quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Só conhecendo muito bem as palavras
Eu poderia descrever a decepção que é não ser ouvida
Tendo o domínio da fala, por nós, 
Eu poderia dar vida à voz 
Do sofrimento causado
Por um cuidado renegado 
A um presente precioso 
dado em forma de flor.
Ou se eu pudesse falar de dor 
Da maneira que cabe em seus ouvidos 
Escolhendo bem os teus versos preferidos
Pra que você entenda algo que não é seu...
Mas quando falo em versos teus, 
Já não falo do que é meu
E todo o meu eu se cala
Ao ser surrado por uma fala rala
Toda mulher já deve ter sentido 
A exaustão de ter seu universo ferido
Por ser muito amplo e profundo 
E ver o seu mundo, querido 
Tão singelo, intocável, real
Destituído por um argumento superficial
Se eu pudesse transmitir um olhar
Fazer a sua realidade tocar
No que é o ser feminino, e flutuar
Entre as diferentes percepções, 
Tornando possíveis as duas visões, 
Eu poderia te fazer sentir, dentro do peito contido
O que é ferir e o que é ser ferido:
A responsabilidade de ser um amigo.
Você falando sobre estar descalço
E, com os pés sangrando, eu assisto os aplausos
Porque jamais me tornarei você:
eu sigo atenta ao que causo.
Se dominasse as palavras, de nada serviria
Porque você as usa como um jogo, não com sabedoria
Mantenho minha fé e abandono sua teimosia
Porque Toda mulher também sabe

O que é lutar uma luta vazia

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

*

Abaixe-se. Capte o som terreno, o toque suave da vitalidade. O ar está cheio, o mundo está vivo e em sincronia com a sua existência. Tamanha sorte temos por estar vivos: testemunhar a harmonia da Terra com Deus. O sol poente é de potência mobilizadora, capaz de desembaçar a visão que olha pra dentro. O mar lava as feridas as quais você se apega sem querer manter. O sofrimento é um passageiro, o motorista é presente independente da sua fé. O tempo é rei, a lua é mãe, o sol é luz.

Desconheço o motivo
Por qual eu me privo
Do que eu preciso
Num giro reflito
Vomito um grito
Respiro meus ritos
Repito os vereditos
Escapes são mitos
E pra mal ouvintes
Verdades omito
Me sinto
Viva e bem
Quem quiser vir vem
Amar é além
Sem olhar a quem
Né papo de Zen
A ideia advém
daqueles que inibem
os laços d'outrem
Contando vintem
Pra crescer, mantem
A peneira fina
A doutrina é uma sina
Palavra cabida
O intuito é a vida
Manter a saída
O plano perfeito
Olhar os efeitos
Não é força, é jeito
Natural exposto
Reencontrar o gosto
Por coisas da Terra
Se sabe, não erra
Não sabe, espera
A chave vai vir
O momento certo
É o encontro exato
Entre estar perto
E estar atento aos fatos
A hora é sempre
De agora ao ventre
Mas calma presente
É o primeiro passo
Sem tropeço eu faço
Carapuça eu calço
Sei que não é fácil
Mas guia eu tenho
O que te serve, leve
O peso é pro outro
Quem quer ficar, fica
Só quem quer, precisa
Encontrar a saída
E dar graças à vida

sexta-feira, 5 de agosto de 2016


O resgate é uma consequência da busca, o acaso é a desculpa do desnorteado, só assim que pode ser. Um, dois, três. As possibilidades existem pra ser devoradas, e como pratos de comida, elas causam respostas do seu organismo. Busque o são, saude a cura. Saúde sorri. Quatro, cinco, seis. O morno da escuridão tem validade, o desejo pelo ócio é uma armadilha, os músculos quando sedentam, atrofiam. Sete, oito, nove. Alguns são diferentes. Alguns acordam dispostos, ou até podem viver com a indisposição. Alguns não são enfraquecidos pela tristeza, ou até conseguem viver com o tremer dos joelhos. A doutrina é para todos, mas nem todos são para a doutrina. A rotina se fez necessária, o mantra é meu e pra mim, só assim consigo limpar a remela e fazer o café. Eu preciso estar bem, eu preciso criar, eu preciso do sol. Eu preciso. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O mundo é imenso, eu me sinto perdida quando me sinto só. O meu entorno me aborrece, a superficialidade me entedia, o álcool me entendia e hoje me renega. A mensagem se repete, meus conceitos se perdem, nada pra me agarrar, nada que eu queira com todo o meu ser, o meu ser não sabe bem quem é. Onde fiz meu chão? Onde estive pondo meus pés? Vejo-me apagar, desinteressante ao esmo, atenta demais pra adormecer. O caminho se apresenta, se impõe, nada me segura. O único sentido é pra cima, o único sentido é só.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O QUE ELES PROPOEM



