- Não espera que acreditemos nisso. - cuspiu a contorcionista.
Tina não tinha pensado naquela resposta. Toda a sua vida imaginara que, uma vez que houvesse conseguido escapar, tudo estaria resolvido e ela alcançaria seus sonhos. Quando os integrantes do grupo mostraram-se resistentes a acreditar nela, não conseguia deixar de sentir-se uma garotinha boba e incapaz.
- Eu não sei o que fazer para que acreditem... Eu... Não achava que seria desse jeito.
(...)
E então ele apareceu: Berry, o apresentador. Vestia um sobretudo tão negro quanto seu chapéu, e tinha nas mãos os chicotes que usava para guiar a carruagem. Tina sentiu seu rosto corar. Era ele, o motivo pelo qual ela começara tudo aquilo, o homem sorridente e forte que ocupava seus sonhos. Sentia que ele não lhe faria mal, sentia que era só ela falar, e ele a entenderia, e poderiam ficar juntos e satisfeitos.
Mas o olhar que ele lhe deu não era o olhar caloroso das apresentações. Quando ele analisou-a, sentiu-se nua e fraca, estúpida. E quando a voz dele reverberou pela carruagem, sabia que aquele havia sido outro engano:
- Deixe-me adivinhar. Você tinha esperança. Esperança de que fosse mais do que as pessoas ao seu redor. Você achava que era especial, assim como nós. Você planejou por anos conseguir escapar para cá e se sentir em "casa", mas nem sabe o que isso significa. Nem sabe de onde queria escapar, se lhe perguntarem. Você achava que nós te levaríamos a um mundo mágico, onde suas aventuras começariam, e causaria inveja nas pessoas fúteis da sua cidade. E agora que está aqui, você nem sabe o que dizer.
"Sabe o que é o circo, menina? Sabe alguma coisa sobre a vida? Sonhos e esperanças são como amigos traiçoeiros. Eles não te levarão para nenhum lugar além da decepção. O circo é exatamente igual: nós enganamos vocês. Nós mentimos, alimentamos desejos e aspirações para depois irmos embora e abandoná-los na mesmice de suas vidas. Fazemos com que acreditem que existe purpurina no mundo e que está em vocês, enquanto vemos o quão idiotas são.
"Pegue os seus sonhos e vá embora, garota. Esse é o melhor presente que posso lhe dar. Aqui não é um lugar pra você. Não existe "lugar" pra você, enquanto estiver escapando do que tem para viver. Pare de fugir da vida e aceite quem você é, e da próxima vez que aparecermos na sua cidade, entenderá mais quem é o palhaço do que qualquer outra criança no pátio.
Acho que eu entendi. E agora?
terça-feira, 25 de setembro de 2012
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Feche os olhos. Não é hora de contar até dez, mas você pode fugir daqui comigo. É só imaginar, vamos lá: pra o lugar que só a gente conhece, no ritmo que a gente quiser. Eu sei que a gente consegue se dopar sem precisar de substância nenhuma. A alegria em si já é dopante o suficiente. De novo, feche os olhos. Não precisa abrir tão rápido... Vamos pra onde nós podemos ficar por horas sem fazer nada além do bem pra nós mesmas. Eu quero mergulhar nisso tudo. De cabeça, se for necessário.
Existe uma passagem, sabe. Um ticket pro trem que nos levaria pra lá. Eu não sei onde se compra, mas sei que os bilhetes estão se esgotando. Vamos?
Existe uma passagem, sabe. Um ticket pro trem que nos levaria pra lá. Eu não sei onde se compra, mas sei que os bilhetes estão se esgotando. Vamos?
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Se o mundo parar
Você tem a minha permissão pra me tirar daqui
Me arrasta pra fora desse cansaço quase mórbido e me lembra como se faz pra sorrir
O mundo do lado de lá é enorme e teoricamente somos só nós dois agora
Eu não quero mais ficar pra trás, se "com o amor não tem demora"
Vem, me faz sentir o cheiro de tudo o que a gente sente
Pra que ficar parado, se a gente pode fazer diferente?
Se o menu é tão vasto, por que comer o mesmo prato todo dia?
Eu não quero ficar só na fotografia
Eu nunca achei que eu seria uma estátua de gelo
Eu não quero que o fogo fique só no meu cabelo
Eu nunca achei que meu coração seria frio e preto
Mas se você der os passos certos, eu sei que eu derreto
Você tem a minha permissão pra me tirar de mim
Me lembra como é doce o som do "sim"
Me limpa desse negativismo e me ensina a dançar
Eu também quero sair voando se o mundo parar
Me arrasta pra fora desse cansaço quase mórbido e me lembra como se faz pra sorrir
O mundo do lado de lá é enorme e teoricamente somos só nós dois agora
Eu não quero mais ficar pra trás, se "com o amor não tem demora"
Vem, me faz sentir o cheiro de tudo o que a gente sente
Pra que ficar parado, se a gente pode fazer diferente?
Se o menu é tão vasto, por que comer o mesmo prato todo dia?
