As horas na madrugada parecem arranhar a superfície de cada incêndio mental que permeia a minha dor de cabeça, mantêm-se na superfície de todos os problemas que não consigo acessar por serem profundos demais na sua insignificância. E a verdade é que de quando em quando eu escrevo pra poder gabar-me da profundidade dos meus problemas, pra justificar a minha superficialidade cotidiana, o meu riso ansioso e a minha desatenção, que na verdade é só atenção direcionada para o inútil. O meu senso de momentos significativos se perde com tantos símbolos e conceitos pra admirar, e o momento reflexivo de molhar os pés na areia e olhar o mar não me parecem mais necessários: posso fazer isso a qualquer momento. Estou fazendo isso agora. As lágrimas que escorrem pelo meu rosto só são uma simulação do meu momento garota-bonita-num-filme-bonito, e o meu choro, que acontece ao mesmo tempo que milhões de choros mais e menos importantes, tem a especialidade descartável de uma trilha sonora que só se ouve na minha cabeça. O pôr do sol me parece longo demais, o mar precisa que eu entre correndo e mergulhe, as paredes me prendem no cotidiano concreto. Estou cansada dessa luta interna pra ser uma pessoa boa e fazer o bem, eu concretizo todas essas ideias na minha cabeça e o mundo me estapeia e me grita que é tudo um absurdo. Leio textos de uma universidade que eu não faço pra não ficar pra trás, mas meus passos ficam cada vez mais lentos e a minha vontade de alcançar o passo de tudo o que acontece é cada vez menor. Eu já entendi que, diferente do que a minha mente adolescente e constantemente negativa acreditava, a morte não é uma solução pra nada. Percebi que isso não é mais uma questão de acreditar ou não, os dias vão me comer os dedos e enquanto eu não resolver isso com as próprias ferramentas insuficientes que tenho, de alguma forma o problema se repetirá num looping tão estúpido quanto a teimosia é. Mas é que se passam os anos, amor, e eu destruo cada vez mais os ideais que me foram colocados na cabeça burra e no coração bichado. Ao ponto de que não sei pra onde estou indo, e me sinto mais uma vez a pessoa perdida que não sabe aonde pertence e não quer pertencer a nada, mas dessa vez o tempo não está ao meu favor. Meus pés titubeiam em dar passos pra frente porque cada um é cada vez mais doloroso, e a descoberta do novo caminho não é mais surpreendente ou excitante, é um contínuo desapontamento que me bate diretamente nos joelhos. E chegamos ao problema, mais uma vez… Eu já não posso mais me enganar: eu sei quem sou. Eu não me ajoelho, eu não presto honra. Mas eu não consigo mais amar estar de pé.
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