gostaria de manter a promessa que fiz a mim mesma, de dar significado a tudo isso aqui e tentar esticar meus textos até o ponto de identificação externa, dos outros. mas a inspiração não me toca dessa forma, ela beija meu ser por dentro e molha meus olhos quando precisam ser limpos. só posso ser assim.
o que me fode é o constante apontar de dedos, por um momento eu me canso das palavras, expressões, construções de imagens e sinto a necessidade de fechar as entradas de som e as saídas de ar. eu observo como o observar do discurso causa necessidade de reprodução, me rondo com as mesmas questões de sempre e entendo a idiossincrasia de cada uma, e por essa lei, as respostas perdem os significados. os caminhos das ideias parecem ansiosos por chegarem em conclusões e quando chego, duvido. o que sinto é real, mais real do que o que ouço, imagino, penso. só que a realidade de um sentimento desprovida de ideias é indubitavelmente momentânea. 
desprovido de ideia, o sentimento só é. desprovida de ideias, estou satisfeita. o desligar da mente me conecta com uma verdade que tem gosto, cheiro e forma de ilusão. por quê?

quanto mais afundo em mim, menos sozinha estou. quanto mais falo comigo, menos calo os outros. a necessidade de mostrar ser algo foi substituída pela necessidade de ser invisível. as definições de mim estão em constante atualização, as definições externas permanecem no fluxo de se tornarem cada vez menos necessárias. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Isso que você tem na boca é uma língua de dois gumes, tão afiada que pode cortar a fina dimensão do tempo-espaço e atravessar o cosmo através dos portais que ela mesma abriu. O que você tem por baixo dos cabelos é uma mente clara que veio do escuro, pulando os muros da compreensão e se alimentando do além, lisérgico ou lírico. A curiosidade alimenta a arte de botar a cara a tapa, o seu desejo pelo "unlike" vem ao mesmo tempo que a decepção por recebê-lo. O seu paralelo de visão e audição é o mistério: O que você vê é o mundo cão,
E ele
Escuta.

terça-feira, 14 de junho de 2016

"I found a liquid cure
for my landlocked blues
it will pass away
like a slow parade
it's leaving but I don't know how soon

and the world's got me dizzy again
you'd think after 20 years I'd be used to the spin
and it only feels worse when I stay in one place
so I'm always pacing around or walking away
I keep drinking the ink from my pen
and I'm balancing history books up on my head
but it all boils down to one quoteable phrase
"If you love something give it away"
A good man will pick you apart
a box full of suggestions for your possible heart
But you may be offended, and you may be afraid
but don't walk away, don't walk away

We made love on the living room floor
with the noise in the background from a televised war
And in the deafening pleasure I thought I heard someone say
"If we walk away,they'll walk away"
But greed is a bottomless pit
And our freedom's a joke we're just taking a piss
And the whole world must watch the sad comic display
If you're still free start runnin' away
'cause we're comin' for ya

I've grown tired of holding this pose
I feel more like a stranger each time I come home
So I'm making a deal with the devils of fame
Sayin' let me walk away, please
You'll be free child once you have died
from the shackles of language and measurable time
And then we can trade places, play musical graves
till then walk away walk away walk away walk away
So I'm up at dawn, putting on my shoes
I just want to make a clean escape
I'm leaving but I don't know where to
I know I'm leaving but I don't know where to"

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O que será que se passa aqui dentro, sinto frio de dentro pra fora, estremeço minhas certezas e congelo meus sentimentos, o tom de melancolia vem de dentro dos meus olhos e molha a cidade calorenta. O que será que eu vejo de tão bonito no azar, porque jogo tanto e tudo pra ele, por que me apaixono pelo que não existe, por que converso tanto comigo e pulo tantas conclusões... Sou solitária, deserta e fria, eu só funciono comigo, eu só sirvo pra mim. Por que será que preciso de tantas distrações, por que busco tanto a incerteza, por que estou atrás do desequilíbrio como se fosse um cão que eu tinha domesticado e perdi... Por que as perguntas sempre me soam como afirmações, por que as respostas sempre me soam como ironias, as verdades como piada e as mentiras como costume. Por que será que amo tanto o beijo do sol mas o meu interior parece precisar da caverna incômoda... Por que o sol me provoca tanta tristeza e o frio também. Não sei perguntar, não sei responder. O meu diálogo é desprovido de sentido, monocromático e monótono. Sou composta por fases e guiada pela lua, mas perdi os motivos e as estribeiras, os meus dias estão contados.


