sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Theodora 2

Theodora estava tonta. Sentia um gosto esquisito na boca. Todos os seus membros doíam. Abriu os olhos. Seus sapatos foram arrancados, seu vestido estava em frangalhos, e o mais importante: a caixa havia desaparecido.
Olhou ao redor: não tinha a menor idéia de onde estava. Pensou em fazer um feitiço e iluminar a sala, mas tinha medo de chamar a atenção de algo ruim.
Mais uma vez, ouviu um ruído atrás de si. Dessa vez, o sonoro "Nhééééc" de uma porta se abrindo.
- Elisabeth?
Theodora paralisou. Não sabia o que fazer. Não sabia quem era Elisabeth, apesar de achar já ter ouvido aquele nome antes.
- Elisabeth, está acordada?
Olhou pros lados, mas não havia nenhuma outra garota ali. Aquilo só podia ser com ela.
- Ah, meu anjo... Pode falar. Eu já resolvi tudo, pequena.
Ainda sentada, Theodora deparou-se com calças pretas e um sapato social, bem na sua frente. Procurou pronunciar-se:
- Quem é você?
- Ah, Elisabeth. Bateu a cabeça muito forte? Papai foi muito bruto?
- Me desculpe, senhor. Mas eu não sou Elisabeth. Houve um mal entendido... Eu preciso ir, O Segundo está esperando por mim. Preciso contar-lhe sobre as três maças...
- Ora, ora...
Lentamente, o homem agachou-se, ficando frente a frente com a menina. A lanterna que trazia nas mãos possibilitou que seu rosto fosse visto, e Elisabeth teve que se segurar pra não demonstrar medo ou surpresa.
O homem tinha uma imagem deplorável. De camisa preta, seu rosto parecia muito, muito mais branco do que poderia ser, e tinha cicatrizes por todo o rosto. Na cabeça, um fio de sangue manchava o cabelo branco, que caía sujo por toda a testa. Seus olhos verdes encontravam-se arregalados, e um dos dois piscava freneticamente. Completamente sujo de lama, ele continuou:
- É claro que você é Elisabeth. Está querendo mentir pra mim, mocinha?

Alguém colocou um monte de flores, algumas risadas e um toque de doçura no seu caminhar. Alguém me disse que você é de outro mundo.
E se for, então eu também serei, só por você. Só. Por você.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Theodora 1

Theodora sentou-se na grama. Seus pés ainda tremiam, e a caixa preta encontrava-se firmemente pressionada contra o seu peito, como se qualquer fraqueza pudesse roubá-la de suas mãos. Apertava os olhos e tentava se concentrar no que Tina havia dito antes de todas as explosões, mas nem sabia se tinha ouvido alguma coisa de verdade.
Respirou fundo. Precisava pensar no que iria fazer. Ela não sabia de onde vieram os tiros, mas era óbvio que alguém estava atrás dela, e precisava entender o porquê. Algo a ver com a caixa que segurava nas mãos?
Theodora não tinha a menor idéia do que ela guardava entre as luvas, e tinha medo de descobrir. Naqueles Tempos, tudo era perigoso. Ela sabia que devia fazer alguma coisa com aquilo, mas estava assustada e preocupada demais em fugir quando Tina lhe deu as últimas instruções. Não havia volta, e logo O Segundo estaria ali para lhe perguntar sobre as três maçãs e as notícias dos Tempos de Lá.
Ainda estava encolhida e tensa, com os olhos fechados, quando ouviu um barulho na grama atrás de si.
Tentou pular, mas estava paralisada. Não sabia se era O Segundo, e se fosse, não poderia fazer movimentos bruscos. Mas se fosse aquela coisa mais uma vez, o melhor a fazer seria correr o máximo possível. A verdade é que os Tempos de Lá não eram mais seguros, e Theodora não sabia onde se esconder.
Mas aquilo não era O Segundo, e muito menos alguma sombra de seu mundo perseguindo-a. Aquilo era algo diferente. Algo do que ela nunca supeitaria, mas que naquele exato momento, envolveu-a na escuridão e apagou-a para ir pra um lugar muito, muito pior.

