terça-feira, 2 de novembro de 2010

de pelagem listrada

Estava tentando pôr em palavras a fragilidade de isso tudo.
Um dia, estávamos conversando, meio que por nada e meio que por tudo, assim, como sempre fizemos, e você me falou de um filme. Um filme que falava sobre um brilho, e poemas, e sentimento. Um filme que te fez chorar.
Lembro que você me falou de uma cena em que eles encostavam as cabeças nas paredes, um em cada quarto, com as mãos levemente apoiadas, sentindo a energia um do outro passar. Não parecia nada demais, mas você sentia a fragilidade daquele momento, onde qualquer estalo no chão poderia destruir tudo.
Bom, há quase dois anos atrás, eu ganhei um animalzinho. Um felino, que muda de acordo com o seu humor, podendo se tornar um gato do mato ou um leão. Como bom felino, ama ser o que é e tem o orgulho mais levantado que o seu queixo, escondendo algumas de suas inseguranças na ponta dos dedos.
Depois de um tempo de convivência, ele vivia dentro de mim. Achou uma concha que tinha acabado de se esvaziar, e deitou pra não sair mais. E ali, dentro do meu coração, ele tem uma forma só. A de um filhote de gatinho meio acinzentado com olhos verdes que brilham e bigodes prateados, brilhantes.
O jeito com que ele se acomoda ali dentro é o mesmo com que as mãos tocavam as paredes naquelas cenas. Em uma coisa tão frágil, que pode acabar por qualquer pequeno ruído, mas que se sente mais forte do que ferro. Um meio termo tão delicado, que qualquer movimento um pouco mais rápido provocariam uma espécie de choque ou quebra entre nós.
Hoje em dia, ele continua aqui. E às vezes, quando vou dormir, me sinto tão livre quando o meu animalzinho, e meus olhos brilham tão verdes quanto os dele.
Eu sei o que existe embaixo da juba do leão, conheço o que guardo aqui dentro tanto quanto não conheço, e eu sei, que mesmo atrapalhada, sem-graça e infantil que eu seja, ele precisa de mim, assim do meu jeito.
Eu sei, sei de tudo. E acredite, cada dia eu deixo esse gatinho comer um pedacinho do meu coração, só pra eu pagar por esse erro tão estúpido que eu estou cometendo com ele, mesmo sabendo que não vai ajudá-lo em nada. Ele não vai ficar mais forte com isso, nem vai se sentir mais aninhado ou confortável, é claro. E é um sofrimento inútil, mas que eu acho que se não sofresse, eu preferia era que meu coração fosse engolido de vez.
Eu sei o quanto eu sou idiota, eu sei o quanto eu estou errada, e o quanto eu não consigo explicar o porquê de precisar fazer isso agora. E eu sei que pode ser incompreensível pra você, porque na verdade também é pra mim.
Você pode sair, se quiser. Pode arranhar a concha toda, me deixar machucada e sozinha, sem seus bigodes prateados de gente sábia, que eu sei que eu não mereço. E eu sei que isso parece muito fácil de dizer, eu nunca vou conseguir me expressar por completo. Mas você, você sabe. Você sabe que isso já é tão meu que nada deixa ir embora.
Eu posso te assegurar de que eu sou constituida por castelos de areia, mas ali em um certo canto direito, perto do mar, eu estou terminando de construir umas casas enormes, de tijolos e cimento e tudo! E bonitas, dá pra ver o pôr do sol. Comprei vários livros, chocolates, CD's e bebidas, pra você, e todas as outras partes de nós e nós deles e tudo de todos, passarmos as nossas tardes.

P.S.: Eu sei que a concha anda um pouco desconfortável, mas não se preocupa não que eu to costurando uma colcha colorida, que nem aquelas meias suas.

Um comentário:

Camila disse...

Está escondido em você.