nós deles e tudo de todos, passarmos as nossas tardes.

P.S.: Eu sei que a concha anda um pouco desconfortável, mas não se preocupa não que eu to costurando uma colcha colorida, que nem aquelas meias suas.

domingo, 31 de outubro de 2010

Se pudesse, ficaria o tempo todo ali. Sentada no sofá, olhando pras luzes vermelhas e para o movimento. Fumaça entrando e saindo da boca das pessoas, os olhos perdidos e danças que reconheço dos meus pais. Tudo parecendo ter um tom sonolento.
Se pudesse, entraria na onda daquela dança e pularia, soaria e balançaria a cabeça com mais força. Os cabelos mal pintados vindo de todas as direções e batendo no meu rosto.
Mas é que eu não quero. Não quero mais sessões com psicólogo nenhum, e passei a acreditar que conhecimento próprio é tão inútil quanto conhecimento alheio. Estou farta, farta de nada e de tudo ao mesmo tempo.
Agora, justo agora, tudo o que eu tinha pensado está indo e vindo, entrando e saindo das bocas das pessoas, piscando junto com as luzes vermelhas, e eu não posso nem prestar atenção.
Eu me perdi. Perdi o que procurava e perdi o que encontrei. Perdi a mim e a qualquer outra coisa que eu nem tenha mesmo. Perdi a concepção e, novamente, perdi o dom de traduzir e escrever mágica.
Digito, penso e tento passar histórias para uma página que não entra nem sai das bocas das pessoas, mas não consigo nada. Não consigo.
Porque é tudo fumaça.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Foi um dia desses que eu decidi que nem sei mais se quero mesmo isso tudo. Não sei como é que vai ser e não gosto de não me assustar com isso.
É como se várias pessoas sussurrassem: "acorda" e eu dormisse cada vez mais.
Aquela velha falta foi-se embora junto com qualquer sentimento. Estou me tornando aquilo que nunca quis ser, mas não dou a mínima importância. Talvez porque o que eu não quero me tornar me faz melhor do que eu mesma.
E quantas vezes eu apaguei tudo isso e redigitei pra poder explicar pra vocês o que vem acontecendo... Queria encontrar uma resposta no meu psicólogo, mas ele só me receitou mais remédios.
Não estou conseguindo agradar a todos, mal agrado a mim mesma. Venho e volto de um dia pro outro tentando lembrar coisas que ia falar. Porque nada do que eu fale tem tanta importância assim, ultimamente. Tenho rido. Rido muito. E sem saber usar o verbo pra explicar o quão engraçada é essa situação.
Tenho coragem. Finalmente, abri a porta e gritei em letras garrafais: VOCÊ É UM IDIOTA, E NÃO ME MERECE.
Acreditem se quiserem: não mudou nada. Não me sinto mais aliviada nem pronta pra seguir em frente. É só um passo que andei pra trás. Um jogada que eu perdi, afastei-me mais do cheque mate.
Juro, por tudo o que cabe nessas minhas juras, que essas são coisas que são tão complexas, que eu prefiro escrever logo, antes que esqueça. Antes que me esqueça.

Outro dia estava andando na rua, e uma música se repetia na minha cabeça. Eu estou repetindo ela o tempo todo. Emagreci, acho que uns sete quilos. E aumentei uns dois metros. Estou sentindo que vocês estão indo embora, e isso - surpreendentemente - não me entristece. Me entristece o fato de vocês poderem sentir-se magoados, e a culpa ser minha.
Estou sendo, finalmente, uma completa egoísta. Sempre pensei que uma hora isso ia acontecer e agora, não me sinto mal.
Não quero voltar a ser nada, não quero me tornar nada. Não quero quebrar, nem gritar, nem arranhar, nem bater. Não quero descargas de energia depositadas nem liberadas.
Quero que me deixem não pensar. Quero que me deixem deitar na cama e ficar olhando a parede por dez minutos, sem me dar conta se estou pensando ou não.
E nenhuma palavra sobre as minhas obrigações! Que essas estão nas paredes, nos livros, nas telas e nos botões.
Ctrl Alt Delet.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Estou esperando.
Uma flor, um sorriso e um perfume. Mas algum que venha até mim, e que me diga: sou seu. E que eu possa dizer: me pertences tanto quanto eu pertenço a ti.
Estou com vontade de fechar os olhos e ter certeza de UM sentimento, uma reciprocidade, uma atenção minha e só. Do meu jeito, do meu cheiro e no meu tom.
Não quero mais um sonho desses que veem e vão e não quero me sentir uma injusta, negando o amor de alguém. Não quero mais me preocupar.
Quero deixar as folhas voarem, e sorrir, ouvindo aquela música daquele filme. E flutuar, quando for preciso. Quero algo que me dê asas, ao invés de me prender no chão.
Quero esquecer os medos e frustrações; olhar pra alguém e dizer: finalmente! você está aqui.
Estou precisando de algo pra salvar os meus dias, e preenche-los de vontade. Quero sorrisos à toa, e um gostinho francês no fundo da boca. Um pouco de morangos e uma música pra ouvir mil vezes, sem chorar.
Quero esquecer dos relâmpagos e dançar na chuva, como eu fazia antigamente.
É uma pena, realmente, que eu precise de alguém pra me libertar de verdade. Pena que não possa abrir os braços e voar sozinha, mais uma vez. Pena que não possa provar do céu sem alguém me levantando. É mais uma pena das minhas asas que caíram.
- Ah, menino... como você pôde fazer isso? Não viu que eu estava aqui? Tudo parecia estar dando tão certo...
- E você! Será que não me entende, garoto? Eu só quero o seu bem, eu só quero que você fique feliz... Tudo o que eu fiz foi pensar em você!
- Ô menina pequena do cabelo cacheado... Vê se me entende... Eu gosto de você. E eu sei que debaixo das cobertas você também gosta de mim... Por que não abre esse coração?
- Eu já te disse... Já te disse que te amo tanto, e você nem pra me amar...

Nós gritamos, os quatro juntos, pra um abismo. E mal podemos nos ouvir.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Entre as linhas e os deslizes, tudo o que posso dizer é que muito tempo se passou.
E, de verdade, quase que não sobra o cheiro de bolo de chocolate que eu tanto gosto. Não sobram olhos que me lembram o que eu já vi e nem sorrisos de anos atrás.
Eu sei, meus caros, que eu nem sou tão velha assim. E se sou, os anos são poucos, nesse mundo externo. Quinze anos e milhões de memórias não cabem em contas.
Não posso dizer que tudo se foi. Ainda gosto de chuva, e de doces e de sorrisos. Ainda gosto de pular e de filmes como aqueles. Ainda sinto o cheiro de bolo em algumas tardes, e ainda amo estourar plástico-bolha.
Mas é que não dá mais. Esses prazeres tão curtos e tão extensos me fazem bem, mas não é o suficiente. Estou sentindo aquela antiga falta. Aquele gostinho de saudade no canto da boca, de alguém que nunca existiu de verdade.
Gostaria de até hoje ver aquela menina com quem eu subia na árvore e aquele menino de quem nem me lembro o nome. Hoje em dia meus relacionamentos mais longos tem três anos, ou quatro.
Estou sentindo falta. Falta de uma coisa que eu nunca tive: longa data. E é impossível ter isso por agora, porque eu - na minha ignorância - sempre amei aqueles que com o tempo se vão.
É tarde demais para querer voltar a ter o que eu não tive, e é quase tarde demais para explicá-lo.
Peço, a vocês que me lêem que só enquanto possam, não me abandonem. Que passem as chuvas, os bolos e os plásticos-bolha, mas que vocês fiquem aqui, aproveitando cada um. Só enquanto possam.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Leonina