terça-feira, 31 de maio de 2016

estudando mitologia

benditos sejam os abençoados por uma cabeça pesada
e uma raiva maior que o impulso, amaldiçoada
afortunada a enchaqueca
que não é anestesiada pelo itinerário,
mas pelo sangue que mantem-se frio
e pela boca, que mantem-se seca.
bem-aventurado seja o pulsar do ódio que vem do amor,
os extremos unidos pela mesma força de dor.
que meu manto proteja aqueles que mudam os dias
e que vivem as noites vazias.
porque por trás de toda a indecência dos momentos ocos
está o grito rouco do sufoco.
da esperança, só um toco.
um teco pra quem sonha pouco
e pra quem sonha, vários socos
vou com os tres olhos roxos e o passo coxo
contra a vida assassina e a morte seletiva
dos que carregam o fardo da sensibilidade,
aqueles que não vem com imunidade,
vários Atlas e Pleiones gerando o Touro que guia os cegos
que só enxergam no escuro dos egos.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

finalmente embebida de mim!
posto que o sofrimento rasga a alma,
tenho a minha dilacerada:
dilatando em expansão, absorvendo os aprendizados que se incorporam a mim.
sofrer é nutritivo e eu estou gorda ao passo que estou seca
tanto de mim por todos os lados
tanto amor gratuitamente espalhado
e tão pouco direcionamento...
porque direcionamento é atenção e eu sou dona da minha.
subi numa montanha de barro,
lambuzei todo o meu corpo
e me camuflei no penhasco.
gritei os monstros da garganta,
expulsei os demônios do oco,
assisti o pôr do sol.
não abro mais mão de quem sou
mas estou em constante movimento.
estapeiem minha cara.
me neguem.
me reneguem.
eu resisto.
porque não tenho pra onde ir
o meu cuidado é genuíno e meu amor é demais
não tente fugir, não é necessário fugir do amor
o medo é necessário, a preocupação também
mas há que se medir as coisas, meu bem
abre o peito e vê que eu tô aí,
abre o olho e vê que não tem nem pra onde ir,
e abraça o nosso cheiro, que já existe
((e é de sol e sal)).
não precisa enganar a ninguém
eu não to fazendo nada, nem você também
faz mal chegar tão perto assim de alguém?

"E a manivela do mundo
Girando
E as oficinas de vento mexendo comigo
Mas já não ligo
Um sentimento aqui
Parece maior
Parece melhor nem pensar."

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Desnutrir a ansiedade. Compreender que estou só. Quando o suor brota na testa, E ele brota mais vezes do que eu gostaria, eu enxugo.. Quando o chão está limpo, fui eu. Quando a mente está cansada, fui eu. Sou eu que faço a cama em que me deito, que troco a fronha do travesseiro que abraço. Estar só é como estar sempre com fome. E se comem os diversos pratos, saudáveis ou não, e é delicioso sempre, existe pouca comida que eu não goste... E a que não gosto, não como. Mas depois de um tempo, quando não se cozinha a comida, quando não se ri no processo, quando não se põe o sal, o gosto de tudo vai se tornando o mesmo. Estar só é assistir os belos momentos se tornarem insossos. Estar só é o mesmo tempero, sempre. O seu, salgado, suado, são e louco. É enjoar do tom da voz do seu pensamento. Eu mesma me calo com um dessonoro "shhhh" dentro de mim. Existem alguns que se satisfazem com isso, eu passei do ponto de satisfação para tédio. Apatia, desatenção, borrão. O tempo passa e eu passo por ele, atravesso-o e ele me atravessa, ele deixa marcas e eu deixo os pedaços de mim.
A convivencia também caminha pelo mesmo caminho. Quando não se há amor, a solidão e a companhia se tornam uma mesma coisa. Quando não se há amor, o que se há? Eu nasci pra amar.

