terça-feira, 28 de setembro de 2010

não é real

Isso é pouco demais pra mim, garoto-galinha. Pouco demais pra uma pessoa que fez tudo o que eu perdi. Eu não estou pedindo que você saia, porque amo ter você aqui. Só estou pedindo que pare de me forçar a sentir o refluxo desse amor mal amado que você me fez amar.
O que mais eu tenho que mudar pra você entender que já passou?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Já era tarde, e eles continuavam ali.
Nenhum dos dois estava dormindo, mas fingiam. Mantinham os olhos fechados e a respiração profunda, abraçados no sofá. Estavam disfarçando para si mesmos o que estava acontecendo.
Na outra sala, os amigos dormiam profundamente, cada um em um colchonete.

“Talvez seja hora de irmos deitar. Não está desconfortável?”

Ele se chama Ferdinand. Carregava o nome como um fardo, desde que nascera. Ninguém o levava a sério.
Não era um completo solitário. Tinha o clube do livro, os amigos virtuais e aqueles que estavam no quarto ao lado. E tinha ela.
Ao contrário do de sempre, ele nunca tinha realmente pensado nela antes. Nem ela nele. As coisas simplesmente aconteceram assim, rápidas. Para os dois.
Quando cresceram, surpreenderam-se com a quantidade de pessoas que não acreditavam em amor mútuo ao acaso. Mas isso é uma coisa que vai longe demais. Começa nos filmes de maçã do amor, e acaba nos olhos de quem ouve.
O fato é que eles estavam lá, encolhidos em um sofá onde cabiam mais quatro, e ele, depois de tanto tempo, conseguira sair daquele jogo de fingimentos e dizer alguma coisa.

“Você gosta?”, ela perguntou, como se não tivesse ouvido a pergunte dele.

Tinha essa mania: na maior parte do tempo, ignorava as perguntas comuns, e soltava alguma loucura. Por exemplo, se você perguntasse a ela qual era sua cor favorita, ela poderia demorar horas te respondendo. Mas se lhe perguntasse como fora seu dia, ela te perguntaria qual era a sua cor favorita.
Cada amigo seu tinha lhe repetido a cor favorita mais de cinco vezes, mas pareciam não perceber o fato.

“Se eu gosto? Gosto do que?”

Naquele momento, ele gostava de quase tudo. Gostava da casquinha de pipoca no dente, do cheiro da garota que estava em seus braços, da garota que estava em seus braços, do fato de uma garota estar em seus braços, e da cor do sofá.

“Se você gosta da cor desse sofá. Eu sempre me perguntei que cor era. Mas sempre foi a minha cor favorita. E sempre que me perguntam qual é a minha cor favorita, eu não sei responder. E eu acabo me enrolando e dizendo algo que não tem nada a ver com esse sofá... Na verdade, na grande verdade, eu gosto da cor desse sofá quando estamos sentados em cima dele. E quando você encosta a sua mão na minha desse jeito. E eu nunca tinha percebido isso antes, sabe... É estranho.”

Mais uma vez, ela estava fazendo um monólogo por uma pergunta que não tinha sido respondida. Era tudo muito confuso com Julia.
Quando ela era pequena, seu tio escreveu um pequeno livro de dez páginas infantil, intitulado “O que está havendo com Julia?”. E para Ferdinand e seus amigos aquele era um nome absurdo, porque nunca se podia saber exatamente o que se passava com Julia. Ninguém nunca tinha ido tão longe a ponto de conseguir ser respondido de verdade por ela. Nem mesmo a sua mãe.

“É... Eu gosto. Posso perguntar que cor é pra minha mãe, se quiser. Mas... Você gostava desse sofá antes de... Sabe, hoje?”

Se existia alguém inseguro naquele grupo, esse alguém não era nenhum dos dois encolhidos naquele pedaço de almofada. Os dois sabiam o que eram e o que não eram, e estavam acostumados com isso.
Quando crianças testaram muito bem seus limites e preferências. Uma vez tentaram ser alienígenas. Até hoje testam, embaixo dos lençóis. Mas isso ninguém sabe completamente, e você também não vai saber.