Eu esperava isso - exatamente isso - de você. E ainda assim, você me decepcionou.
Não é que eu esperasse que você pensasse um pouco em mim ou nada disso. Não é que eu ache que você é egoísta - o que as vezes eu acho - ou que eu ache que mereça que você sacrifique um dia de atraso por mim.
O fato é que um dia, você reclamou a mim que eu não estava te dando o valor que eu dizia te dar. E que, se fosse assim, pra que rótulos?
Bom, na verdade, eu pensei muito nisso. Me senti um lixo: a pior pessoa do mundo. Quis me jogar na pia junto com as lágrimas e a água alaranjada que escorria de mim. Mas melhorei. E prometi pra mim mesma que tentaria ser o melhor com você do que nunca tinha sido antes. Me fiz jurar três vezes antes de dormir que você seria a pessoa com quem eu mais teria cuidado no mundo, só pra não ler mais um texto vermelho como aquele.
Mas você também não se preocupa. E eu também preciso de você. Também faço parte do grupo, por mais que você não queira ver. E hoje, eu vi que realmente: deixemos de lado os rótulos.
Se não significa mais o que significava, eu sinto muito. O Sr. T, de quem tanto reclamaste a atenção, deixou de rótulos comigo por esse seu sofrimento, e eu farei o mesmo.
Não quero separação: quero parar de me prender a uma coisa que não existe mais. Não que você tenha sumido da página inicial, mas existem outras pessoas que não poderiam ser menos do que você é.
Sim, nós precisamos uma da outra mais do que podemos imaginar, mas por enquanto esse ar de rivalidade - você sabe do que eu estou falando, tenho certeza de que você também sente - não nos deixa conviver bem.
Não pense, em momento algum, que isso é tudo culpa sua (não acho que você vai pensar, é só um lembrete). É que algumas pessoas que conviviam comigo no ano passado se foram. Não concordo com aquele estúpido, nem pense nisso. Não menosprezo a metamorfose das pessoas que eu amava, pelo contrário: uma se tornou uma estrela, e as outras duas, pessoas bem melhores que ainda não brilharam tudo o que tem pra brilhar.
Mas é que eu tenho saudades. Tenho saudades de Estela. Tenho saudades de você. E, principalmente, tenho saudades de mim.
E isso é tudo o que eu poderia conseguir dizer, finalmente.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Winter

It was a cold day
I think you don't know how much i love him
But it was a cold day
And you're asking me about your shirt

I told you in my mind
One thousand times
That i'm tired of you
And the jokes you do

I warned you
Inside my head
That I can't do that
Same old game of thinking about you in my bed

And you?

You can't read, and you can't think, and you can't feel
I told you a hundred times that i am here
You can't talk and you can't sing, and you can't change your opinion
I just can't keep screaming if you refuse to hear

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


Foi rápido demais. De repente, você está aqui. Nas fotos, nos vídeos, nos dias e nas noites. Na internet, no mundo, nos livros e nos arrependimentos. Nos medos, nos sorrisos, em mim e nele.
Eu não queria nunca ter provocado qualquer tipo de sofrimento em você, até porque, de alguma forma, isso me atinge também.
Parece que você é um pássaro que sempre me acompanhou, e eu não consigo deixar de cuidar de você.
Eu só queria escrever isso pra que toda vez que você olhasse no espelho, percebesse o quão especial você é. Por favor, não esqueça disso por nada. Por ninguém.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Parece um desses óculos 3D, que você acha que tá tudo aqui, perto e definido, e quando você tira são só milhares de borrões na tela.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

eu não quero despedidas

- Estou te ligando há dias... Onde você está?
- Não posso te dizer agora. O que você quer?
- Quero saber como você está.
- Mas você nem me conhece!
- Eu já disse: isso é o que você acha!
- Eu só posso achar o que sei, o que eu vejo e o que eu sinto.
- O problema todo é esse. Você não sente.
- Porque você não me deixa ver. To cansado desses telefonemas sem sentido. Eu sinto como se você já fizesse parte do meu mundo, mas eu nem sei o seu nome! Você precisa terminar com esse mistério. As coisas estão complicadas demais, por agora.
- Talvez... Um dia. Posso pensar no caso.
- Não era eu que deveria dar as ordens aqui? É você que me ama, não é?
- Vai me dizer que não me ama?
- Santo Deus! Eu nem sei quem é você!
- Eu já te disse que sabe. Mas você não quer saber...
- Eu não entendo seus códigos!
- O problema todo é esse. Você não entende.
- Me ajude a entender!
- Me diz onde você está.
- Eu não posso. As coisas andam perigosas, por aqui.
- Eu preciso saber!
- Por que?
- Olha... Eu tenho que desligar agora. Não sei se algum dia a gente vai se ver. Ou se ouvir. Só quero dizer mais uma vez que eu te amo. Você pode não me conhecer de verdade, e pode achar que as coisas mudaram... Mas parece que não. Eu posso me interessar por quem for, posso suspirar a noite por outro alguém e me remoer de remorso por um outro rosto... Mas você está aqui, o tempo todo. E eu quero que você suma, mas é tarde demais. Me desculpe, mesmo, de verdade, por ter te atrapalhado todo esse tempo. Eu sei que você não me conhece. Mas um dia, quando você abrir os olhos... Ver e entender... Eu vou estar aqui. E talvez eu esteja pronta, mais uma vez. Agora eu preciso mesmo desligar.
- Eu não sou uma má pessoa.
- Eu sei que não é. Você só é muito novo, por enquanto. Alguém me disse que você é muito pouco pra mim. E eu acho que você ainda tem que encher um pouco. Mas tudo bem, eu vou ser sua amiga. Você nem vai notar, eu prometo. Eu só queria estar aqui. Você me disse uma vez que onde quer que eu estivesse, você iria estar lá pra me carregar. Por favor, tudo o que eu quero é que você seja assim sempre. Dizendo as coisas que você sabe que são certas. Eu sei que isso parece um desabafo, mas é que eu preciso me livrar desse peso pra poder correr pros braços dele. Me desculpe, mas por enquanto, eu vou tentar ser carregada por outro alguém.
- Eu amo você, sabe. Mas você é minha amiga...
- Eu sei. Eu sei de tudo, galinha. Sei de tudo que se passa dentro de você. Só não posso ficar esperando você saber de tudo de mim. Mais tarde, mais lento, melhor... A gente se vê. Eu preciso mesmo desligar agora. Eu já me arrastei demais até aqui. Eu não quero uma despedida. Alguém me falou sobre um até logo, e eu preciso de um. Parei de beber. Por sua causa. Era só isso mesmo. Eu precisava dizer, antes que você acorde. O seu despertador vai tocar agora, eu preciso ir. Até logo, mochila. Até logo, tênis. Até logo, boné. Até logo, garoto-galinha. Até logo, pseudônimos. Eu preciso de uns olhos de piscina, agora.