segunda-feira, 28 de março de 2016

quando acaba o dinheiro

Segue a sombra da noite, vira na esquina turva, senta no ponto de ônibus vazio. Incrível como me percebo mais uma vez cegamente apaixonada pela madrugada e desiludida pelo amanhecer. As criaturas noturnas buscam momentos turvos e vazios em si mesmos porque a realidade é preenchida demais. É como um grito de protesto, a relutância de fechar os olhos enquanto nos fazem passar pelo processo laranja e mecânico de assistir nossos sonhos e ideais se repetirem com uma pitada de veneno descrente cada vez maior. O veneno do cotidiano assombra meus sonhos e a minha crença no amor poderoso, o deus-amor do futuro que se impõe sobre as relações e determina a nossa condição humana, é destituída pelo estúpido monstro selvagem e bêbado. E nós, revolucionários da noite oca, aplaudimos e celebramos com nossas cervejas. Juntos, cantamos o hino da estupidez e rimos da vida adulta desgraçada. 
Um jovem velho, barbudo, bêbado e amanhecido escreve isso numa cafeteria qualquer e se sente um gênio dos tempos modernos. Ele sente a necessidade de mostrar essa obra prima pra todos, ele está convicto de que alguém vai gostar e apertar um “like”, o abraço virtual de que tanto carecemos mas fingimos que não nos importa. O jogo é ser legal e fingir que não sabe, o jogo é jogar tudo pra cima e celebrar o monstro selvagem, aquele que você odeia, aquele que você treinou a sua vida inteira com um arco e flechas profissionais para matar, aquele que você finge que não alimenta com veneno durante a semana para dar-lhe o antídoto no final dela. Sempre que escrevo fica faltando falar o quanto acho o lirismo um saco, o quanto imagino minhas palavras sairem da boca de um descontente que acredita ser melhor do que os tempos que vive, apaixonado pelo passado e por si mesmo, declamando com amor próprio sua ingratidão. Por que complicar tanto o que quero dizer? Por que não sei tanger os sentimentos que eu escondo com as mesmas palavras que uso pra falar do meu cd favorito? Porque não me embebedo de mim?

Os meus hábitos suicidas matam minha esperança e minha atenção diária, mas mantêm vivo o espirito imortal da insatisfação eterna. 
Bleghrhrhgr eu não queria ter escrito isso. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

eu finjo que digo e você finge que entende


As horas na madrugada parecem arranhar a superfície de cada incêndio mental que permeia a minha dor de cabeça, mantêm-se na superfície de todos os problemas que não consigo acessar por serem profundos demais na sua insignificância. E a verdade é que de quando em quando eu escrevo pra poder gabar-me da profundidade dos meus problemas, pra justificar a minha superficialidade cotidiana, o meu riso ansioso e a minha desatenção, que na verdade é só atenção direcionada para o inútil. O meu senso de momentos significativos se perde com tantos símbolos e conceitos pra admirar, e o momento reflexivo de molhar os pés na areia e olhar o mar não me parecem mais necessários: posso fazer isso a qualquer momento. Estou fazendo isso agora. As lágrimas que escorrem pelo meu rosto só são uma simulação do meu momento garota-bonita-num-filme-bonito, e o meu choro, que acontece ao mesmo tempo que milhões de choros mais e menos importantes, tem a especialidade descartável de uma trilha sonora que só se ouve na minha cabeça. O pôr do sol me parece longo demais, o mar precisa que eu entre correndo e mergulhe, as paredes me prendem no cotidiano concreto. Estou cansada dessa luta interna pra ser uma pessoa boa e fazer o bem, eu concretizo todas essas ideias na minha cabeça e o mundo me estapeia e me grita que é tudo um absurdo. Leio textos de uma universidade que eu não faço pra não ficar pra trás, mas meus passos ficam cada vez mais lentos e a minha vontade de alcançar o passo de tudo o que acontece é cada vez menor. Eu já entendi que, diferente do que a minha mente adolescente e constantemente negativa acreditava, a morte não é uma solução pra nada. Percebi que isso não é mais uma questão de acreditar ou não, os dias vão me comer os dedos e enquanto eu não resolver isso com as próprias ferramentas insuficientes que tenho, de alguma forma o problema se repetirá num looping tão estúpido quanto a teimosia é. Mas é que se passam os anos, amor, e eu destruo cada vez mais os ideais que me foram colocados na cabeça burra e no coração bichado. Ao ponto de que não sei pra onde estou indo, e me sinto mais uma vez a pessoa perdida que não sabe aonde pertence e não quer pertencer a nada, mas dessa vez o tempo não está ao meu favor. Meus pés titubeiam em dar passos pra frente porque cada um é cada vez mais doloroso, e a descoberta do novo caminho não é mais surpreendente ou excitante, é um contínuo desapontamento que me bate diretamente nos joelhos. E chegamos ao problema, mais uma vez… Eu já não posso mais me enganar: eu sei quem sou. Eu não me ajoelho, eu não presto honra. Mas eu não consigo mais amar estar de pé. 