“É uma boa pergunta. Eu demoraria muito pra ter uma resposta pra ela, sabe. E acho que é porque eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas isso não quer dizer que eu não tenha sentido. E eu não sei se eu senti , se não pensei. Entende? É tudo muito complexo. Sabe, eu sempre gostei do jeito que você me pergunta as coisas. Quero dizer. Eu sempre gostei das suas perguntas. Me fazem querer dar respostas. Me sinto uma artista de rock sendo entrevistada. Talvez isso seja algum coisa que eu senti, mas não pensei.”

Ficaram em silêncio. Ele tinha medo de falar e incentivar um novo monólogo. Não que ele não gostasse. Ele tinha acabado de perceber que adorava ouvi-la falar tão abertamente. Pensando e falando, pensando e falando...

“... E não precisa perguntar pra sua mãe que cor é. Talvez a minha cor preferida eu não consiga ver, de verdade. Sabe? Agora esse sofá é a minha cor preferida, mas se eu levantasse e fosse me deitar, a cama seria... O que responde à sua primeira pergunta. Viu só? Você me faz falar.”

Eles não tinham se beijado. Estavam encostados um nos outros com as mãos dadas, e de repente perceberam que se amavam. Talvez desde nascidos. E isso era engraçado. Engraçado o suficiente para suprir a falta de beijos, por enquanto.

“Acho que isso é bom, não é? Bom. No final das contas, não sei se algum dia eu pensei nisso antes. Entendo o que você quer dizer. Talvez a gente tenha sempre sentido e pensado, e só não sabemos. Eu acho que eu moro fora de mim. Eu acho, agora, que eu moro em você. Talvez isso explique muita coisa. Talvez isso só gere mais perguntas.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pintei-os.

Pintei-os porque não eram meus. Pintei-os numa tentativa - falha? - de tirá-los de suas mãos. Porque precisava senti-los como meus, ao menos uma vez.
Pintei-os. Se a minha cabeça queima tanto com todas idéias de desidéias internas, então que o mundo veja tudo de uma vez. Pintei-os pra transparentizá-los, seja lá o que isso signifique para cada um.
Não se foram. Continuam aqui, me atormentando. As raízes me gritam que não mudaram, que só lhes vesti com alguma coisa mais viva, ou menos eu. Estou discutindo com elas há anos. Cores não me definem, afinal! Não mais.
Pintei-os porque você os tomou, e lhes disse o jeito que você gostava, e impregnou o seu perfume em cada fio de cor. E eu precisava me livrar desse seu feitiço.
Pintei-os, e apesar de ter gostado de tudo o que me surgiu, não consegui o que queria. Surgiu exatamente o oposto.
Você os viu. E gostou da novidade? Veio, passou seus dedos por ele e lhe pareceu uma nova aventura. Aqui estão eles, já sem o mesmo brilho de antes, com o seu cheiro, e obedecendo suas ordens.
Sei que você não pode sair da minha cabeça, depois de todos esses testes... Mas é pedir demais, senhor Comedor de Pensamentos, que saia ao menos de meus cabelos?
Grata, Ariel-Mary-Jane-Jeam-Hayley-Williams-cantora-de-não-sei-daonde-ou-qualquer-coisa-que-se-afaste-da-sua-concepção-de-mim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Só a gente entende