Descalça

Meus pés sentindo o chão, daquele jeito que eu gosto. A temperatura, textura, o som pulsando. Os dedos livres, esticando-se e contraindo-se, o ar correndo, e a liberdade.
A velocidade do impacto, o sentir, sabe? Profundo, perto, aqui. O vento batendo, e a sensação de frescura. Ou falta de. O sol batendo, e o alívio de ser eu mesma. Sem meias.
A aventura, o frio na barriga, o medo de se espetar com alguma coisa. Não tem nada melhor.
Mas ao mesmo tempo, aquela sensação de estar tudo muito sujo, desconfortável. As pedrinhas tocando em pontos agudos, bem rápido. O medo de tropeçar e esfolar aquela mesma ferida de sempre, e a falta de segurança. O roçar do sujo no limpo, incômodo. A sensação de poder se ferir - ou derrubar algo muito maior - a qualquer momento.
É tão bom... E é tão ruim.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Flora

- É aqui. Sim, sim. Duas voltas de chave, precaução nunca é pouca. Não é? Pode tirar os sapatos, por favor? Sim. Obrigada. É linda, não é mesmo?
Eu copiei um modelo de uma casa de bonecas. Eu as amo! A propósito, lá em cima tenho uma coleção. Eu deixo você brincar lá, depois. Quer um chá? Deixe-me ver, tenho de frutas vermelhas, chá preto, erva doce... Uma infinidade de sabores. Hm? Morango? Claro que sim. É um dos meus favoritos. Eu mesma os preparo e ponho nesses saquinhos. O que? Ah, sim, é muito rápido. Hm... Você estava me contando alguma coisa, não é? Ah, sim, estava falando sobre as flores! Fale-me mais sobre as minhas pequenas. Você também as acha mágicas?
Lindas. Cada uma, em seu tom, cheiro e sabor. O que? É claro que sim! De que acha que se fazem os chás? A propósito, tenho chá de cada espécie de flor do mundo. Rosas, Lírios, Margaridas... O que? Claro que sim, adoro! Minhas preferidas? Lírios. Lírios laranjas. Ah, deliciosos!
Me desculpe se perco o fio da conversa, é que faz tempo que não recebo crianças aqui em casa. Elas me abandonaram, sabe? Lançaram esses video-games, computadores, televisores... E as fadas? Aparecem mal retratadas nas telinhas, enquanto eles perdem a oportunidade de conhecer uma de verdade. Me diga, você assiste televisão?
Não acha uma bobagem? Ficar parado vendo um mundo falso rodar, enquanto o jardim lhe espera lá fora! Eu não gosto.
As bonecas me segredaram o mistério da coisa. Disseram que algumas pessoas sonham em entrar nos aparelhos. Bobagem! Nem sabem que já estão lá há muito tempo. Nem sonham! Nem pensam...
Sim? Pode se sentar naquele sofá. Confortável, não? Fiz com algodão do jardim. Uma delicia! Tome, espero que goste. Não beba rápido, está quente. Isso.
-...
- Tudo bem, eu entendo. Só me responda, por favor... Quando você vai voltar?
Querido.
Acredito que essa carta não vá além da minha gaveta, mas ainda tenho esperanças de me encher de coragem e postá-la no correio.
É que preciso desabafar, e sei que você ainda pode me ouvir.
Os tempos mudaram, nossas crianças cresceram, e estão indo bem na escola. Comprei um carro com a herança que você me deixou, e posso levá-las e buscá-las todos os dias. Não existe mais aquela coisa de ir caminhando... segurança.
Mas o que eu vim lhe falar não tem a ver com nossos filhos, que estão mais do que bem. Vim falar de mim. De nós dois.
Ah, querido... Como você pôde? Como pôde ir pra essa loucura vermelha e quente que é a guerra, enquanto eu fiquei escondida no porão, com um bebê e uma garotinha de três anos? Como pôde, meu amor, ser tão descuidado, e morrer assim? Ah, meu querido...
Se você soubesse! Ando vasculhando os pedacinhos de você nas fotos, pra poder me completar. Leio os artigos, um por um, só pra sentir seu cheiro de jornal. Faz anos que vou no guarda-roupa só pra ver seu casaco. Sentir seu perfume.
Seus retratos me arrancam lágrimas, querido. Sinto como se mais de mil anos tivessem se passado, quando só foram doze. E eles nem sabem... Os anos. Nem sabem o quanto se arrastam, sem pedir permissão.
Meu amor, volte. Não sabe o quanto eu preciso te sentir aqui, do meu lado, mais uma vez. Por favor, dê um jeito, um daqueles que você sempre deu, e venha me ver. Venha enxugar essa tristeza crônica que se instalou no meu travesseiro. Venha e desarrume a cama, pelo menos uma vez.
Estou precisando de uma dose de você. Mesmo tendo dito tantas vezes que era o tal e o qual, eu sei que você me amava. Eu sentia, a cada gosto de omelete seu. A cada noite, e a cada dia. E a cada trago, e a cada gole.
Por favor, meu senhor. Você não me ensinou essa parte da vida, e eu não posso voltar a ser o que era. Não posso voltar pra aquele lugar. Não posso deixar tudo o que eu sei. Tudo o que você me ensinou.
Volte para mim antes do pôr do sol, porque isso está me matando.

Amorosamente, sua.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

não é real

Isso é pouco demais pra mim, garoto-galinha. Pouco demais pra uma pessoa que fez tudo o que eu perdi. Eu não estou pedindo que você saia, porque amo ter você aqui. Só estou pedindo que pare de me forçar a sentir o refluxo desse amor mal amado que você me fez amar.
O que mais eu tenho que mudar pra você entender que já passou?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Já era tarde, e eles continuavam ali.
Nenhum dos dois estava dormindo, mas fingiam. Mantinham os olhos fechados e a respiração profunda, abraçados no sofá. Estavam disfarçando para si mesmos o que estava acontecendo.
Na outra sala, os amigos dormiam profundamente, cada um em um colchonete.

“Talvez seja hora de irmos deitar. Não está desconfortável?”

Ele se chama Ferdinand. Carregava o nome como um fardo, desde que nascera. Ninguém o levava a sério.
Não era um completo solitário. Tinha o clube do livro, os amigos virtuais e aqueles que estavam no quarto ao lado. E tinha ela.
Ao contrário do de sempre, ele nunca tinha realmente pensado nela antes. Nem ela nele. As coisas simplesmente aconteceram assim, rápidas. Para os dois.
Quando cresceram, surpreenderam-se com a quantidade de pessoas que não acreditavam em amor mútuo ao acaso. Mas isso é uma coisa que vai longe demais. Começa nos filmes de maçã do amor, e acaba nos olhos de quem ouve.
O fato é que eles estavam lá, encolhidos em um sofá onde cabiam mais quatro, e ele, depois de tanto tempo, conseguira sair daquele jogo de fingimentos e dizer alguma coisa.

“Você gosta?”, ela perguntou, como se não tivesse ouvido a pergunte dele.

Tinha essa mania: na maior parte do tempo, ignorava as perguntas comuns, e soltava alguma loucura. Por exemplo, se você perguntasse a ela qual era sua cor favorita, ela poderia demorar horas te respondendo. Mas se lhe perguntasse como fora seu dia, ela te perguntaria qual era a sua cor favorita.
Cada amigo seu tinha lhe repetido a cor favorita mais de cinco vezes, mas pareciam não perceber o fato.

“Se eu gosto? Gosto do que?”

Naquele momento, ele gostava de quase tudo. Gostava da casquinha de pipoca no dente, do cheiro da garota que estava em seus braços, da garota que estava em seus braços, do fato de uma garota estar em seus braços, e da cor do sofá.

“Se você gosta da cor desse sofá. Eu sempre me perguntei que cor era. Mas sempre foi a minha cor favorita. E sempre que me perguntam qual é a minha cor favorita, eu não sei responder. E eu acabo me enrolando e dizendo algo que não tem nada a ver com esse sofá... Na verdade, na grande verdade, eu gosto da cor desse sofá quando estamos sentados em cima dele. E quando você encosta a sua mão na minha desse jeito. E eu nunca tinha percebido isso antes, sabe... É estranho.”

Mais uma vez, ela estava fazendo um monólogo por uma pergunta que não tinha sido respondida. Era tudo muito confuso com Julia.
Quando ela era pequena, seu tio escreveu um pequeno livro de dez páginas infantil, intitulado “O que está havendo com Julia?”. E para Ferdinand e seus amigos aquele era um nome absurdo, porque nunca se podia saber exatamente o que se passava com Julia. Ninguém nunca tinha ido tão longe a ponto de conseguir ser respondido de verdade por ela. Nem mesmo a sua mãe.

“É... Eu gosto. Posso perguntar que cor é pra minha mãe, se quiser. Mas... Você gostava desse sofá antes de... Sabe, hoje?”

Se existia alguém inseguro naquele grupo, esse alguém não era nenhum dos dois encolhidos naquele pedaço de almofada. Os dois sabiam o que eram e o que não eram, e estavam acostumados com isso.
Quando crianças testaram muito bem seus limites e preferências. Uma vez tentaram ser alienígenas. Até hoje testam, embaixo dos lençóis. Mas isso ninguém sabe completamente, e você também não vai saber.

“É uma boa pergunta. Eu demoraria muito pra ter uma resposta pra ela, sabe. E acho que é porque eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas isso não quer dizer que eu não tenha sentido. E eu não sei se eu senti , se não pensei. Entende? É tudo muito complexo. Sabe, eu sempre gostei do jeito que você me pergunta as coisas. Quero dizer. Eu sempre gostei das suas perguntas. Me fazem querer dar respostas. Me sinto uma artista de rock sendo entrevistada. Talvez isso seja algum coisa que eu senti, mas não pensei.”

Ficaram em silêncio. Ele tinha medo de falar e incentivar um novo monólogo. Não que ele não gostasse. Ele tinha acabado de perceber que adorava ouvi-la falar tão abertamente. Pensando e falando, pensando e falando...

“... E não precisa perguntar pra sua mãe que cor é. Talvez a minha cor preferida eu não consiga ver, de verdade. Sabe? Agora esse sofá é a minha cor preferida, mas se eu levantasse e fosse me deitar, a cama seria... O que responde à sua primeira pergunta. Viu só? Você me faz falar.”

Eles não tinham se beijado. Estavam encostados um nos outros com as mãos dadas, e de repente perceberam que se amavam. Talvez desde nascidos. E isso era engraçado. Engraçado o suficiente para suprir a falta de beijos, por enquanto.

“Acho que isso é bom, não é? Bom. No final das contas, não sei se algum dia eu pensei nisso antes. Entendo o que você quer dizer. Talvez a gente tenha sempre sentido e pensado, e só não sabemos. Eu acho que eu moro fora de mim. Eu acho, agora, que eu moro em você. Talvez isso explique muita coisa. Talvez isso só gere mais perguntas.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pintei-os.

Pintei-os porque não eram meus. Pintei-os numa tentativa - falha? - de tirá-los de suas mãos. Porque precisava senti-los como meus, ao menos uma vez.
Pintei-os. Se a minha cabeça queima tanto com todas idéias de desidéias internas, então que o mundo veja tudo de uma vez. Pintei-os pra transparentizá-los, seja lá o que isso signifique para cada um.
Não se foram. Continuam aqui, me atormentando. As raízes me gritam que não mudaram, que só lhes vesti com alguma coisa mais viva, ou menos eu. Estou discutindo com elas há anos. Cores não me definem, afinal! Não mais.
Pintei-os porque você os tomou, e lhes disse o jeito que você gostava, e impregnou o seu perfume em cada fio de cor. E eu precisava me livrar desse seu feitiço.
Pintei-os, e apesar de ter gostado de tudo o que me surgiu, não consegui o que queria. Surgiu exatamente o oposto.
Você os viu. E gostou da novidade? Veio, passou seus dedos por ele e lhe pareceu uma nova aventura. Aqui estão eles, já sem o mesmo brilho de antes, com o seu cheiro, e obedecendo suas ordens.
Sei que você não pode sair da minha cabeça, depois de todos esses testes... Mas é pedir demais, senhor Comedor de Pensamentos, que saia ao menos de meus cabelos?
Grata, Ariel-Mary-Jane-Jeam-Hayley-Williams-cantora-de-não-sei-daonde-ou-qualquer-coisa-que-se-afaste-da-sua-concepção-de-mim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Só a gente entende

Antes de acordar, sonhei que você leria isso e entenderia.
Sonhei com gatos pretos e bolas de gude em seus olhos, também. Mas isso não vem ao caso.
Ou talvez venha, depois.
Mas é que antes de dormir, pensei em você. Antes que se confunda, não estou falando daquele você que come meus pensamentos. Estou falando de você. Que perdeu suas noites e horas pensando em "mim". Você para quem eu estou apontando o dedo agora. Você que me ofereceu folhas em um casaco que - santo Deus! ainda não sei qual é.
Venho me consumindo. Não sei o que você quer dizer com adeus. Não sei o que pensar. Amava suas cartas, cada uma delas. Eram como uma sobremesa, depois do meu dia-almoço. Amava a certeza que você me trazia. Amava o forte que eu me sentia quando você estava por perto.
Essas coisas inexplicáveis, que você me explicou.
Venho me consumindo. Porque, todo o dia, quando eu vou embora, penso por mais de horas em como vou te falar que você é tudo o que eu preciso, mesmo não conseguindo te precisar. Naquela carroça metálica que me conduz a um outro mundo todo dia, fico imaginando como seria se eu fosse uma pessoa sensata e olhasse mais do que seus olhos. Ou simplesmente os olhasse, e não desviasse a atenção.
Venho me consumindo porque, no fundo, eu amo você. Mas você, justamente você, me abriu os olhos em alguma conversa infernal. Me falou sobre passado e presente, e eu entendi. Acontece, duende, que eu te amo no futuro. E isso é tudo uma loucura. Porque o futuro se torna presente, e no presente, não consigo sentir o que sinto por você no pensamento.
E isso não é uma carta pra te encher de esperanças, ou te fazer "feliz".
É que todo esse tempo, todo esse maldito tempo, a minha casa esteve cheia de gatos pretos com olhos de bolas de gude. E eles não paravam de miar, e não me deixavam pensar. Ficavam me pedindo por uma explicação pra eu ser tão idiota, pra eu não te amar, ou nem ao menos tentar. Mas ao mesmo tempo, não me davam tempo pra uma resposta. E tudo o que eu respondia era "miau".
Mas ontem, no meu sonho, espantei-os. Todos. Um por um. Só pra poder sentar no meu sofá - agora peludo - e pensar no que te dizer, e no que "me" dizer. Acordei com essa resposta mal dormida nos dedos.
Estava precisando mesmo. Eu precisava me explicar o porquê de eu não te amar, se eu te amo. Precisava te explicar que eu te amarei. Eu te amarei no nunca do meu futuro, por enquanto.
E essa não é uma resposta definitiva, porque, como eu já te disse mais de mil vezes, eu não sou dessas que para em uma conclusão e mora lá até envelhecer. Você bem já viu isso.
Essa é uma resposta temporária de uma pessoa cansada, agora cheia de onomatopéias de porcos nos ouvidos e nos olhos, esperando mais um metrô até o dia dois.
E eu espero, velho-duende-chapeleiro-rumpelstikin(é assim?)-menino-moço-do-cabelo-cacheado-Gesteira, que você entenda o que eu quis dizer.
Porque por mais que se tente, é sempre uma confusão enorme dentro da gente, e é sempre impossível fazer-se traduzir por completo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um eu de muitos sinônimos

