Um pouquinho de tudo se esconde no canto de um sorriso que ninguém sorri mais. Um pedaço de nada que não é nem visto, que não tem nem graça nem ritmo, uma quina de coisa que nenhuma luz pode iluminar ou ofuscar, que não faz parte e não se entende como nada. Um pouco de toco bruto, seco, sem eco e sem cura, no ultimo centímetro da nossa loucura, e é tudo tão desconhecido, é tudo tão cansativo, sem graça, sem vontade, sem peso, sem fome, sem beijo, sem suspiro, sem frio, calafrio, nem metade de um arrepio eu consigo levantar.
Um pouquinho do nosso amor eu escondi em um grafite que vi em algum lugar, um desenho colorido que nem aquele sorriso amarelo e rosa e vermelho e quente, eu sentia arder cada suspiro que eu dava longe de você, como se um dos meus pulmões só funcionasse com seu perfume, como se as minhas veias só fossem esverdeadas quando seu cilho roçava nas minhas bochechas, rubro e macio, e suave.
O meu nariz escorria um banho rápido e tenso, e tão puro, tudo tão puro, eu enlouqueci e me perdi, e me encontrava cada vez que meus joelhos falhavam quando tocavam nos seus, e o tempo parava pra eu entender que aquilo era nada e tudo era tão pouco, era tanto, eu e você, era tudo e era tão pouco. Eu sinto forte como se os girassóis tivessem fugido de mim junto com as duas rosas brancas que representavam o começo de algo tão bom, cada dia mais próximas do fim, cada dia mais próximo do fim, e cinco sempre foi o meu numero da sorte, né não?
As intensidades variam junto com a minha respiração, eu sentia que nada podia ir embora, mas eu fui, eu fiz a mala e fui, meu amor, e ainda não completei os selos do meu álbum, e mesmo quando completo me sinto cada vez mais vazia, cada figurinha retirada de mim e de você, e isso dói e rasga, rasga fundo o nosso álbum colorido, meu pedacinho de coisa, meu pedacinho de mim, e de você, e de nós, e era tanto, e foi pouco pra mim, eu não sei porque.
Eu não sei, eu não tenho as respostas; eu nem sou nem faço, eu não me responsabilizo, não vejo, não quero, não sinto, respiro, piro, um, dois, três, quatro, cinco. Cinco, meu amor. E Marte e Vênus e Mercúrio gritam pra que nós nos entendamos, mas as rosas murcham, e no lugar delas vêm micróbios e lagartos, e elas se decompõem sobre o nosso chão, sob nossos olhos, para que novas rosas venham e cresçam e morram ou – quem sabe? – alimentem algum herbívoro inferior, né meu amor? A gente sabe disso há tanto tempo... A gente sabe, não sabe? Me diga que você sabe.
É tudo tão fútil, meu amor, eu e você é só um pedaço bruto e tosco de madeira velha, e os cupins vem aí, eles sempre vem, eu e você e os cupins, meu amor. Os cupins vêm aí, e não adianta fugir. Estamos em uma floresta, e não sabemos mais sorrir. Porque não somos mais nada, somos adubo pra novas rosas e já passou da hora de entender isso. Esperemos, amor, que as rosas cresçam de novo.
Raios de dor, vermelhos e roxos e pretos, mordem meu coração quando eu digo isso, mas é que não posso forçar as rosas a crescerem. Se é que elas ainda crescem. Eu quero que cresçam, mas e se crescerem margaridas? Você está pronto pra isso? Você está pronto pra não ter o cheiro do capão? Eu lhe dei o meu coração, mas ele não existe mais, e agora são só cupins, tudo é tão pouco, tudo é só cupim, meu amor, então vamos aproveitar que eles vivem e mordem, e devoram tudo com tanta voracidade, com tanta! Amor, mo, mozinho, mordida de bolo de chocolate minha, tudo é só cupim. Dói e corrói, é tudo cupim. Nada faz sentido, eu muito menos. É um fim, e um fim é só mais um começo. É tudo um fim e um começo. É tudo tão lindo.
...Fim.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
o fim e o começo
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário