Segue a sombra da noite, vira na esquina turva, senta no ponto de ônibus vazio. Incrível como me percebo mais uma vez cegamente apaixonada pela madrugada e desiludida pelo amanhecer. As criaturas noturnas buscam momentos turvos e vazios em si mesmos porque a realidade é preenchida demais. É como um grito de protesto, a relutância de fechar os olhos enquanto nos fazem passar pelo processo laranja e mecânico de assistir nossos sonhos e ideais se repetirem com uma pitada de veneno descrente cada vez maior. O veneno do cotidiano assombra meus sonhos e a minha crença no amor poderoso, o deus-amor do futuro que se impõe sobre as relações e determina a nossa condição humana, é destituída pelo estúpido monstro selvagem e bêbado. E nós, revolucionários da noite oca, aplaudimos e celebramos com nossas cervejas. Juntos, cantamos o hino da estupidez e rimos da vida adulta desgraçada.
Um jovem velho, barbudo, bêbado e amanhecido escreve isso numa cafeteria qualquer e se sente um gênio dos tempos modernos. Ele sente a necessidade de mostrar essa obra prima pra todos, ele está convicto de que alguém vai gostar e apertar um “like”, o abraço virtual de que tanto carecemos mas fingimos que não nos importa. O jogo é ser legal e fingir que não sabe, o jogo é jogar tudo pra cima e celebrar o monstro selvagem, aquele que você odeia, aquele que você treinou a sua vida inteira com um arco e flechas profissionais para matar, aquele que você finge que não alimenta com veneno durante a semana para dar-lhe o antídoto no final dela. Sempre que escrevo fica faltando falar o quanto acho o lirismo um saco, o quanto imagino minhas palavras sairem da boca de um descontente que acredita ser melhor do que os tempos que vive, apaixonado pelo passado e por si mesmo, declamando com amor próprio sua ingratidão. Por que complicar tanto o que quero dizer? Por que não sei tanger os sentimentos que eu escondo com as mesmas palavras que uso pra falar do meu cd favorito? Porque não me embebedo de mim?
Os meus hábitos suicidas matam minha esperança e minha atenção diária, mas mantêm vivo o espirito imortal da insatisfação eterna.
Bleghrhrhgr eu não queria ter escrito isso.
Um comentário:
ETA PORRA
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