(...)
Punição. Só uma forma bruta de enfiar pela güela algum tipo de bondades, dessas que vêem aos montes. O menino, coitado, plantava semente de ódio, pra nascer fruto de vingança. Acaba que quando se tenta engolir valores à força, regurgita-se os que se mantinham. O menino criava mais coisa ruim do que boa, dentro de si.
O erro se esconde em querer botar o bem e o mal por um todo. Ora veja, se o pai, que tanto nega a maldade do menino, fosse de todo bom, então não batia com tanta crueldade na criança. E o moleque, arruaceiro que só, se fosse de todo mal, não choraria de arrependimento depois. Nem criança seria.
Não dizem que eu, odiado por todos os que se dizem bons, o Faca Fria, o Hermógenes, o Treciziano, se fosse de todo ruim, não seria criado por Deus, e Deus, tão adorado como o Senhor, se fosse de todo bom não tinha me criado?
Deus e o diabo têm espaço em cada pedacinho de coisa, em cada canto da natureza, em cada Sertão. Cabe bem e mal em cada pedaço de folha, bicho, gente e rio.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Amor

Se é só isso o que vocês tem, então eu recuso, muito obrigada
Vocês podem até me dizer que essa coisa de se amor não vem em receita, ou não é de se comprar,
Mas eu estou farta de tanta enrolação, pra no final ter isso.
Se querem me propor felicidade como recompensa, eu prefiro encontrá-la em outros gostos.
Não é o suficiente, pra mim. Essa coisa de incorrespondencia, falta, sobra, mais, menos.
E se for pra provar, então que venha em dose dupla, pra poder oferecer pra alguém disponível.
Injustiça demais, apego demais, descontrole demais;
Se é o sentimento dos anjos, então eles que o guardem pra eles
Aqui na terra isso já fez mal demais

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

vai entender

Sentada numa praça qualquer, eu sentia o vento contra o meu rosto, e fechava os olhos, enquanto ouvia aquela mesma música de sempre. Meu cabelo batia forte no rosto, e minhas mãos se escondiam nos bolsos, enquanto eu tentava sair daquele plano mais uma vez.
E ali, naquele banco duro, olhando pro mar, eu decidi.
Decidi que vou me despedir. Eu estou desistindo do amor, de uma vez por todas.
Estou desistindo da mesma música de sempre, da mesma banda, e das mesmas lágrimas. Estou desistindo dos cheiros, dos chás e dos cafés.
Estou desistindo porque, finalmente, eu vi que isso tudo não é pra mim. Lágrimas não são pra mim. Dor não é pra mim. Olhares não são pra mim. Você não é pra mim. Eu não sou pra mim. Queimaduras e masoquismo não são pra mim.
Tudo o que eu mais quero é que, quando eu me sentar nesse banco dessa praça desse mar, eu possa sentir o cabelo batendo no rosto, sentir a música - talvez não a mesma - e o vento.
Eu simplesmente não posso mais ignorar tudo que está a minha volta. Não posso mais perder a partida dos meus melhores erros, não posso mais correr da chuva, não posso mais chegar atrasada, e nem sentir esse remorso constante. Não posso porque essa coisa toda de amor não está no nome. Porque amor não é um sentimento só. Amor é como tirar um pouco de cada sentimento que existe dentro de você.
E eu cansei de não sentir isso.
Estou me despedindo de vez. Estou dando tchau para as pétalas, para as músicas, para as lágrimas e para os sonhos.
E você. Vou embora de você sem conseguir o que eu sempre quis: que você me olhasse. Queria que você parasse e olhasse pra mim. De verdade. Queria que, ao menos uma vez, você lesse os meus olhos e a minha mente. Queria que olhasse pra meus cabelos, e para a minha voz. Queria que você me visse e me retratasse. Queria que você me visse. Mas você anda com os olhos fechados o tempo todo, e constrói o seu caminho as cegas.
Então vou embora, antes que você resolva abrir os olhos e ver que eu estou aqui.
Vou embora. Porque sem esse meu "amor", uma parte de mim some, essa eu não existe. E esse você muito menos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Quer saber? Não me importa.
Não faz a menor diferença, não mais. Cansei. Não vou mais fingir que você não existe, nem desviar o olhar. Não vou me importar com o que você pensa. Não vou mais prender o cabelo por sua causa. Não vou mais olhar pra trás, não vou mais te esperar.
Não vou mais ficar com cara de triste, não vou mais ficar com cara de feliz. Não vou fazer mais caras, nem bocas, nem cenas. Chega.
Já está bom demais pra mim. Você não merece tanto. Eu não mereço tanto.
Desisti de ficar presa ao chão só por você, só porque você também está. Se quer saber, hoje mesmo vou voltar a flutuar, e não vou olhar pro chão até te ver no seu tamanho original: minúsculo.
Eu vou voar. Vou subir pelo meu azul preferido, e deitar nas nuvens. Vou voar com a brisa lá de cima, e sentir a pressão nos meus ouvidos. Só pra poder voltar a ser o que eu sou, e voltar a ver meus amigos pássaros, que eles - esses sim - merecem.
"Eu vou provar o céu e me sentir viva de novo."

Starlight

Bem longe
Essa nave está me levando para bem longe
Pra bem longe das memórias
Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

Luz das estrelas
Eu vou estar perseguindo a luz das estrelas
Até o fim da minha vida
Eu não sei se ela vale mais

Segurar você em meus braços
Eu só quero segurar
Você em meus braços

Minha vida
Você eletrifica minha vida
Vamos conspirar para (dar) ignição
Todas as almas que podem morrer apenas para se sentir vivas

Mas eu nunca vou deixar você ir
Se você prometer não desaparecer
Nunca desaparecer

Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações


Muse


É só que diz tanto tudo o que eu quero dizer...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

res pirar

Abaixo a cabeça e inspiro. Inspiro tudo isso que me faz tossir, e tudo isso que me faz doer e sentir o coração saltar sem aviso. Vou inspirando, bem devagar, tudo aquilo que fez e faz falta no meu interior. Cheiro de roça. Vou inspirando essas mágoas e músicas que já me fizeram tão bem e tão mal. E vou inspirando os gostos e cheiros, que sempre se prendem no meu bem-querer.
Inspiro tudo isso - talvez mais - e deixo tudo preso por algum tempo. É que parece que não se faz o valor quando as coisas passam muito rápido, como quando um flash de lembrança corre pelo olho, e acaba pairando no canto da memória - já um pouco distorcida - e você fica se perguntando o que aconteceu. Prendendo a respiração, parece que se absorve mais ar.
Prendo até que minhas bochechas fiquem vermelhas, e os olhos comecem a esbugalhar. Então, no melhor dos alívios, solto. Solto todos os gritos que engulo - e me arrependo de ter engolido - e todas as conversas que gostaria de ter tido. Solto as palavras que me faltaram te dizer, e as verdades que eu guardo nas lentes que não uso, mas que... céus! como deveria usar!
Vou soltando, não sei se rápido ou devagar, e fecho os olhos, no intuito de expirar tudo o que sobrou de morto em mim. Aquele frango, e aquela coca-cola. Aquela nota. Ah, quase me esqueço: aqueles abraços que não vieram, que se materializaram em uma esperança morta que se prende em mim todos os dias.
E, enfim, quando sopro todo ar que existe e que não existe em mim, volto a respirar normalmente.
Ando suspirando muito ultimamente.

Se é pra ser direta...