terça-feira, 1 de março de 2016

14 again - mal escrito e mal sentido


Lembro de como era. Ouvir pra onde estávamos indo e respirar fundo, fechar os olhos, ir ao banheiro, lavar o rosto com as lágrimas e grudar a máscara com cola quente. Vestir a roupa que não me cabia, os sapatos que mutilavam meus pés, o penteado que puxava cada fio com a intensidade de tortura, que não termina por arrancar nada mas faz com que todo o seu corpo se arrependa da humanidade por ter criado xuxas. Eu nunca consegui explicar como não eram só os sorrisos de plástico, os quitutes caros e os copos vermelhos, mas toda a minha história: cada pedaço da minha vida torta que produziu o meu sorriso “contagiante”, a minha especialidade ou a minha coragem de ser o que sou, a conexão com meus pais, com a casa em que eu cresci, os espíritos que sussurravam no meu ouvido e as tantas limpezas espirituais pelas quais passamos na busca de livrar-nos de um carma familiar que nos fez permanecer juntos. Eu poderia começar a te falar do dia 14 de Julho de 1995 até o dia de hoje, e poderia te explicar o que eu sinto e porquê eu sinto quando tomo um mojito na barra. E faria todo o sentido, mas ainda assim faltaria um brilho no fundo do seu olho que existe nos olhos de quem já perdeu alguém, de quem já se sentiu um peixe fora d’água e teve que nadar na terra pra poder continuar respirando. A compreensão que só existe dentro de alguém que se trancou num quarto e deixou o choro tomar conta, alguém que questionou cada ponto de sua personalidade e ainda assim a defendeu com unhas e dentes, alguém que já sentiu o rasgar das unhas da injustiça, alguém que já cortou o próprio pé pra caber nos sapatos. Alguém que compreende a tristeza profunda e real e que ainda pode senti-la quando fecha os olhos. Só assim pra entender o que eu sou, só assim pra se aproximar do que eu sinto quando o dia está perfeito e a cerveja é Stella Artois. Quando olho pra você, é como se estivesse à um quilometro de distancia e houvesse um buraco sem fim entre nós e para que possamos nos ouvir tenhamos que gritar o máximo que podemos, a ponto de estourar os pulmões, e ainda assim, várias palavras se perdem no meio do caminho. O bonito era o esforço do grito, a vontade de saltar o buraco, as mãos esticando-se ao máximo pra se tocarem. O bonito era o amor, que ainda existe em mim e que me grita nos sonhos, no café da manhã, na hora de deitar na cama e encarar um teto estupidamente branco e baixo. O sentimento que pra você se resume a se encontrar em um bar numa sexta feira a noite e se olhar nos olhos, um abraço apertado, a conformidade em si sendo a forma mais bonita de dizer “eu não quero mais te fazer mal, eu não posso mais te fazer mal”. O seu é o sentimento lindo de quem nunca viu o amor fugir pela porta dos fundos levando tudo o que você tinha. O meu é o sentimento de chorar abraçada em um travesseiro quente numa noite úmida e grunhir, gemer pelo seu corpo de volta, seu sorriso, a ilusão de que você nunca poderia me fazer mal, a sincronia de não precisar dizer nada, a necessidade de ouvir sua voz cantando Bob Marley pra que tudo fique bem. Eu não tenho mais medo de te perder, mas me perdi quando você foi embora. E diante de tudo o que você fez, diante dos sentimentos e traições que me restaram nas costas cansadas, eu peço a qualquer força que possa me ouvir pra tirar você daqui, de dentro de mim. Quando o mundo inteiro te diz que não é possível, o que o coração ainda quer dizer? 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