decoração japonesa

Não sei onde está. Pode estar em uma caixa vermelha e japonesa, ou só num pedaço de papel amassado no bolso direito. Pode estar na minha meia lilás ou em um caderno que eu odeio. Eu não me importo, pra falar a verdade, se cabem todos os dias coloridos, as experiências novas, os óculos e lentes ou os roupões infantis em uma caixa, em uma papel ou na minha cabeça.
Não, também não é no coração. Nem no sutiã rosa que todo mundo já viu e acham que é laranja, e nem no cabelo que já foi vermelho, louro, marrom e azul. É mais do que isso.
Eu guardei todas as cartas de um velho que e amo muito no meu bolso direito, os óculos e as lentes nos meus olhos, os roupões no guarda-roupa, os dias na cabeça e as noites no arrependimento. Mas está tudo aqui. Aqui e na esquina que já me mandaram ver se tinha gente. Aqui, e em cada canto da farmácia que me conduziu a uma noite aterrorizante, e em cada pedaço do cobertor que encobriu as minhas mentiras e minhas culpas.
Em todos os cantos, em todos os cheiros, em todas as letras, que o vento vai levando por aí.
Porque no final, vai ser tudo levado pelo vento: meus amores, dores, você, eu, ele, ela. Aquilo o que eu quero e o que não quero. Uma mão que encostou na outra, um bolo de chocolate e um castelo que não é tanto de areia quanto parece.
E junto comigo, vem uma seção de filmes que eu não quero ver, mas que se repetem na minha frente.

Eu não posso fazer nada. Eu tenho que assistir tudo de novo. E a culpa é, mais uma vez, minha.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Elisabeth 2

- Não pode me dar nem uma pista de quem você é? Quem sabe um olhar...
- HMMMMMMM
- Eu sei, eu imagino. Mas você entende? É muito arriscado... Talvez se eu soltar a sua mão você possa escrever na lama.
A menina que parecia um duende parecia querer andar de joelhos, mas as amarras estavam muito apertadas. Ela se sacudia violentamente, mas era inútil. No canto do quarto, Elisabeth havia encontrado uma navalha, que acreditara ter sido posta ali para desamarrá-la, mas a frase na parede a deixava muito confusa.
- Eu não sei o que pode vir da sua boca, me desculpe. Não sei se posso nem tocar em você!
Elisabeth chorava, cada vez mais. Não entendia. Não lembrava do dia anterior, e não tinha a menor idéia do motivo de estar presa ali. Estava com medo. Apavorada.

- O que você acha?
Lia não tinha como responder. Ela havia odiado. Odiava roxo com todas as forças, e tinha um apreço ainda menor por vestidos. O efeito que o glitter provocava nos seus olhos a irritava, e considerava pompons esfiapados a coisa mais brega do universo. Nunca gostou da garota que estava dentro do vestido, e odiava, mais do que qualquer coisa, o fato da sua tiara favorita estar acompanhando o visual. Odiava o jeito que as flores caiam nos cabelos lisos de Marina e não suportava o contraste do louro com o azul claro da peça.
- Eu acho que essa tiara é minha e que você deveria me devolver. Quer mais chá?
Ela iria que responder que não, e Lia serviria mais uma chícara doce enquanto esperava mais algumas horas. Ela era completamente o oposto de tudo aquilo. Seu vestido fora escolhido nos primeiros vinte minutos, e tinha menos brilho do que uma ferramenta de mecânico. Não era necessário nada demais. Nunca era.
- Não, você sabe que eu odeio essa coisa sem gosto.
Mais uma chícara. Mais um gole de raiva, enquanto ela prendia tudo o que queria despejar na chaleira, e servir morno. Estava frio. Sempre estava frio.
- Eu acho que não vou querer nenhum. Cansei dessa loja. Vamos para a próxima?
Respirou fundo. Enfiou as mãos com luvas nos bolsos do casaco e levantou-se. Num golpe rápido, arrancou sua tiara da cabeça da prima e enfiou na bolsa.
- Talvez seja isso que não esteja combinando. Olhe mais uma vez.
- Ah! É verdade. Por que não me disse antes? Agora vou ter que provar tudo de novo.
Lia fechou os olhos. Teve que contar até cem para não se descontrolar e ser o mais sensata possível, por mais que nada daquilo lhe parecesse sensato. Sentou-se, mais conformada, e pacientemente respondeu:
- Eu te disse. Te disse mil vezes, mas você parece que odeia me ouvir.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Elisabeth 1