Tenho que confessar que tentei de todas as maneiras possíveis responder a última coisa antes do trem.
Tentei pedir pra você ficar, tentei dizer que te amo, tentei alcançar seu trem - mais uma vez - e tentei lhe dizer o quanto senti isso que eu li.
Tentei de todas as formas me comunicar com você, mas seu maquinista se enganou. O trem já partiu há muito tempo, pra mim.
No final das contas, tudo pareceu egoísta demais, errado demais, inoportuno demais. Não quero desconstruir tudo o que foi construído nesse seu último adeus.
Fiz tudo muito mal feito e falei tudo mal falado, mal destroçado.
Acontece que eu não tenho trem. Eu vou andando de metrô prum lado e pro outro, assim... Sem decisão, sem ponto de partida e sem chegada.
Não consegui fazer ninguém entender o que eu sinto e o que eu penso sobre tudo isso. Talvez porque seja muito meu, ou muito nosso. Muito interno.
E eu usei os meus olhos - os únicos que eu tenho - pra ver o trem partir, pela última vez, cantando e dançando alto "A Letter To Elise" e me soltando de tudo o que eu te devia e tudo o que você me deve.
Sentirei saudades. Mas não há dúvidas: é uma era, é uma nova carta pra Elise, é um novo você e é uma nova eu.

A máquina

(...)
- Eu te prometi, lembra? Tá tudo aqui: a televisão, as câmeras, o dinheiro, o sucesso, a comida... Eu trouxe, Karina! Trouxe o mundo pra você.
- As coisas não são assim, Antônio.
Será possível? Será que ele estava realmente tão perdido em seus sonhos? Por que é que ele não abria os olhos? Por que eu não fechava os meus?
- Assim como, Karina? Não foi isso que eu lhe prometi? O mar, Karina. Até o mar eu trouxe pra você. Pro's seus olhos verem a cor deles refletida na água.
- Antônio, você nunca mais voltou! Eu tinha que fazer alguma coisa da minha vida!
- Vida? Vida, Karina? Eu deixei a minha vida com você pra poder trazer pra Nordestina tudo o que você sempre quis!
Fechei os olhos, pra chorar mais ainda. Chorava porque sabia que era tudo culpa minha. Porque ainda o amava. Porque sabia que minha vida também havia ficado com ele. Porque eu só me encontrava quando ele estava por perto.
- Chora não, Karina. Chora não que ainda dá tempo. Esquece essa coisa de marido e vamo embora! Nem trouxa precisa arrumar, que eu comprei os vestidos mais lindos do mundo todo pra você. Trouxe o mundo! Viaja comigo e com o mundo, Karina!
- Eu não posso, Antônio.
- Mas não poder é coisa inventada, meu amor. E não foi isso que você sempre quis? Sair de Nordestina? Vamos, Karina! Eu vou com o mundo pro mundo com você.
- Mas Antônio... É pior do que parece.
- É o quê?
- Eu tenho um fruto, Antônio. Fruto de uma árvore que foi regada a lágrimas. Árvore que plantaram sem minha permissão. E esse fruto, e essa árvore... Eles não teem culpa de ter uma raiz seca como eu.
(...)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

De tantas páginas rasgadas, pontas de grafite quebradas, teclas mal pressionadas, lápis mordidos e lentes gastas que não posso usar, cansei de procurar motivos pra me fazer compreender.

Me dói os olhos, que posso fazer?

Evito deixá-los fechados por muito tempo, para não perder nada do que pode vir a acontecer. É como se fosse necessária uma prova - ou mais uma, um pouco mais explícita - de que não existe nada que te prenda a mim.
Quando eu era pequena, tinha medo do que eu imaginava. O que mais me assustava naquela época, não era o bicho papão ou a Cuca - com esses eu até simpatizava. O que me deixava as pernas bambas de verdade era a minha própria mente, e a minha capacidade de imaginar tantas coisas terríveis ao mesmo tempo.
Antes de dormir, abraçava o travesseiro e espremia os olhos enquanto surgiam aquelas pessoas desfiguradas, os rostos assustadores - que eu nunca conheci - e eu mesma, em estado de loucura.
Passaram-se anos, e a razão veio me puxando pelo braço. Hoje, ainda imagino coisas horripilantes. Mas com a idade, surgiram medos muito piores do que qualquer terror infantil.
Como o medo que me dá todas as noites, com a cabeça no travesseiro. A imagem de você com qualquer pessoa muito melhor do que eu. Sobem arrepios pela minha espinha, e custo a dormir. De mais que medo: pavor.
(...)
Então, quando acordo da minha insônia, e vejo os seus olhos correndo por algum canto de boca, preciso assistir até o fim, e preciso sentir aquele punhal no coração. Preciso pensar: que idiota! e preciso perceber - mais uma vez - que não existe um final feliz sem príncipe (ou princesa).
(...)

Eu esperei
Por muito tempo
Muito tempo que se sente
Tempo sem relógio
Marcado pelos ponteiros da ansiedade

Eu marquei no meu braço
O traço do seu nome
E desenhei o mar
Até o infinito

Eu estou sentada nessa pedra
Com os olhos fechados
Esperando o tempo que sinto
Pra você me cegar de uma vez

domingo, 22 de agosto de 2010

Isso tudo não é pra mim.
Essa coisa de impessoalidade, de falta de aviso e de mudança de planos. Ah! E essa coisa de movimento, dança, som alto, e loucura sóbria. Que isso! Nem pensar.
E agora, essa coisa de proximidade, intimidade, sem nem conhecimento! Deus é mais.
Eu sou mesmo é antiga! Velha não, nada de velha. Antiga. Daquelas que gosta dos textos no papel amarelo, da avó, de lápis mordido e de fotos em preto e branco. Filmes em preto e branco. Eu acho mesmo que essa coisa toda colorida não tem magia nenhuma. Vai entender.
Mas é verdade que essa coisa toda de ser antiga tem suas qualidades.
Eu tenho certeza que gente nova nenhuma pode sentir o que eu sinto quando chega uma caixa de chocolates em forma de coração. Quando chegam cartas - correspondidas ou não - cheias de sentimento e beleza. Quando se passa uma tarde bebendo alguma coisa fraca e conversando com aqueles amigos antigos, sobre música e tempo. E o chá das seis? E os livros incontáveis, e o tom de um por do sol?
Ah, eu prefiro mesmo é esquecer qualquer música alta, loucura sóbria ou "diversão" atual. Eu prefiro mesmo é escrever com um chocolate quente por perto, e uma lareira pro frio.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Não sei um nome pra dar pra isso.

Mas é que cansei. Cansei de me perder em rabiscos enquanto não ouço algo que eu deveria prestar atenção. Cansei de olhar pra um reflexo meu num papel e ver como tudo está errado, e em como poderia estar certo.
Cansei dessa confusão de querer o certo mas fazer o errado.
Cansei de estar aqui quando minha mente deveria estar perdida naquelas coisas que me dizem que vão me levar a algum lugar.
Cansei de procurar dotes e magias em pessoas, quando isso não existe mais. Não existe mais em mim nem em ninguém.
Cansei de amar e odiar tanto as atitudes alheias, e cansei de me preocupar com o que é e o que não é. O que está e o que foi embora há exatamente onze meses e dezesseis dias.
E cansei daquilo que não existiu nunca, mas que foi de se tocar.
Cansei de procurar sentido no cansaço e nas palavras que eu derramo nesse refúgio que eu cansei de me refugiar.
Cansei de mim, de você, nós, vós, eles.
Cansei de estar cansada, e cansei de procurar maneiras pra fugir desse cansaço crônico.


