segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
semvirgula
Na solidão de uma tarde tediosa um fio de pensamento rasteja por minha cama quente até a minha orelha e atravessa o meu canal auditivo até chegar ao meu cérebro. Se conecta com o emaranhado e costura uma ideia bonita e falsa um pedaço de horizonte que só faria sentido se hoje não fosse hoje e os dias fossem escuros. O dia é de sol a tarde é só um arde com t e o t é o que me falta. Uma baforada curta do ventilador assossega minha euforia e tira meus cabelos suados da tesa. Eu não sei suar. Perdi essa habilidade os toques não me arrepiam os olhos não me enfeitiçam as palavras não soam melódicas. A companhia deixou de ser necessária mas em compensação o abraço é muito mais sincero. Saio pra noite e caço corações perdidos me desafio a conquistar e desbravar os muros que as pessoas constroem pra se proteger. Avanço nas táticas de segurança e me lambuzo com a coragem inocente de quem parece ter encontrado um pote de ouro. A manhã surge e esclarece os cheques que não depositei. Uma semana de férias.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Chegar em casa. Uma porta, dois cadeados, correntes. Abre as janelas, trancas diferentes. Chave em cima da mesa, compras vão pra cozinha. Guarda o que comprou na geladeira, lava os pratos. Uma varridinha rápida no chão, já que estamos aqui. No automático das obrigações diárias, rotina que desrespeita qualquer conceito de férias, uma memória engraçada me vem à cabeça. No automático das respostas à sinapses nervosas, solto um riso frouxo. O som da minha risada me surpreende com a percepção do que está acontecendo: estou só. Olho em volta e as paredes querem me engolir, estou só. As mãos estremecem, estou só. A vassoura perde o ponto de matéria sólida, só. Desço as escadas para o calabouço reformado, deito na cama e observo o teto baixo, branco, só. O silêncio é o som de estar só e a minha risada desnudou a falta de contato de mim comigo mesma. O automático me mantém estável, tornando tudo um mesmo borrão que não fica. Esqueço as conversas que tive ontem, as obrigações que tenho pra amanhã e o que tinha que dizer agora. Me mantenho nessa inércia sintomática, nesse viver pela metade, se é que existe metade de algo como a vida. O meu quarto, que nem bem é meu, nem bem me quer, presencia as faltas de conversas que tenho comigo mesma e as danças que eu danço sozinha, numa urgência de soltar os diabos que tenho no corpo. De nada me adianta a solidão se não a uso para estar comigo, esse é o lembrete vital que surge na minha cabeça e surte o efeito imediato: acendo um cigarro, ponho uma música e danço mais uma vez, mas dessa vez prestando atenção nos meus passos, nos meus braços, no meu laço e na minha voz. Sinto a urgência da juventude pulsando nos meus dedos, o correr do sangue batendo junto com o tambor, o cérebro se conectando diretamente com o ritmo e entregando o corpo ao seu compasso. Deito mais uma vez, olho pro teto. A apatia que sinto pelo mundo ainda há de se derrubar só pelo existir da música. A minha solidão, essa ilha em que eu moro e sou única habitante, há de se dissipar pra sempre um dia e não haverá mais espaço para a dor que me mastiga, porque ela é acalentada pelo "estar só" e os momentos de quietude. Chego a ter medo por não saber em que gaveta vou guardar as histórias que preciso contar pra mim mesma, histórias que só cabem na cabeça-só. Sigo buscando, sigo só. Vou encontrar ou vai vir ao meu encontro. Até lá, tenho que cuidar de mim. Até lá, eu sou a minha piveta.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Onde se esconde
O verdadeiro
Verdadeiríssimo
parecer das coisas?
Onde você guardou o seu?
PROCURA-SE
Prego cartazes nas ruas
nos olhares
no fundo
do mar
Por que há que se ter uma resposta?
Porque há que se ter uma resposta.
Vou atrás, e aí você acertou: vou só.
Me dispo (nho) de todas as roupas
e caminho pela areia
Um emaranhado de soluções possíveis
Se mescla de maneira confusa
E cria-se uma única-coisa-só
com sal e tensão superficial
por onde flutua meu barco
e mergulham meus pés
Pulo pra dentro
Os olhos fechados
A respiração faz falta
A angústia aperta
O pulmão grita
Os braços se movimentam e de repente
se está na superfície mais uma vez
No barco
Na tensão
Su per fi ci al
Os cabelos molhados, atrás
Os peitos rígidos, à frente
Os olhos molhados, aqui
A saudade
Porto dos lados
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Aqui, nessa casa, sobre este chão que eu fiz, sob esta cama que eu montei, sobre o meu suor e minhas lagrimas (as minhas duas formas de chorar), eu me encontro de cabeça pra baixo e canto uma música baixinho.
É uma despedida que sai de mim como se fosse um fio puxado de minhas entranhas, uma endoscopia reversa que quer mostrar o que tem fora a partir do que tem dentro.
Meus cabelos crescem, minhas raízes se fincam, meu coração se afasta.
Crescer, ser e parecer se emaranharam em um sorriso que eu não dou mais e a solidão me abraçou de maneira generosa, tentando me provar que é boa. Eu tento fingir que acredito, mas os cigarros são falsos amigos, o tempo é um parceiro dissimulado, o amor é uma mentira bonita e eu sou um resto de mim, que ficou no resto da casa do que restava de verdade em meu coração.
A minha infância se foi por medo de me fazer sofrer, os cigarros se vão por medo da extensão do tempo, o meu tempo se arrasta por medo de me fazer viver, os meus amores se foram por medo de serem reais.
E eu
canto a minha musica
((baixinho))
Por medo de você ouvir.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Por sobre o olhar absurdo de uma velha ideia, eu quero abraçar o mundo. Eu quero rasgar as cores, me lambuzar com o sangue púrpura. Por trás da minha lua, está o mundo inteiro e a possibilidade de estar em mil lugares. No fundo de todas as traições obscuras que eu vou descobrindo com as garras sujas e partidas, por trás das mentiras que me contaram, por trás das lágrimas que vêm por trás da raiva e da desilusão de estar infinitamente só em mim, estou. Estou aqui, eu. Estique o seu braço comprido e você vai poder me sentir com as extremidades dos seus dedos. Venha, mas venha com cuidado. Tateie as paredes, teste os sentidos, procure o caminho, respire fundo e lentamente, porque eu vou me esquivar. Em momentos vou grunhir, em momentos lhe abrirei o peito como quem nunca tropeçou: faz parte de estar aqui. Não existe um sofá, não fiz desse um lugar confortável. Fiz desse um lugar meu. Não sei compartilhar quem sou, mas juntei um monte de coisas durante a vida que sei que podem te fazer sorrir e as ponho na mesa pra que você as conheça e incorpore. Enquanto estiver procurando o caminho, enquanto estiver entrando, veja que eu lhe permito. Suba o olhar e verá um sorriso que antecede um beijo, mas não se distraia muito: aqui embaixo tudo continua vibrando e desmoronando constantemente. Eu não vou mentir, estou rota, estou quebrada em mim, estou desacreditada. Mas algo nas suas palavras me faz querer te ver agora e amanhã, algo no seu ritmo faz com que meus pés se mexam, algo no seu sorriso faz cócegas no meu coração. Eu quero você aqui. Eu lhe entrego tudo o que posso lhe entregar em troca de uma resposta: você fica?
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