Eu não quero ficar só na fotografia
Eu nunca achei que eu seria uma estátua de gelo
Eu não quero que o fogo fique só no meu cabelo
Eu nunca achei que meu coração seria frio e preto
Mas se você der os passos certos, eu sei que eu derreto
Você tem a minha permissão pra me tirar de mim
Me lembra como é doce o som do "sim"
Me limpa desse negativismo e me ensina a dançar
Eu também quero sair voando se o mundo parar
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
sobre não se levar a sério
Ele não sabe responder a pergunta do professor. Não se imagina fazendo nada do que lhe é pedido no futuro. Já não sabe mais porque estar aqui, quando "aqui" pode ser qualquer lugar. O suor frio surge tão rápido quanto os olhares irrequietos da sala, mas seu físico não faz muita diferença no momento.
Em instantes como esses, nada é real. O mundo torna-se apenas um espaço ignorável, enquanto sua imaginação corre para outras cenas. Imediatamente, ele consegue ver-se no dorso de um dragão vermelho, queimando os poemas velhos que ela tinha lhe escrito. Consegue vê-la ali, ajoelhando-se por perdão, arrependendo-se, amando-o fervorosamente. Quanto mais queima e crepita o fogo, mais ela morre dentro de si, e o suor frio transforma-se em transpiração pelo calor. O universo é todo laranja e vermelho, e ele quase consegue sorrir. Quantas pessoas se importariam com isso agora?
Ele não quer responder. Ele não quer sair de seu mundo rubro, não quer abandonar o seu dragão imponente, não quer se dar conta de que vai ouvir a risada dela quando ele disser que não sabe. Não quer lembrar de quando riram juntos de alguém com ele.
- 1960. Ou mitocôndrias, e respiração celular. Ou raiz quadrada de dois. Não faz muita diferença, né? É só eu empinar o nariz e mostrar que eu tentei, que não estou desperdiçando o seu tempo ou o meu. Isso não é mais um discurso sobre como tudo é inútil, é um discurso sobre mim. Eu não vou responder nada enquanto você souber a resposta. Não é medo de errar e eu não estou falando com o professor, apesar do meu olhar estar na direção dele. Mas agora que ficou claro, o que você acha de dragões? O que você acha do fogo, da lava, e da bílis do mundo? Ele pode ser desprezivelmente pequeno quando você está sozinha no seu quarto, não é? Eu não vou responder enquanto você souber a resposta. Eu não sou só uma imagem, apesar de mil e uma estarem passando pela minha cabeça agora. Mas nada disso importa. Eu tinha que responder alguma coisa estúpida agora, e você tinha que ter rido. Então vamos, repita a pergunta e façamos os nosso papéis. Ninguém tem tempo, né? Ninguém tem tempo pra ser de verdade. Compre outro copo de plástico e encha de mentiras, sem medo de que caia no chão e quebre. Beba tudo e jogue fora depois. E quando jogar, não esqueça de fingir que se importa.
Em instantes como esses, nada é real. O mundo torna-se apenas um espaço ignorável, enquanto sua imaginação corre para outras cenas. Imediatamente, ele consegue ver-se no dorso de um dragão vermelho, queimando os poemas velhos que ela tinha lhe escrito. Consegue vê-la ali, ajoelhando-se por perdão, arrependendo-se, amando-o fervorosamente. Quanto mais queima e crepita o fogo, mais ela morre dentro de si, e o suor frio transforma-se em transpiração pelo calor. O universo é todo laranja e vermelho, e ele quase consegue sorrir. Quantas pessoas se importariam com isso agora?
Ele não quer responder. Ele não quer sair de seu mundo rubro, não quer abandonar o seu dragão imponente, não quer se dar conta de que vai ouvir a risada dela quando ele disser que não sabe. Não quer lembrar de quando riram juntos de alguém com ele.
- 1960. Ou mitocôndrias, e respiração celular. Ou raiz quadrada de dois. Não faz muita diferença, né? É só eu empinar o nariz e mostrar que eu tentei, que não estou desperdiçando o seu tempo ou o meu. Isso não é mais um discurso sobre como tudo é inútil, é um discurso sobre mim. Eu não vou responder nada enquanto você souber a resposta. Não é medo de errar e eu não estou falando com o professor, apesar do meu olhar estar na direção dele. Mas agora que ficou claro, o que você acha de dragões? O que você acha do fogo, da lava, e da bílis do mundo? Ele pode ser desprezivelmente pequeno quando você está sozinha no seu quarto, não é? Eu não vou responder enquanto você souber a resposta. Eu não sou só uma imagem, apesar de mil e uma estarem passando pela minha cabeça agora. Mas nada disso importa. Eu tinha que responder alguma coisa estúpida agora, e você tinha que ter rido. Então vamos, repita a pergunta e façamos os nosso papéis. Ninguém tem tempo, né? Ninguém tem tempo pra ser de verdade. Compre outro copo de plástico e encha de mentiras, sem medo de que caia no chão e quebre. Beba tudo e jogue fora depois. E quando jogar, não esqueça de fingir que se importa.
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