vômito

(Faturas 1364 até 1369)
(Esse pagamos com um juros de R$ 51,71)
3 Boleto: R$14.498,43 =
é incrível como sem olhar para a luz e na temperatura diária do ar condicionado, ainda consigo perceber que está frio lá fora. o tempo frio me abraça, tentando me acolher e desculpar a minha pele branca demais. uma sensação morna de conforto me envolve e eu a renego com todas as forças. não quero me convencer do ideal que construi pra mim a minha vida inteira. senhoras e senhores, isto que estou vivendo todos os dias é o grunhir, arranhar, socar e expulsar o que era pra ser eu. não nasci no que era pra ser eu, a vida do lado de fora dessas paredes ridiculariza o potencial conforto que existe na expectativa posta sobre o bebê branco e fêmea que nasceu vinte anos atrás (quase vinte e um, o desprezível um). 
Pagamento Titulo: 11/11/2015 = R$7249,21 + 
Pg Titulo 12/11/2015 - R$7249,22
4 Boleto: R$3131,61
Pg Titulo: 17/11/2015 - R$ 3131,61 

5 Boleto: R$1691,80 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

anotações

O novo não envelhece: se renova.
“Contra fatos não há argumentos”, disse Nietschehzgjehe. Tudo tem a cor do cristal que você olha. Mas o tudo, em si, existe. O fato precisa existir pra que seja interpretado. Eu preciso existir pra poder interpretar o fato que, em si, existe. A proximidade da exatidão do fato se dá com a espiritualidade, a consciência e a luz. O que é claro não faz sombra, o que faz sombra é o que se constrói sob a clareza. O que esteve aqui há de estar novamente, o fluxo é contínuo e constante nas suas subidas e descidas. Aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta: o que ela quer da gente é coragem. A conexão com o plano maior se dá a partir do presente da vida, e existem muitos seres que vagam por aí desejando se re-conectar. O desejo é ruim e traiçoeiro, e por isso eles hão de ser também. O querer é diferente do desejo, o pão é diferente do queijo. O amanhã existe e por isso tudo é possível, mas o amanhã só existe porque existe o depois de amanhã. Tudo o que é possível no amanhã é possível pelo depois de amanhã. Hoje é agora, amanhã é depois e depois de amanhã é sempre. O ontem é de onde você veio, o ontem é porque o hoje. Há que se pesquisar suas raízes, as vidas que lhe trouxeram até aqui. Eu procuro a clareza da missão maior no dia a dia, dentro de mim, pra que possa fazê-la tangível. Eu procuro o desenvolvimento, mais além da renovação. Sem palavras em hindu. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

madrugada lúcida



As luzes se misturam e correm pela noite, as ruas estão turvas e vazias, a madrugada é incrível, a única que pode normalizar o grito de um vagabundo, o uivar de uma loba perdida, o beijo gritante de irmãos de coração. Pé atrás de pé, cavando as ruas de uma cidade que você aprende a amar porque consegue se ver fugindo nas esquinas, caindo nos buracos, cuspindo nas pedras, jogando os retalhos no chão e fazendo xixi no mar. Um viaduto vazio como o que você sente por dentro, uma noite que precisa se aglomerar aos poucos pra que ninguém se perca, e ainda assim, só o que se vê são perdidos. Uma cidade que não sabe dizer não, assim como você nunca soube, e lá vem outro copo. Uma relação de irmandade com o líquido amarelo que cava o seu estômago como a chuva cava os buracos no chão, que desnorteia e molha e embaça o caminho de quem nem sabe pra onde está indo. Um rio que não é nem rio nem vermelho, um coração que bombeia veneno fingindo bombear o sangue rubro que deveria ser 70% do seu corpo. E é claro que só uma mente chapada pode fazer tantas analogias baratas pra poder se justificar e embelezar um pouco mais o que só é uma vaidade imbecil provocada por distúrbios demais e construções de menos. Um texto por semana e isso há de se justificar, eu tenho tanta poesia aqui dentro… “A vida comeu meu coração e ainda me disse que é assim que se faz um grande poeta”. Faltou dizer de onde vem o poema, porra. De onde vem o nó na garganta e pra onde vai o vômito que eu nunca vomito. Quero musicar as ruas, "aproximar o cantar vagabundo dos que zelam pela beleza do mundo”, mas quem são eles? Porque é tão bonito ser inútil? Eu já sei a resposta e você também, mas continuamos dando voltas suicidas ao redor da lâmpada, apaixonados pela cegueira vazia que, no final das contas, é só uma invenção de Thomas Edison (ou Charles Bukowski, srs). Ah, se eu conseguisse acessar o medo que sei que tenho… Será que ficaria apavorada, trancafiada na casa escura à sete chaves? Ou será que choraria os prantos todos de uma só vez e sairia na rua com sede de suco de laranja? É tarde demais pra mim? Eu ouvi dizer que ela quebrou o seu coração mais uma vez, eu espero que dessa vez valha de alguma coisa. Eu tenho todos os meus corações guardados no meu quarto, conservados em potinhos com formol. Não me serviram de muita coisa, só aprendi com mais destreza todo o processo de arrancá-los do peito e guardá-los como pequenos souvenirs dos momentos em que a realidade era suficiente por si só. Ah, se eu soubesse o que sei, que aprender a viver com a realidade não se inicia num órgão duro e teimoso como o coração… Mas eu só sei que to com larica e que não tem nada na geladeira. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

