queria que os meus "e ses" tivessem o gosto do seu primeiro bocejo, e que amanhecessem com seus olhos cansados. queria que eu pudesse caber na canção que seus dedos cantam quando se escondem de mim, ah, queria que o dia surgisse do meu sorriso, e o sol clareasse tudo e todos, sugando o suor que nós tanto salgamos. eu queria que o pedaço da minha pele se perdesse na sua pele, e que selassemos nossos passos no silêncio, sem medo. eu queria que o tempo me abraçasse como abraça a todos, mas me sufoca, e eu sou só um pedaço de qualquer coisa, eu sou só um só.
se um dia um pedaço de mim for o suficiente, me mande uma carta. meu coração não bate como antes, meus olhos não me reconhecem, e eu peço desculpas por me apoiar em outras palavras pra me explicar.
as minhas unhas crescem e se assustam com o mundo. e, como eu, se partem e se encolhem, descascando diante do que é que pode ser.
eu me pinto, me corto e descorto, me transformo já não sei pra que, por onde, não sei onde está o que eu costumava afirmar, não sei onde estão os fins de semana, a flor amarela, o feijão do dente e os mergulhos de mar que eu sempre amei, que eu sempre fui.
eu cresci. eu tenho medo do mar. eu tenho frio. saudade de tanta coisa que o salgado só é lágrima. quente. eu tenho medo do mar.
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