Evito deixá-los fechados por muito tempo, para não perder nada do que pode vir a acontecer. É como se fosse necessária uma prova - ou mais uma, um pouco mais explícita - de que não existe nada que te prenda a mim.
Quando eu era pequena, tinha medo do que eu imaginava. O que mais me assustava naquela época, não era o bicho papão ou a Cuca - com esses eu até simpatizava. O que me deixava as pernas bambas de verdade era a minha própria mente, e a minha capacidade de imaginar tantas coisas terríveis ao mesmo tempo.
Antes de dormir, abraçava o travesseiro e espremia os olhos enquanto surgiam aquelas pessoas desfiguradas, os rostos assustadores - que eu nunca conheci - e eu mesma, em estado de loucura.
Passaram-se anos, e a razão veio me puxando pelo braço. Hoje, ainda imagino coisas horripilantes. Mas com a idade, surgiram medos muito piores do que qualquer terror infantil.
Como o medo que me dá todas as noites, com a cabeça no travesseiro. A imagem de você com qualquer pessoa muito melhor do que eu. Sobem arrepios pela minha espinha, e custo a dormir. De mais que medo: pavor.
(...)
Então, quando acordo da minha insônia, e vejo os seus olhos correndo por algum canto de boca, preciso assistir até o fim, e preciso sentir aquele punhal no coração. Preciso pensar: que idiota! e preciso perceber - mais uma vez - que não existe um final feliz sem príncipe (ou princesa).
(...)
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