Ela acordou. Seus olhos ainda estavam embaçados, e o silêncio surrava seus ouvidos. Ainda vestia sua camisola, mas não lembrava de onde estava, nem como tinha ido dormir. Suas mãos - na verdade, todo o seu corpo - estavam sujas de uma lama preta, e o quarto ao seu redor tinha todo um tom verde-escuro. Estava virada para a parede.
Sentia-se fraca, mas resolveu levantar. Não sabia que lugar era aquele, nem onde estavam os seus pais. Hoje, Elisabeth faria 15 anos.
Virou-se. Ao seu redor, todas as paredes verdes-escuras também estavam sujas com a lama nas suas mãos. O quarto estava vazio, exceto por uma sombra que só depois de limpar bem os olhos, ela pôde reconhecer.
Era uma garota. Suas roupas eram listradas, também verdes e pretas. Seu cabelo era em um tom loiro sujo e curto, e seu vestido tinha babados antigos e diferentes. Encontrava-se amarrada, com a boca tapada e ajoelhada. Seus sapatos pareciam ter-lhe sido arrancados, as meias estavam sujas e rasgadas. Um olho estava tapado pela franja, e o outro, brilhante, parecia pedir socorro.
Na sua cabeça, um chapéu também listrado, no formato que ela representava na situação: ?
- Quem é você?
- Hmmmm
A primeira reação foi tentar desamarra-la, mas ao levantar sua franja, viu uma seta apontando para a esquerda. Olhou: na parede da esquerda, escrito em letras negras, encontrava-se a frase:
"O bem e o mal vem sempre com um sinal, apontando a direção. Tenha cuidado, dessa menina não vem nada de bom."

Elisabeth congelou. Precisava pensar. Quem teria escrito aquilo? Por que ela estava ali? Milhares de perguntas vinham a sua mente, e ela esperava encontrar a resposta nas palavras da garotinha. Tentava imaginar o que a levara para aquele lugar, e se aquilo podia ser alguma brincadeira dos seus amigos, ou dos seus pais.
- Eles vão pagar por isso.
Tentou abrir a porta do outro lado do quarto, mas - como imaginava - estava trancado. Pensou em ignorar as palavras de um ou uma louca que a prendera ali, e simplesmente desamarrar a menina. Achou arriscado. Pensou em destapar a sua boca e ouvir suas próprias explicações, mas tinha medo de acabar sendo enganada ou enfeitiçada.
Elisabeth estava trancada em um quarto sujo, em seu aniversário de 15 anos, com uma menina implorando por murmúrios para ser solta, e uma frase muito misteriosa na parede, e não tinha a mínima idéia do que fazer.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É incrível como o tempo é relativo. Por exemplo, você pode passar só meia hora lendo sobre "Peroxissomos", que são organelas membranosas muito pequenas, presentes no citoplasma de células animais e vegetais, que são muito importantes por uma série de motivos que você não quer saber, e ainda assim, vai sentir como se duas horas tivessem passado. Por outro lado, você pode ler 311 páginas sobre o Penúltimo Perigo, e sentir como se houvessem passado minutos. Você pode sentar e ouvir pessoas falando sobre algo entediante como um livro que você não leu ou não gosta, e sentir como se anos se passassem, ou você pode cometer alguns erros e nem perceber que um segundo se passou.
No dia seguinte, você pode dormir por horas e sentir que apenas piscou os olhos, ou você pode olhar para os olhos de uma pessoa que você ama, e com quem você cometeu um erro muito estúpido, e sentir como se esse olhar de relance durasse uma eternidade.
Naquele momento, com a cabeça entre os braços, ouvindo resoluções de problemas matemáticos, e pensando em como eu estava arrependida, eu achei que minutos durariam pra sempre.
Agora, com sono e com necessidade de ler sobre "Peroxissomos" para uma avaliação na Segunda-Feira, mas escrevendo sobre a minha culpa, os minutos parecem voar com a máquina que me faz traduzir meus pensamentos.
Você pode dizer coisas como "eu ainda te amo" ou "está tudo bem", mas nada pode mudar o fato de mesmo que eu saiba a necessidade de ler sobre as tais organelas membranosas que me agurdam na Segunda-Feira, eu li o Penúltimo Perigo, e é assim que eu costumo agir, na maioria das vezes. Foi assim que eu me comportei ontem, anteontem, e todos os dias anteriores.
Não posso imaginar outros frutos para colher ao invés dos que eu colho agora, e isso é desolador. Desolador porque eu sei que deveria ter optado pelos Peroxissomos, desolador porque eu sei que deveria ter optado por ficar quieta, desolador porque, com toda a certeza, esse não é o meu Penúltimo Perigo, nem Penúltimo Desafio e - pior! - essa não é a minha última decepção.
E nem a de vocês.

