sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

o fim e o começo

Um pouquinho de tudo se esconde no canto de um sorriso que ninguém sorri mais. Um pedaço de nada que não é nem visto, que não tem nem graça nem ritmo, uma quina de coisa que nenhuma luz pode iluminar ou ofuscar, que não faz parte e não se entende como nada. Um pouco de toco bruto, seco, sem eco e sem cura, no ultimo centímetro da nossa loucura, e é tudo tão desconhecido, é tudo tão cansativo, sem graça, sem vontade, sem peso, sem fome, sem beijo, sem suspiro, sem frio, calafrio, nem metade de um arrepio eu consigo levantar.
Um pouquinho do nosso amor eu escondi em um grafite que vi em algum lugar, um desenho colorido que nem aquele sorriso amarelo e rosa e vermelho e quente, eu sentia arder cada suspiro que eu dava longe de você, como se um dos meus pulmões só funcionasse com seu perfume, como se as minhas veias só fossem esverdeadas quando seu cilho roçava nas minhas bochechas, rubro e macio, e suave.
O meu nariz escorria um banho rápido e tenso, e tão puro, tudo tão puro, eu enlouqueci e me perdi, e me encontrava cada vez que meus joelhos falhavam quando tocavam nos seus, e o tempo parava pra eu entender que aquilo era nada e tudo era tão pouco, era tanto, eu e você, era tudo e era tão pouco. Eu sinto forte como se os girassóis tivessem fugido de mim junto com as duas rosas brancas que representavam o começo de algo tão bom, cada dia mais próximas do fim, cada dia mais próximo do fim, e cinco sempre foi o meu numero da sorte, né não?
As intensidades variam junto com a minha respiração, eu sentia que nada podia ir embora, mas eu fui, eu fiz a mala e fui, meu amor, e ainda não completei os selos do meu álbum, e mesmo quando completo me sinto cada vez mais vazia, cada figurinha retirada de mim e de você, e isso dói e rasga, rasga fundo o nosso álbum colorido, meu pedacinho de coisa, meu pedacinho de mim, e de você, e de nós, e era tanto, e foi pouco pra mim, eu não sei porque.
Eu não sei, eu não tenho as respostas; eu nem sou nem faço, eu não me responsabilizo, não vejo, não quero, não sinto, respiro, piro, um, dois, três, quatro, cinco. Cinco, meu amor. E Marte e Vênus e Mercúrio gritam pra que nós nos entendamos, mas as rosas murcham, e no lugar delas vêm micróbios e lagartos, e elas se decompõem sobre o nosso chão, sob nossos olhos, para que novas rosas venham e cresçam e morram ou – quem sabe? – alimentem algum herbívoro inferior, né meu amor? A gente sabe disso há tanto tempo... A gente sabe, não sabe? Me diga que você sabe.
É tudo tão fútil, meu amor, eu e você é só um pedaço bruto e tosco de madeira velha, e os cupins vem aí, eles sempre vem, eu e você e os cupins, meu amor. Os cupins vêm aí, e não adianta fugir. Estamos em uma floresta, e não sabemos mais sorrir. Porque não somos mais nada, somos adubo pra novas rosas e já passou da hora de entender isso. Esperemos, amor, que as rosas cresçam de novo.
Raios de dor, vermelhos e roxos e pretos, mordem meu coração quando eu digo isso, mas é que não posso forçar as rosas a crescerem. Se é que elas ainda crescem. Eu quero que cresçam, mas e se crescerem margaridas? Você está pronto pra isso? Você está pronto pra não ter o cheiro do capão? Eu lhe dei o meu coração, mas ele não existe mais, e agora são só cupins, tudo é tão pouco, tudo é só cupim, meu amor, então vamos aproveitar que eles vivem e mordem, e devoram tudo com tanta voracidade, com tanta! Amor, mo, mozinho, mordida de bolo de chocolate minha, tudo é só cupim. Dói e corrói, é tudo cupim. Nada faz sentido, eu muito menos. É um fim, e um fim é só mais um começo. É tudo um fim e um começo. É tudo tão lindo.
...Fim.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