Antes de acordar, sonhei que você leria isso e entenderia.
Sonhei com gatos pretos e bolas de gude em seus olhos, também. Mas isso não vem ao caso.
Ou talvez venha, depois.
Mas é que antes de dormir, pensei em você. Antes que se confunda, não estou falando daquele você que come meus pensamentos. Estou falando de você. Que perdeu suas noites e horas pensando em "mim". Você para quem eu estou apontando o dedo agora. Você que me ofereceu folhas em um casaco que - santo Deus! ainda não sei qual é.
Venho me consumindo. Não sei o que você quer dizer com adeus. Não sei o que pensar. Amava suas cartas, cada uma delas. Eram como uma sobremesa, depois do meu dia-almoço. Amava a certeza que você me trazia. Amava o forte que eu me sentia quando você estava por perto.
Essas coisas inexplicáveis, que você me explicou.
Venho me consumindo. Porque, todo o dia, quando eu vou embora, penso por mais de horas em como vou te falar que você é tudo o que eu preciso, mesmo não conseguindo te precisar. Naquela carroça metálica que me conduz a um outro mundo todo dia, fico imaginando como seria se eu fosse uma pessoa sensata e olhasse mais do que seus olhos. Ou simplesmente os olhasse, e não desviasse a atenção.
Venho me consumindo porque, no fundo, eu amo você. Mas você, justamente você, me abriu os olhos em alguma conversa infernal. Me falou sobre passado e presente, e eu entendi. Acontece, duende, que eu te amo no futuro. E isso é tudo uma loucura. Porque o futuro se torna presente, e no presente, não consigo sentir o que sinto por você no pensamento.
E isso não é uma carta pra te encher de esperanças, ou te fazer "feliz".
É que todo esse tempo, todo esse maldito tempo, a minha casa esteve cheia de gatos pretos com olhos de bolas de gude. E eles não paravam de miar, e não me deixavam pensar. Ficavam me pedindo por uma explicação pra eu ser tão idiota, pra eu não te amar, ou nem ao menos tentar. Mas ao mesmo tempo, não me davam tempo pra uma resposta. E tudo o que eu respondia era "miau".
Mas ontem, no meu sonho, espantei-os. Todos. Um por um. Só pra poder sentar no meu sofá - agora peludo - e pensar no que te dizer, e no que "me" dizer. Acordei com essa resposta mal dormida nos dedos.
Estava precisando mesmo. Eu precisava me explicar o porquê de eu não te amar, se eu te amo. Precisava te explicar que eu te amarei. Eu te amarei no nunca do meu futuro, por enquanto.
E essa não é uma resposta definitiva, porque, como eu já te disse mais de mil vezes, eu não sou dessas que para em uma conclusão e mora lá até envelhecer. Você bem já viu isso.
Essa é uma resposta temporária de uma pessoa cansada, agora cheia de onomatopéias de porcos nos ouvidos e nos olhos, esperando mais um metrô até o dia dois.
E eu espero, velho-duende-chapeleiro-rumpelstikin(é assim?)-menino-moço-do-cabelo-cacheado-Gesteira, que você entenda o que eu quis dizer.
Porque por mais que se tente, é sempre uma confusão enorme dentro da gente, e é sempre impossível fazer-se traduzir por completo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um eu de muitos sinônimos

(...)
Punição. Só uma forma bruta de enfiar pela güela algum tipo de bondades, dessas que vêem aos montes. O menino, coitado, plantava semente de ódio, pra nascer fruto de vingança. Acaba que quando se tenta engolir valores à força, regurgita-se os que se mantinham. O menino criava mais coisa ruim do que boa, dentro de si.
O erro se esconde em querer botar o bem e o mal por um todo. Ora veja, se o pai, que tanto nega a maldade do menino, fosse de todo bom, então não batia com tanta crueldade na criança. E o moleque, arruaceiro que só, se fosse de todo mal, não choraria de arrependimento depois. Nem criança seria.
Não dizem que eu, odiado por todos os que se dizem bons, o Faca Fria, o Hermógenes, o Treciziano, se fosse de todo ruim, não seria criado por Deus, e Deus, tão adorado como o Senhor, se fosse de todo bom não tinha me criado?
Deus e o diabo têm espaço em cada pedacinho de coisa, em cada canto da natureza, em cada Sertão. Cabe bem e mal em cada pedaço de folha, bicho, gente e rio.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Amor

Se é só isso o que vocês tem, então eu recuso, muito obrigada
Vocês podem até me dizer que essa coisa de se amor não vem em receita, ou não é de se comprar,
Mas eu estou farta de tanta enrolação, pra no final ter isso.
Se querem me propor felicidade como recompensa, eu prefiro encontrá-la em outros gostos.
Não é o suficiente, pra mim. Essa coisa de incorrespondencia, falta, sobra, mais, menos.
E se for pra provar, então que venha em dose dupla, pra poder oferecer pra alguém disponível.
Injustiça demais, apego demais, descontrole demais;
Se é o sentimento dos anjos, então eles que o guardem pra eles
Aqui na terra isso já fez mal demais