A lua me verá

As coisas podem ser muito mais complicadas do que parecem. Veja bem, agora eu deveria estar lendo algo em torno de "Complexo Golgiense" e "Secreção celular", ou poderia estar lendo o o Penúltimo Livro de uma série tão desaventurada e desesperadora que te faria chorar, mas ao invés de aprender o que eu - infelizmente - tenho que aprender, ou de ler o que eu tenho completa ansiedade para ler, eu estou aqui, escrevendo sobre como a minha história pode ser desaventurada e desesperadora.
Não posso, de maneira nenhuma, revelar os motivos das minhas angústias, simplesmente porque as conseqüências seriam desastrosas e desoladoras para mim. Mas posso, por outro lado, amaldiçoar cada segundo errado que se passou, e cada dor - física ou não - que estes segundos me provocaram e estão me provocando.
Gostaria de ter controle sobre esse tipo de ruido, mas tudo o que resta são as certezas do quão incerta eu posso me tornar. E agora, peço permissão de cada um dos meus castelos internos, para o meu ódio a mim mesma.
Tenho, agora com todo o direito, a vontade de dormir e esquecer de como se acorda, assim como esqueci de como respeitar e ponderar os sentimentos alheios. Tenho a permissão de mais uma vez deixar escorrer de meus pulsos qualquer sujeira que se estabelece em mim, e "ai" de quem disser que não.
Não tenha pena. Não sinta por mim. Se você sente, é porque me ama, e me amar é muito perigoso.
Quando o sol se esconder, e você estiver com a cabeça encostada no travesseiro, a lua me verá destruindo seus sonhos e textos, sem nem ao menos me dar conta do que está acontecendo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Meus queridos

Estou escrevendo essa carta desde longe, porque lendo e relendo textos, recebendo abraços e mensagens, percebi que não fui clara com relação ao que eu realmente sinto sobre vocês, e seria muito torturante não explicar-lhes melhor, antes que desistam logo disso.

Eu disse que não ficava triste por vê-los indo embora, e meu Deus, isso pareceu uma coisa cruel, que não era o que eu queria dizer. Eu disse tudo errado, e desdizer é complicadíssimo.
O que eu queria mostrar é que eu parecia estar indo embora, mas isso não me deixa mal porque eu sei que não estou. Que estamos todos em uma correnteza só, sendo levados sempre pro mesmo caminho, mas agora uma onda me desviou um pouco de perto de vocês. Se esticassem o braço, me alcançariam, e poderiam puxar-me para junto outra vez. Até que a onda não se desfaça, vocês estarão pegados uns nos outros, como antes eu também estava, e eu estarei a um metro de vocês, por mais que eu tente ir contra isso. Não sei se essa metáfora foi realmente compreensível. Quero dizer que eu estou aqui agora, e vou estar depois, como estive antes. Só estou um pouco distante, por alguma onda que nem sei porque nasceu.
E é por isso que não fico triste. Fico triste por vocês pensarem que a onda me levou pra outro mar, o que pode parecer, se não olharem pro lado um pouco mais ao lado. E fico triste quando pensam isso porque isso os magoa, e tudo o que eu sempre quis por menos foi magoar a vocês, que já são tanto eu quanto os meus braços, pernas, nariz, boca, olhos, coração, ser.
Eu não estou indo embora. Acreditem, eu sou antiga. Eu fico sempre no mesmo galho da mesma árvore, que já secou e renasceu tantas vezes. E mesmo que algumas folhas ou ondas atrapalhem nossos olhares de se tocarem, eu quero que vocês sintam.
Quero que quando estiverem na água, e uma onda me levar por algum tempo para um metro mais ao lado, quero que ao invés de olhar, sintam meu calor ali, perto de vocês e acessível, sempre. Mesmo que um pouco mais distante.
Porque desde um certo dia ensolarado, vocês foram juntando todos os cacos que sempre insistiam em cair de mim, e foram colando tudo, com tanta boa vontade, com tanto amor, com tanta bondade, que eu me tornei um novo mosaico. E nesse mosaico estão vocês e um certo gatinho.
Mas esse gatinho precisa de um texto à mais, porque eu o deixei com frio, sem secar suas lágrimas noturnas.