se cada pedaço de mim fosse eu no seu pedaço de flor, se cada cor que eu grito chegasse no seu tom de azul, o céu seria mais bonito. se as estrelas que eu engulo tivessem o gosto do seu cereal, e se a metade um dia não tivesse metade, eu estaria infinita no canto do seu olho.
queria que os meus "e ses" tivessem o gosto do seu primeiro bocejo, e que amanhecessem com seus olhos cansados. queria que eu pudesse caber na canção que seus dedos cantam quando se escondem de mim, ah, queria que o dia surgisse do meu sorriso, e o sol clareasse tudo e todos, sugando o suor que nós tanto salgamos. eu queria que o pedaço da minha pele se perdesse na sua pele, e que selassemos nossos passos no silêncio, sem medo. eu queria que o tempo me abraçasse como abraça a todos, mas me sufoca, e eu sou só um pedaço de qualquer coisa, eu sou só um só.
se um dia um pedaço de mim for o suficiente, me mande uma carta. meu coração não bate como antes, meus olhos não me reconhecem, e eu peço desculpas por me apoiar em outras palavras pra me explicar.
as minhas unhas crescem e se assustam com o mundo. e, como eu, se partem e se encolhem, descascando diante do que é que pode ser.
eu me pinto, me corto e descorto, me transformo já não sei pra que, por onde, não sei onde está o que eu costumava afirmar, não sei onde estão os fins de semana, a flor amarela, o feijão do dente e os mergulhos de mar que eu sempre amei, que eu sempre fui.
eu cresci. eu tenho medo do mar. eu tenho frio. saudade de tanta coisa que o salgado só é lágrima. quente. eu tenho medo do mar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lana

Close your eyes and feel the wind, baby
You were born like this, weren't you?
We all have something to carry on, when we're lazy
There's no reason to feel blue

Come here, I'll sing you a song
I'll count the stars and give you a smile
You know you shine like the sun
Even though the night stays for a while

Calm down, little lion, just le it be
These fleas are just another sparkle
And when you feel like you are sick
I'll be here to relax the buckle

