domingo, 24 de junho de 2012

"Insetos não me agradam", Alice explicou, "porque tenho bastante medo deles... pelo menos dos grandes. Mas posso lhe dizer o nome de alguns."
"Claro que eles atendem pelo nome, não é?" o Mosquito comentou irrefletidamente.
"Nunca soube que o fizessem."
"De que serve terem nomes", disse o Mosquito, "se não atendem por eles?"
"Não serve de nada pra eles", disse Alice, "mas é útil para as pessoas que lhe dão nomes, suponho. Senão, para que afinal as coisas têm nome?"
(...)
"Tenho certeza de que a minha memória só funciona em um sentido", Alice observou. "Não posso lembrar das coisas antes que elas aconteçam."
"É uma mísera memória, essa sua, que só funciona pra trás.", a Rainha observou.
(...)
"Oh, não fique assim!" exclamou a pobre Rainha, torcendo as mãos em desespero. "Considere a menina grande que você é. Considere a longa distância que percorreu hoje. Considere que horas são. Considere qualquer coisa, mas não chore!"
Alice não pode deixar de rir disso, mesmo em meio às suas lágrimas. "Você consegue parar de chorar fazendo considerações?" perguntou.
"É assim que se faz", disse a Rainha com muita decisão; "ninguém pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, não é? Para começar, vamos considerar a sua idade... quantos anos tem?"
"Exatamente sete anos e meio."
"Não precisa dizer 'exatualmente'", a Rainha observou. "Posso acreditar sem isso. Agora vou lhe dar uma coisa em que acreditar. Tenho precisamente cento e um anos, cinco meses e um dia."
"Não posso acreditar nisso!" disse Alice.
"Não?" disse a Rainha, com muita pena. "Tente de novo: respire fundo e feche os olhos."
Alice riu. "Não adianta tentar", disse, "não se pode acreditar em coisas impossíveis."
"Com certeza não tem muita prática", disse a Rainha. "Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã."
(...)
"Espero que o barco não vire!" disse para si mesma. "Oh, que lindo é aquele. Só que não consegui alcançá-lo." E certamente parecia um pouco enervante ("quase como se fosse de propósito", ela pensou) que, embora conseguisse colher quantidade de lindos juncos à medida que o bote deslizava, houvesse sempre um mais lindo que não podia alcançar.


ATRAVÉS DO ESPELHO E O QUE ALICE ENCONTROU POR LÁ - Lewis Carrol

sábado, 23 de junho de 2012

dont jump

Sentei no chão gelado e tentei lembrar do que você me disse. Sim, eu sei que existem coisas no ar para serem aprendidas a cada momento, e eu sei que hoje não era dia pra limonada, mas eu não posso evitar ter acordado azeda. Ter ido dormir azeda... E azedar madrugada adentro.
Infelizmente, o contorno do seu discurso me amedronta. Infelizmente, existe aquela coisa frágil, que faz crac! quando eu ouço aquelas coisas... Aquele arranhãozinho no fundo da alma que você chama de desconfiança... e talvez seja.
Ou talvez esteja tudo errado, sabe. Duas pessoas podem estar na frente do mesmo carro, no mesmo momento, e serem acertadas de maneiras diferentes; é tudo muito claro pra mim, mas acho que você prefere se perder no escuro... E isso é injusto de tantas formas que eu nem consigo dizer, que eu nem consigo deixar de me sentir uma idiota.
Eu não consigo deixar de me olhar no espelho e me perguntar até onde isso vai, até onde eu quero que vá.
Quando estiver em cima daquele muro, pensando no que você me disse pensar, lembre que eu te liguei. Uma, duas, três mil vezes. Lembre que eu chorei duas vezes antes de dormir, e amaldiçoei o meu celular quatro. Lembre que o dinossauro de plástico estava mais gelado do que nunca.
"O ciúme é só vaidade..."

quarta-feira, 6 de junho de 2012

o cigarro, o banho e a máscara

Eu não sei. Não sei o que esperar do futuro. Não sei o que eu quero. Não sei nem mais o que eu NÃO quero, na verdade. Acho que não quero nada. Tudo parece desinteressante, opaco. Poucas coisas salvam o meu dia, e normalmente são coisas que eu não posso fazer.
Preciso levantar da cama. Preciso ser mais forte que eu e esse corpo idiota. Dar um pulo, sacudir os ossos e tomar um banho. Lavar as horas que passei rolando na cama, meio acordada e meio adormecida, tentando sonhar. E passar shampoo pra tirar da minha cabeça as horas que eu ainda preciso dormir, que eu não sei pra onde vão. Descem pelo meu corpo, tentando se agarrar aos meus pés, que por sua vez, se fixam no chão na esperança de não mais se mexerem. Finalmente, vejo a minha sujeira descendo pelo ralo. Junto com ela, tudo o que eu sou e que quero ser, que tem que ser descartado antes que eu saia pelas ruas, e como qualquer uma, suba no ônibus, entre na sala de aula, ouça, coma, pense, pratique, risque, apague, respire, fundo.
Acendo um cigarro, na tentativa de não sei mais o quê. Acho que pra me sentir suja e podre por dentro, me sentir mais eu. Acho que é pra relaxar. Já deixou de ser uma coisa racional. Agora os meus dedos se movem sozinhos até o bolso, e depois à boca, e depois ao rosto. Com vergonha, porque eu não consegui cumprir o trato. Eu desapontei todo mundo de novo.
O pior de tudo é que eu não quero parar. Não é o cigarro que vai me dar câncer, é todo o resto.
A culpa não é totalmente minha. Eu estou atrás desse rosto que só diz o que eu não quero dizer, que mal aprendeu a cuspir, que tem um brilho falso nos olhos. Eu não sou só isso. Tem um cigarro preso na minha boca, mas você não precisa olhar agora. Não precisa assistir, só saber que ele está ali. E não é porque eu quero chocar, não é porque eu acho bacana. É porque eu simplesmente não me importo.
E é uma pena que não dê pra ver isso na minha cara. É uma pena que pareça que eu estou escondendo. É de se lamentar que por mais que eu puxe, contorça, rasgue e fure essa jaula angelical, ela não vai abrir. É uma máscara que eu não escolhi.