de pelagem listrada

Estava tentando pôr em palavras a fragilidade de isso tudo.
Um dia, estávamos conversando, meio que por nada e meio que por tudo, assim, como sempre fizemos, e você me falou de um filme. Um filme que falava sobre um brilho, e poemas, e sentimento. Um filme que te fez chorar.
Lembro que você me falou de uma cena em que eles encostavam as cabeças nas paredes, um em cada quarto, com as mãos levemente apoiadas, sentindo a energia um do outro passar. Não parecia nada demais, mas você sentia a fragilidade daquele momento, onde qualquer estalo no chão poderia destruir tudo.
Bom, há quase dois anos atrás, eu ganhei um animalzinho. Um felino, que muda de acordo com o seu humor, podendo se tornar um gato do mato ou um leão. Como bom felino, ama ser o que é e tem o orgulho mais levantado que o seu queixo, escondendo algumas de suas inseguranças na ponta dos dedos.
Depois de um tempo de convivência, ele vivia dentro de mim. Achou uma concha que tinha acabado de se esvaziar, e deitou pra não sair mais. E ali, dentro do meu coração, ele tem uma forma só. A de um filhote de gatinho meio acinzentado com olhos verdes que brilham e bigodes prateados, brilhantes.
O jeito com que ele se acomoda ali dentro é o mesmo com que as mãos tocavam as paredes naquelas cenas. Em uma coisa tão frágil, que pode acabar por qualquer pequeno ruído, mas que se sente mais forte do que ferro. Um meio termo tão delicado, que qualquer movimento um pouco mais rápido provocariam uma espécie de choque ou quebra entre nós.
Hoje em dia, ele continua aqui. E às vezes, quando vou dormir, me sinto tão livre quando o meu animalzinho, e meus olhos brilham tão verdes quanto os dele.
Eu sei o que existe embaixo da juba do leão, conheço o que guardo aqui dentro tanto quanto não conheço, e eu sei, que mesmo atrapalhada, sem-graça e infantil que eu seja, ele precisa de mim, assim do meu jeito.
Eu sei, sei de tudo. E acredite, cada dia eu deixo esse gatinho comer um pedacinho do meu coração, só pra eu pagar por esse erro tão estúpido que eu estou cometendo com ele, mesmo sabendo que não vai ajudá-lo em nada. Ele não vai ficar mais forte com isso, nem vai se sentir mais aninhado ou confortável, é claro. E é um sofrimento inútil, mas que eu acho que se não sofresse, eu preferia era que meu coração fosse engolido de vez.
Eu sei o quanto eu sou idiota, eu sei o quanto eu estou errada, e o quanto eu não consigo explicar o porquê de precisar fazer isso agora. E eu sei que pode ser incompreensível pra você, porque na verdade também é pra mim.
Você pode sair, se quiser. Pode arranhar a concha toda, me deixar machucada e sozinha, sem seus bigodes prateados de gente sábia, que eu sei que eu não mereço. E eu sei que isso parece muito fácil de dizer, eu nunca vou conseguir me expressar por completo. Mas você, você sabe. Você sabe que isso já é tão meu que nada deixa ir embora.
Eu posso te assegurar de que eu sou constituida por castelos de areia, mas ali em um certo canto direito, perto do mar, eu estou terminando de construir umas casas enormes, de tijolos e cimento e tudo! E bonitas, dá pra ver o pôr do sol. Comprei vários livros, chocolates, CD's e bebidas, pra você, e todas as outras partes de nós e nós deles e tudo de todos, passarmos as nossas tardes.

P.S.: Eu sei que a concha anda um pouco desconfortável, mas não se preocupa não que eu to costurando uma colcha colorida, que nem aquelas meias suas.