didático e lírico

É incrível o correr da vida, os flashes de segundo que você sabe que passam num piscar de olhos e - talvez por isso mesmo - agarra-se a eles com tudo o que tem, jurando que são tudo o que você precisa. É difícil demais saber que um segundo só pode ser um segundo porque passa, só pode ser porque foi. É preciso deixar ir pra que seja, para que venham os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos. Para que se conquiste um minuto, é necessário estar ciente de cada segundo dentro dele. Se não, o tempo se acumula. E enquanto estamos distraídos, ele se repete. Camarão que dorme, a onda leva. Coração que sonha, o tempo mata. Eu estou cansada de me agarrar a segundos, mas é a única coisa que aprendi a fazer. Reaprendo. Agora, busco compreende-los e incorporá-los em mim. Espero que essa seja a maneira certa de crescer. 

Um segundo só é 
Enquanto foi 
E talvez por isso
Eu me agarre à ele 
Com tanta gana.
O meu segredo é que
Só se pode ser minuto 
Contando até 60.
Eu não sei contar.
Eu não sei ser.
Eu não sei ir.

Eu só sei fui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Para onde vao os dias em que eu nao escrevo? Para onde vao os sentimentos que eu nao faço sangrar no papel? Para onde vai a embriaguez? Para onde vao todas aquelas palavras urgentes que pareciam tao necessárias de serem ditas? Os argumentos, o cuspe, o tom de voz alto, a estranha sensaçao de lucidez no momento mais deturpado da mente? Tenho tanto pra dizer e ainda assim pareço imersa na embriaguez de um periodo de ferias intensamente fugaz. Construi diversos castelos de cartas com a concentraçao que só uma mente bebada poderia ter, só pra destrui-los com um peteleco torpe e uma risada imbecil. Eu ouvi Justin Bieber vezes demais e chorei vezes de menos. Em verdade, os rios que costumavam banhar meu rosto melequento e vermelho parecem ter secado. O meu rompante de lagrimas foi o ultimo a ser assassinado pela minha apatia, que só considera válido o que é carne. Sou uma esponja de momentos instantaneos e derramo eles por toda a cidade. Me vi falhar e ri da minha cara, subi no monte mais alto da montanha mais alta e gritei pros sete ventos que eu fui feita pra mim, mordi meu coraçao doído e suguei todo o veneno, até que me encolhi nessa concha dura e desconfortável. E nao minto: me escondi porque acabou o pasto. Pois que se aparece o mínimo traço de verde eu nao vou comprar pao nem comida: vou comprar um licor barato e distribuir o perdao do louco, o rosnar da euforia, o correr de um bicho rescem nascido com as pernas bambas, o coraçao moído e a curiosidade de se viver a vida. Um tropeço após o outro, eu me conduzo ao fim de uma gestaçao do pior que há em mim. As contraçoes vem, o parto assusta, o livro fecha. Em tres dias, quem quiser ver verá nascer  o que já veio a essa terra e sugou todo o meu sangue, o que encheu meu coraçao do líquido preto letal, o único que poderia nascer da visao turva e do andar descontrolado, o pai de todas as dores e filho de toda agonia, o próprio antisophia em sua representaçao mais tangível....: o amor.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sofri todos os sinais vermelhos no caminho da minha casa até a sua
Espetei o dedo nos espinhos de cada flor do buquê que eu levei
Cada topada que meu dedao levou foi necessária para chutar o balde
Cada esquina foi um atalho
Cada afago foi um ensaio
Cada dia foi um preambulo
Para a noite que é
olhar nos seus olhos