Ah, e cansei de não conseguir por um fim nisso aqui.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

E agora?
O que é que se faz com a falta dos tempos em que eu era feliz só por ser? E que as coisas eram fáceis, e as preocupações eram outras?
O que é que eu faço com a saudade do meu amigo que fugiu de mim e dele mesmo? E de mim? Que fugi deles e de mim mesma?
E se todo mundo fugiu, o que é que resta aqui?
E agora se eu não sei o que está acontecendo, não sei onde eles estão e onde está tudo?
E agora? Onde está a mesa onde eu coloco o meu chá de todas as tardes?
Não, eu não pedi um banquinho. Pedi uma MESA.
Eu tinha uma! Onde é que está, pelo amor de Deus?

Não é chá

Essas coisas todas desmoronam tão rápido!
Uma hora você está tomando um chá doce, sorrindo e voando com alguma música linda, e pensando no quão sortudo você é, e como as coisas podem dar certo, e sabe? Você pensa que não é tão impossível assim ser feliz, e você sente o vento batendo no seu rosto, e levando os seus cabelos pra longe. Pra outro lugar e outro sabor.
E então, você pisca os olhos e se vê falando com a pessoa que mais ama no mundo sobre como ela vai sair com outro alguém. E nas suas mãos não tem chá nenhum, só um copo de água gelada, que você poderia jogar na sua cara.
Ao invés de vento, caem pingos irritantes de alguma árvore inquieta, e a sua felicidade parece que fugiu para a finlândia com o fim.
E então, como se ainda pudesse piorar, essa pessoa vai embora, e foge de você e de seus olhos. Foge da imagem que existe dentro de você, e te deixa sozinho, com cara de babaca, segurando um copo frio na mão, e com o rosto molhado.
Ah, as coisas desmoronam tão rápido.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

me dou conta

Nem sei mais se quero algo com isso aqui.
(...)
Até lá, meu amor, eu vou chorar com a lua e com as estrelas, e com esse você que eu guardo nessa minha memória turva.

domingo, 15 de agosto de 2010

Não, não acho que estou errada.
Não acho que eu mereça toda uma enxurrada de palavras só porque esqueci o copo na mesa, ou porque esqueci de ver se a roupa estava na chuva, ou porque não vi o sol ir embora.
Não acho que seja tarde demais pra mim, e se for, prefiro desistir de uma vez. Não me vejo vivendo sem o que sou agora, e não existe possibilidade de concerto sem oficina.
Então que seja, não quero saber se a hora já passou ou ainda está por vir. Feche a porta e me deixe ouvir essas músicas que você não conhece, e pensar sobre como as coisas veem e vão, e em como eu gostaria que a minha estrela estivesse viva.
Não, não acho que estou certa. Mas nunca disse que isso mudaria alguma coisa.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

fez-se noite

Fez-se dia e você percebeu. Viu que estava amanhecendo e se apressou em correr e cobrir tudo com o dia mais maravilhoso do mundo.
E então eu sorri. Sorri como se as estrelas não se encontrassem mais no céu, e sim dentro de mim, escorrendo pelos meus olhos e ouvidos, e fugindo com toda aquela luz. Sorri como se tudo o que existisse fosse lindo e maravilhoso, e a vida fizesse sentido e o dia e a noite tapassem o que quer que fosse além disso. Como se os milhões de problemas mundiais não fossem nada comparado aos seus lábios e aos seus beijos e à sua voz. Ah, como eu sorri.
E você me viu sorrindo. E você viu o meu dia. E então pensou: "ah, aqui está ótimo. Já está na hora da noite.", abraçou-me - daquele jeito frouxo que eu odeio - e saiu andando, correndo, sorrindo, atrás do seu ônibus.
E eu fiquei lá parada, vendo tudo sumir, e as estrelas correrem pro céu, e o dia e a noite fugirem de sentidos e razões, e o mundo todo escurecer, enquanto a luz ia pro outro lado; pro seu lado.
As sombras surgiram e o medo veio me afobar. Veio o frio, e a falta do seu calor. Veio toda a escuridão e eu me perdi. Me perdi nessa floresta escura, que eu nem sei mais se é floresta, ou se é alguma coisa.
As sombras surgiram e me taparam, e o meu sorriso correu pra junto do sol e pra longe de mim.
E eu estou aqui esperando amanhecer de novo, porque não pode ser o fim do mundo. Não pode ser o fim de eu e você. Não se pode nem ao menos chamar isso de fim, até que você e o seu sol não voltem a tempo.

É claro que eu to afim

Uma dose, por favor.
Da mais amarga que você tiver, moço. Porque eu já me cansei dessas doses doces que veem aos poucos, e acabam com esse gosto amargo preso na garganta.
Cansei, sabia? Cansei dessas doses que me deixam tonta de bêbada, pra depois vir essa ressaca mortal e me deixar inútil na cama. Quero uma dose amarga, que essa pelo menos já me avisa que o que vem não é bom.
Sem gelo, moço. Que tudo o que o gelo faz é diluir as coisas. E deixar aguado. E eu quero uma dose que seja ela mesma, por favor.
Quer dizer, querer mesmo eu não quero não, moço. Deixa pra próxima. Eu só me contento mesmo é com essas doses doces e amargas e com gelo.
Pena que acabou.

respire e engula

É difícil respirar enquanto se tenta engolir tudo isso.
Enquanto se tenta engolir tudo o que se pensou em tardes escuras no seu quarto solitário: o plural e as músicas de uma noite fria. Engolir as cores que se imaginou que combinavam e as poesias e melodias que se criavam para os momentos com alguém. Engolir os pensamentos que tanto iludem, um por um, e tragar os seus gostos e loucuras diferentes. Engolir os beijos e abraços e suspiros e contornos e palavras de outra pessoa. Engolir todo um sentimento de anos para uma proximidade de dias, e engolir qualquer proximidade. Engolir o amor e a dor, engolir o dia e a noite, engolir eu e você, e principalmente, engolir o nós.
É difícil respirar e é difícil engolir, porque dói fundo na garganta.
Mas mais difícil ainda é vomitar tudo isso em lágrimas e soluços em algum canto escuro e solitário do seu quarto, que não é o mesmo sem "ele".
Onde é que eu estava com a cabeça?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Não é uma carta que se responda

Eu estou escutando aquela música. A música que pra mim, começou com isso tudo.
E é por ouvir ela, que eu acho que te devo alguma coisa, sim. Te devo muita coisa, velhinho.
É: velhinho. Dá pra ver por trás de seus óculos sem lente que é isso o que você é.
Eu te devo uma dedicação e um sentimento inexplicável, eu te devo meus pseudônimos, eu te devo dias e noites que me fizeram ir e voltar em concepções suas.
Te devo uma disposição surreal, te devo uma valorização (ou melhor, super valorização), te devo suspiros, te devo explicações e mistérios. Te devo lágrimas. Milhares. Todo um oceano que vazou pelas suas lentes correndo de sua dor. Dor que foi causada por algo em mim que até hoje eu não sei explicar.
Egoísmo? Ignorância? Não sei.
Sei que tudo o que eu fiz foi ser uma pessoa "ingrata" por muito tempo. E não digo que isso vá mudar, porque agora eu posso ser pior do que nunca, velhinho.
Mas, acredite, quando eu crescer e ficar assim que nem você, eu vou me tocar e pensar comigo mesma: "Ah,e o Rumpelstiltskin... ele me faria feliz!"
Mas eu não consigo agora, velhinho querido. Ou talvez consiga, mas isso não mudaria nada.
Tudo o que eu posso fazer, e mesmo você achando que é fingimento eu faço, é te guardar nesse pedacinho confortável que eu tenho aqui dentro do peito, junto com todo esse carinho que lhe guardo - que não é pouco.
E eu espero que você entenda que isso é tudo.