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

vai entender

Sentada numa praça qualquer, eu sentia o vento contra o meu rosto, e fechava os olhos, enquanto ouvia aquela mesma música de sempre. Meu cabelo batia forte no rosto, e minhas mãos se escondiam nos bolsos, enquanto eu tentava sair daquele plano mais uma vez.
E ali, naquele banco duro, olhando pro mar, eu decidi.
Decidi que vou me despedir. Eu estou desistindo do amor, de uma vez por todas.
Estou desistindo da mesma música de sempre, da mesma banda, e das mesmas lágrimas. Estou desistindo dos cheiros, dos chás e dos cafés.
Estou desistindo porque, finalmente, eu vi que isso tudo não é pra mim. Lágrimas não são pra mim. Dor não é pra mim. Olhares não são pra mim. Você não é pra mim. Eu não sou pra mim. Queimaduras e masoquismo não são pra mim.
Tudo o que eu mais quero é que, quando eu me sentar nesse banco dessa praça desse mar, eu possa sentir o cabelo batendo no rosto, sentir a música - talvez não a mesma - e o vento.
Eu simplesmente não posso mais ignorar tudo que está a minha volta. Não posso mais perder a partida dos meus melhores erros, não posso mais correr da chuva, não posso mais chegar atrasada, e nem sentir esse remorso constante. Não posso porque essa coisa toda de amor não está no nome. Porque amor não é um sentimento só. Amor é como tirar um pouco de cada sentimento que existe dentro de você.
E eu cansei de não sentir isso.
Estou me despedindo de vez. Estou dando tchau para as pétalas, para as músicas, para as lágrimas e para os sonhos.
E você. Vou embora de você sem conseguir o que eu sempre quis: que você me olhasse. Queria que você parasse e olhasse pra mim. De verdade. Queria que, ao menos uma vez, você lesse os meus olhos e a minha mente. Queria que olhasse pra meus cabelos, e para a minha voz. Queria que você me visse e me retratasse. Queria que você me visse. Mas você anda com os olhos fechados o tempo todo, e constrói o seu caminho as cegas.
Então vou embora, antes que você resolva abrir os olhos e ver que eu estou aqui.
Vou embora. Porque sem esse meu "amor", uma parte de mim some, essa eu não existe. E esse você muito menos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Quer saber? Não me importa.
Não faz a menor diferença, não mais. Cansei. Não vou mais fingir que você não existe, nem desviar o olhar. Não vou me importar com o que você pensa. Não vou mais prender o cabelo por sua causa. Não vou mais olhar pra trás, não vou mais te esperar.
Não vou mais ficar com cara de triste, não vou mais ficar com cara de feliz. Não vou fazer mais caras, nem bocas, nem cenas. Chega.
Já está bom demais pra mim. Você não merece tanto. Eu não mereço tanto.
Desisti de ficar presa ao chão só por você, só porque você também está. Se quer saber, hoje mesmo vou voltar a flutuar, e não vou olhar pro chão até te ver no seu tamanho original: minúsculo.
Eu vou voar. Vou subir pelo meu azul preferido, e deitar nas nuvens. Vou voar com a brisa lá de cima, e sentir a pressão nos meus ouvidos. Só pra poder voltar a ser o que eu sou, e voltar a ver meus amigos pássaros, que eles - esses sim - merecem.
"Eu vou provar o céu e me sentir viva de novo."

Starlight

Bem longe
Essa nave está me levando para bem longe
Pra bem longe das memórias
Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

Luz das estrelas
Eu vou estar perseguindo a luz das estrelas
Até o fim da minha vida
Eu não sei se ela vale mais

Segurar você em meus braços
Eu só quero segurar
Você em meus braços

Minha vida
Você eletrifica minha vida
Vamos conspirar para (dar) ignição
Todas as almas que podem morrer apenas para se sentir vivas

Mas eu nunca vou deixar você ir
Se você prometer não desaparecer
Nunca desaparecer

Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações


Muse


É só que diz tanto tudo o que eu quero dizer...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