<3 love you, lans.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

o porão sem graça

Ela caminhou até o seu destino nas pontas dos pés, tentando fazer com que o assoalho não rangesse como sempre, ou que o som do seu tênis batendo na madeira não se escutasse. Tinha apenas um celular na mão pra iluminar o caminho, e a chuva não ajudava com a localização. Quando finalmente chegou no fim do corredor, conseguiu visualizar melhor o cenário que lhe era tão familiar na infância: o sofá verde mofado, a cortina roxa agora com machas cinzas, e o caçador de pesadelos que um dia era algo mais do que um circulo com alguns fiapos coloridos pendurados, presos sabe-se lá como ou porquê. E, no canto direito, ao lado da mesinha torta, a caixa. Dentre todas as coisas ali, era a que se encontrava mais fiel à suas memórias: mantinha a tampa cor de madeira e o resto coberto de fotos coloridas de revistas diversas que ela mesmo colara em uma tarde de chuva como aquela. Tocou com as pontas dos dedos pra ver se sentia algum arrepio, mas não... Suspirou e carregou-a até o sofá.
Acomodou-se da melhor maneira que pôde, empenhando-se em não forçar as molas, fazendo-as rangerem como sempre rangeram desde que se entendia por viva. Esticou as pernas suavemente e debruçou-se sobre a caixa grande, como se fosse um mapa a ser desvendado. Sentindo o mofo penetrar no seu nariz e temendo pela alergia que lhe causaria depois - como sempre -, procurou assoprar a poeira por cima da tampa e levantá-la sem sujar mais os dedos. Não existia uma razão específica ainda em sua cabeça para estar fazendo aquilo. Não era a velha vontade de sensação de nostalgia, ou o desejo de não esquecer do que um dia foi importante: era algo mais. Ela queria sentir, dentro da sua espinha, que estava viva. Queria estar segura de que a onomatopeia contínua em seu pulso e o movimento de suas veias verdes - claramente visíveis - não eram a única prova disso. É óbvio que ela ouvia seu coração bater em compasso - mais forte agora que estava em um lugar escuro e assustador - mas aquilo não era o suficiente: o seu desejo por estar em qualquer lugar fora excluído de seu corpo, sentia-se um peso que vivia acomodado, procurando pequenas coisas que poderiam ser divertidas, mas que não lhe custassem muito esforço; um livro, horas no computador vendo imagens e vídeos inspiradores e deixando-os do outro lado da tela sentindo que nada do que lhe interessava existia na realidade.
Queria sentir vontade, LUZ! E a última coisa que lhe ocorrera fora a sua caixa de recordações, que preparara alguns anos atrás - talvez pressentindo que dias como esse chegariam.
Tentou não respirar fundo pra não tossir, e abriu vagarosamente, tirando a poeira grossa que cobria a parte exterior - por que aquele porão era tão sujo? - e mantendo a cautela pra não acordar ninguém na casa ou, ainda pior, qualquer bicho que poderia viver por ali em baixo.
Começou com as cartinhas: papéis coloridos, canetas brilhantes, letras tortas, grafia errada... As declarações que juravam ser pra sempre, e o beijinho de batom no canto da página. Frases de alguma Clarice Lispector, histórias engraçadas, piadas internas que não lembrava mais. Um mundo de coisas que achava que eram reais e foram caindo diante dos seus olhos... E só conseguira perceber agora. Quanta coisa mais não fora assim?
Continuou com os papéis de bombons de pessoas que jurava amar, o botão de uma camiseta que não era mais sua, um chaveiro que não significava mais o mesmo... dois, três, quatro! Vasculhou pra encontrar lacinhos, óculos quebrados, pedaços de caneta, papel crepom em forma de rosa, ingressos de cinema falhos e um cartãozinho vermelho que um dia já lhe custara muito caro... E hoje em dia era só papel com cheiro de mofo.
Parou quando percebeu que o que mais temia estava acontecendo: tudo aquilo, que já foi o mundo, hoje em dia era tão sem sentido que pensou em jogar fora. E mesmo dando-se conta disso, nem uma lágrima surgiu para consolá-la e mostrar que arrependia-se desse pensamento. Como é que os ponteiros se atrevem a transformar todo esse mar de sentimentos e cheiros em nada?
Fechou a caixa, suspirou, espirrou sete vezes e voltou encolhida para a cama, calculando quantas horas de sono poderia ter até ter que acordar para a aula mais uma vez. Até quando?

Talvez só aconteça comigo, mas agora só sinto medo. Medo de que o que tenho agora se torne nada mais uma vez, e que um dia eu chegue a só sentir o vazio dentro de mim. Sinto como se cada dia ficasse mais opaca, como se o buraco negro se expandisse mais e mais, sugando toda a explosão que eu sentia quando respirava fundo.
Quando sentei na minha cama e vi que começara a chover sem que eu me dera conta, tentei procurar dentro de mim a felicidade por ver as gotas descendo pela janela e só consegui sentir indiferenças. Como isso pôde acontecer?
Eu quero voltar a acordar sorrindo, estremecendo com a conversa que tive ontem a noite e me sentindo insegura sobre como eu vou agir a partir de então. Estou em um dos anos mais importantes da minha vida até agora e só o que eu sinto é que está tudo igual - ou mais sem graça. Onde está a luz que eu sentia e emanava?
E quando as estrelas não me causarem mais arrepios? Pra onde é que eu vou? Como é que eu vou sem você?
E se meus castelos não forem mais de areia? E se não existirem mais castelos?