romance demais

E agora que eu sorrio sozinha, e deito e lembro? E agora que eu sinto esse perfume o tempo todo?
E agora que eu vejo filmes melosos e meu coração salta? E esse gosto de pipoca e coca-cola, e eu só pensando em algum cinema ou momento?
E agora que eu leio aquelas coisas de maçã do amor e me derreto, o que é que a gente faz?
Ah, meu querido, é melhor você sair desse castigo...

sábado, 7 de agosto de 2010

embaralhado

Todos esses conflitos e essas confusões e discussões de uma coisa que eu ainda nem assimilei direito me fizeram doente.
E eu passei dias na cama, com os olhos vermelhos e inchados, perdidos em alguma tela, lendo coisas sem sentido e me perguntando outras versões. Me perdi em definições e as amaldiçoei profundamente. Me perdi nos rótulos, nos espirros, nas lágrimas e no gosto de remédio.
E acabo que me encontro onde não estou. E acaba que onde estou não encontro mais seus abraços, seu perfume, e nem você. E nem eu e nem nada.
Ah, que confusão é estar doente!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O homem do sorriso

Todo dia de tarde, enquanto eu estou sentada naquele banco, esperando por um motivo para ir pra casa, e escutando alguma coisa que não me faz diferença aos ouvidos, ele vem vindo de longe, com suas blusas claras e seu sorriso enorme.
Um sorriso que ilumina o dia. E vem sempre perfumado, bem-vestido, os olhos brilhando por trás dos óculos de grau.
Não importa o que aconteça, ele sempre sustenta todos com aquele sorriso, que chega a ser maior do que seu corpo e seu guarda-chuva.
E vem falando rápido, com seus abraços aconchegantes, e trazendo novidades do mundo de lá. E eu aproveito e escuto tudo atenciosamente, como uma dessas aulas que ele dá, em seus cálculos e moléculas de felicidade.
E depois, ele vai embora, e eu leio o seu diário, para no outro dia vê-lo e comentar sobre suas palavras e sua poesia, e ele lê o meu diário e me conhece tão bem!
Ah, e todos esses dias eu fico lá no meu banco, esperando por ele e por seu sorriso, só pra poder voltar pra casa feliz e pronta pra o que essa casa venha a me dizer.
E eu sempre preciso tanto daquele sorriso!

E agora que você arruinou tudo

Se é que ainda lhe guardo algum pote, te digo: está vazio.
Não posso falar de cores com quem enxerga em sépia, não posso conversar sobre amores e acontecimentos quando tudo o que você vê é que eu deveria estar te falando aquilo.
Me entende? Quando você me diz que você DEVERIA saber daquilo, tudo o que eu posso dizer é que ninguém deve nada a ninguém, nem fica devendo nem tem o dever.
E se sentimentos são assim como café quente, então por que é que eu não posso queimar a mão? Ou deixar cair um pouco da chícara?
Sem mais correspondências, que eu já vi que o que você absorve disso não é saúde, nem cor, nem importância.
Só uma última mensagem: se você me pede desculpas, então está sendo completamente injusto. Ou eu aceito e engulo essa mágoa, ou eu nego e te enfio mágoa pela güela.
Sem desculpas, correspondências ou deverias. Eu sou assim, quer você queira ou não.

fez-se dia!

Se me sinto mais livre?
Ah, demoraria séculos para te responder. Quero dizer, ainda amo seu perfume, ainda adoro os seus abraços e ainda espero um pouco antes de sair da sala para ver se você me alcança.
Todas as suas palavras ainda são e vão ser ouvidas, e ainda bate dentro de mim essa vontade louca de você e de mais ninguém, por mais que eu tente evitar.
E lhe digo mais: ainda não entendo o porquê de sentir isso, e ainda procuro entender.
Mas é que - o que eu posso dizer? Fez-se dia, e eu amanheci junto com o sol! E toda essa luz que me dominou me afasta de tudo isso que não me deixava parar e pensar nas flores e nos cheiros e nas cores. E eu amo tanto todas essas magias e perfumes!
Então, meu querido, me desculpe. Mas chegue para o lado e abra espaço pras outras coisas entrarem nessa caxinha colorida.
O quê? Ah, a chave? Ainda está no seu bolso, meu amor.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Falar sem pensar, falar sem pensar, e falar sem pensar. É só isso o que as pessoas sabem fazer.
E isso não me exclui.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

?

Ah, quem nunca perdeu os limites? Quem nunca se deixou levar por essa loucura que é a vontade? E quem nunca se arrependeu? Que atire a primeira pedra, por favor.
Alguém me diz qual é o problema de sair das estribeiras alguma vez? E se você fizer o que não queria, e jogar pra fora o que te faz mal, e se sentir bem no outro dia? Quem é que vai dizer que você está errado?
Afinal, não é cada um que sente o cada um de cada uma dessas dúvidas? E não é isso que torna tudo mais fantástico?
Então se eu passei vergonha, qual é a feiúra nisso tudo?
São os olhares, ah! esses malditos olhares que tanto me reprovam. E que eu nem retribuo.
Afinal, não é isso que torna tudo mais fantástico? Façam-me o favor...

Se é que sou clara...

Ah, vou lhe contar: acho que no meio das correspondências que tanto se arrastaram por essas coisas virtuais que nem sei se existem, perdeu-se a minha visão de sua primeira carta.
E então vou tentar lhe esclarecer: não existem meus coturnos, nem existe o que eu sou, o que você é, o que nós somos.
Eu sou essa indefinição ambulante que tanto tenta se manifestar por esses textos atrapalhados e redigitados mais de mil vezes. Sou essa coisa que nem coisa é, que nem é nada mesmo. Sou sem ser ou estar.
E você, querido, ah! você é o que você quer ser, já que não existem cascas ou perfumes ou coturnos que te envolvam dessa forma. E você é o que você diz e o que você pensa e o que você faz.
E nós... Nós somos uma face que se perdeu, e que, como sempre me acontece, ficou parada em uma canto da memória ou em um site qualquer, como esse meu e aquele seu.
E não há maneiras de desvendar essas loucuras por uma correspondência de fala, escrita, olhar ou escuta, quando esses coturnos tapam seus olhos.

domingo, 1 de agosto de 2010

Ontem a noite

Cansei.
Cansei de pensar cinquenta vezes antes de tomar uma atitude, ou de deixar as coisas acontecerem. Cansei de me perguntar se é certo ou errado, se eu vou me arrepender ou se eu aprovo. Cansei de ficar esperando em qualquer coisa laranja, desconfortável e dura.
Não se engane, eu não cansei de você.
Mas cansei de ficar esperando uma flor, quando eu já desabrochei a muito tempo nessa espera. Cansei de te ouvir suspirar por qualquer coisa, ou de te ouvir falar daquele jeito que tanto me dói, e não dizer nada. Cansei de ter que dar um passo pra frente e dois pra trás, quando você está a tantos quilometros de distância.
Cansei de disfarçar, já que você já sabe de tudo.
O tempo todo você sabia que me fazia chorar com aquelas palavras grossas, que me fazia delirar com seus abraços, e que me fazia escrever qualquer desabafo nesse esconderijo que eu nem sei mais se esconde alguma coisa.
Cansei. E vou lhe provar que você está errado.
Eu não estou mais atenta aos seus passos, não espero por você e nem desejo seus abraços com toda a intensidade de um ranger de dentes.
Eu vou sair pela porta no meu tempo, e vou esquecer de onde você está, e se você vem atrás de mim.
Mas eu não cansei de você, e nem esqueci. Te guardo nesse pote de tantas cores, e não há dúvidas que você vai ter a chave.
Só que as suas palavras não me dominam mais.