res pirar

Abaixo a cabeça e inspiro. Inspiro tudo isso que me faz tossir, e tudo isso que me faz doer e sentir o coração saltar sem aviso. Vou inspirando, bem devagar, tudo aquilo que fez e faz falta no meu interior. Cheiro de roça. Vou inspirando essas mágoas e músicas que já me fizeram tão bem e tão mal. E vou inspirando os gostos e cheiros, que sempre se prendem no meu bem-querer.
Inspiro tudo isso - talvez mais - e deixo tudo preso por algum tempo. É que parece que não se faz o valor quando as coisas passam muito rápido, como quando um flash de lembrança corre pelo olho, e acaba pairando no canto da memória - já um pouco distorcida - e você fica se perguntando o que aconteceu. Prendendo a respiração, parece que se absorve mais ar.
Prendo até que minhas bochechas fiquem vermelhas, e os olhos comecem a esbugalhar. Então, no melhor dos alívios, solto. Solto todos os gritos que engulo - e me arrependo de ter engolido - e todas as conversas que gostaria de ter tido. Solto as palavras que me faltaram te dizer, e as verdades que eu guardo nas lentes que não uso, mas que... céus! como deveria usar!
Vou soltando, não sei se rápido ou devagar, e fecho os olhos, no intuito de expirar tudo o que sobrou de morto em mim. Aquele frango, e aquela coca-cola. Aquela nota. Ah, quase me esqueço: aqueles abraços que não vieram, que se materializaram em uma esperança morta que se prende em mim todos os dias.
E, enfim, quando sopro todo ar que existe e que não existe em mim, volto a respirar normalmente.
Ando suspirando muito ultimamente.

Se é pra ser direta...

Tenho que confessar que tentei de todas as maneiras possíveis responder a última coisa antes do trem.
Tentei pedir pra você ficar, tentei dizer que te amo, tentei alcançar seu trem - mais uma vez - e tentei lhe dizer o quanto senti isso que eu li.
Tentei de todas as formas me comunicar com você, mas seu maquinista se enganou. O trem já partiu há muito tempo, pra mim.
No final das contas, tudo pareceu egoísta demais, errado demais, inoportuno demais. Não quero desconstruir tudo o que foi construído nesse seu último adeus.
Fiz tudo muito mal feito e falei tudo mal falado, mal destroçado.
Acontece que eu não tenho trem. Eu vou andando de metrô prum lado e pro outro, assim... Sem decisão, sem ponto de partida e sem chegada.
Não consegui fazer ninguém entender o que eu sinto e o que eu penso sobre tudo isso. Talvez porque seja muito meu, ou muito nosso. Muito interno.
E eu usei os meus olhos - os únicos que eu tenho - pra ver o trem partir, pela última vez, cantando e dançando alto "A Letter To Elise" e me soltando de tudo o que eu te devia e tudo o que você me deve.
Sentirei saudades. Mas não há dúvidas: é uma era, é uma nova carta pra Elise, é um novo você e é uma nova eu.

A máquina

(...)
- Eu te prometi, lembra? Tá tudo aqui: a televisão, as câmeras, o dinheiro, o sucesso, a comida... Eu trouxe, Karina! Trouxe o mundo pra você.
- As coisas não são assim, Antônio.
Será possível? Será que ele estava realmente tão perdido em seus sonhos? Por que é que ele não abria os olhos? Por que eu não fechava os meus?
- Assim como, Karina? Não foi isso que eu lhe prometi? O mar, Karina. Até o mar eu trouxe pra você. Pro's seus olhos verem a cor deles refletida na água.
- Antônio, você nunca mais voltou! Eu tinha que fazer alguma coisa da minha vida!
- Vida? Vida, Karina? Eu deixei a minha vida com você pra poder trazer pra Nordestina tudo o que você sempre quis!
Fechei os olhos, pra chorar mais ainda. Chorava porque sabia que era tudo culpa minha. Porque ainda o amava. Porque sabia que minha vida também havia ficado com ele. Porque eu só me encontrava quando ele estava por perto.
- Chora não, Karina. Chora não que ainda dá tempo. Esquece essa coisa de marido e vamo embora! Nem trouxa precisa arrumar, que eu comprei os vestidos mais lindos do mundo todo pra você. Trouxe o mundo! Viaja comigo e com o mundo, Karina!
- Eu não posso, Antônio.
- Mas não poder é coisa inventada, meu amor. E não foi isso que você sempre quis? Sair de Nordestina? Vamos, Karina! Eu vou com o mundo pro mundo com você.
- Mas Antônio... É pior do que parece.
- É o quê?
- Eu tenho um fruto, Antônio. Fruto de uma árvore que foi regada a lágrimas. Árvore que plantaram sem minha permissão. E esse fruto, e essa árvore... Eles não teem culpa de ter uma raiz seca como eu.
(...)