segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
semvirgula
Na solidão de uma tarde tediosa um fio de pensamento rasteja por minha cama quente até a minha orelha e atravessa o meu canal auditivo até chegar ao meu cérebro. Se conecta com o emaranhado e costura uma ideia bonita e falsa um pedaço de horizonte que só faria sentido se hoje não fosse hoje e os dias fossem escuros. O dia é de sol a tarde é só um arde com t e o t é o que me falta. Uma baforada curta do ventilador assossega minha euforia e tira meus cabelos suados da tesa. Eu não sei suar. Perdi essa habilidade os toques não me arrepiam os olhos não me enfeitiçam as palavras não soam melódicas. A companhia deixou de ser necessária mas em compensação o abraço é muito mais sincero. Saio pra noite e caço corações perdidos me desafio a conquistar e desbravar os muros que as pessoas constroem pra se proteger. Avanço nas táticas de segurança e me lambuzo com a coragem inocente de quem parece ter encontrado um pote de ouro. A manhã surge e esclarece os cheques que não depositei. Uma semana de férias.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Chegar em casa. Uma porta, dois cadeados, correntes. Abre as janelas, trancas diferentes. Chave em cima da mesa, compras vão pra cozinha. Guarda o que comprou na geladeira, lava os pratos. Uma varridinha rápida no chão, já que estamos aqui. No automático das obrigações diárias, rotina que desrespeita qualquer conceito de férias, uma memória engraçada me vem à cabeça. No automático das respostas à sinapses nervosas, solto um riso frouxo. O som da minha risada me surpreende com a percepção do que está acontecendo: estou só. Olho em volta e as paredes querem me engolir, estou só. As mãos estremecem, estou só. A vassoura perde o ponto de matéria sólida, só. Desço as escadas para o calabouço reformado, deito na cama e observo o teto baixo, branco, só. O silêncio é o som de estar só e a minha risada desnudou a falta de contato de mim comigo mesma. O automático me mantém estável, tornando tudo um mesmo borrão que não fica. Esqueço as conversas que tive ontem, as obrigações que tenho pra amanhã e o que tinha que dizer agora. Me mantenho nessa inércia sintomática, nesse viver pela metade, se é que existe metade de algo como a vida. O meu quarto, que nem bem é meu, nem bem me quer, presencia as faltas de conversas que tenho comigo mesma e as danças que eu danço sozinha, numa urgência de soltar os diabos que tenho no corpo. De nada me adianta a solidão se não a uso para estar comigo, esse é o lembrete vital que surge na minha cabeça e surte o efeito imediato: acendo um cigarro, ponho uma música e danço mais uma vez, mas dessa vez prestando atenção nos meus passos, nos meus braços, no meu laço e na minha voz. Sinto a urgência da juventude pulsando nos meus dedos, o correr do sangue batendo junto com o tambor, o cérebro se conectando diretamente com o ritmo e entregando o corpo ao seu compasso. Deito mais uma vez, olho pro teto. A apatia que sinto pelo mundo ainda há de se derrubar só pelo existir da música. A minha solidão, essa ilha em que eu moro e sou única habitante, há de se dissipar pra sempre um dia e não haverá mais espaço para a dor que me mastiga, porque ela é acalentada pelo "estar só" e os momentos de quietude. Chego a ter medo por não saber em que gaveta vou guardar as histórias que preciso contar pra mim mesma, histórias que só cabem na cabeça-só. Sigo buscando, sigo só. Vou encontrar ou vai vir ao meu encontro. Até lá, tenho que cuidar de mim. Até lá, eu sou a minha piveta.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Onde se esconde
O verdadeiro
Verdadeiríssimo
parecer das coisas?
Onde você guardou o seu?
PROCURA-SE
Prego cartazes nas ruas
nos olhares
no fundo
do mar
Por que há que se ter uma resposta?
Porque há que se ter uma resposta.
Vou atrás, e aí você acertou: vou só.
Me dispo (nho) de todas as roupas
e caminho pela areia
Um emaranhado de soluções possíveis
Se mescla de maneira confusa
E cria-se uma única-coisa-só
com sal e tensão superficial
por onde flutua meu barco
e mergulham meus pés
Pulo pra dentro
Os olhos fechados
A respiração faz falta
A angústia aperta
O pulmão grita
Os braços se movimentam e de repente
se está na superfície mais uma vez
No barco
Na tensão
Su per fi ci al
Os cabelos molhados, atrás
Os peitos rígidos, à frente
Os olhos molhados, aqui
A saudade
Porto dos lados
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Aqui, nessa casa, sobre este chão que eu fiz, sob esta cama que eu montei, sobre o meu suor e minhas lagrimas (as minhas duas formas de chorar), eu me encontro de cabeça pra baixo e canto uma música baixinho.
É uma despedida que sai de mim como se fosse um fio puxado de minhas entranhas, uma endoscopia reversa que quer mostrar o que tem fora a partir do que tem dentro.
Meus cabelos crescem, minhas raízes se fincam, meu coração se afasta.
Crescer, ser e parecer se emaranharam em um sorriso que eu não dou mais e a solidão me abraçou de maneira generosa, tentando me provar que é boa. Eu tento fingir que acredito, mas os cigarros são falsos amigos, o tempo é um parceiro dissimulado, o amor é uma mentira bonita e eu sou um resto de mim, que ficou no resto da casa do que restava de verdade em meu coração.
A minha infância se foi por medo de me fazer sofrer, os cigarros se vão por medo da extensão do tempo, o meu tempo se arrasta por medo de me fazer viver, os meus amores se foram por medo de serem reais.
E eu
canto a minha musica
((baixinho))
Por medo de você ouvir.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Por sobre o olhar absurdo de uma velha ideia, eu quero abraçar o mundo. Eu quero rasgar as cores, me lambuzar com o sangue púrpura. Por trás da minha lua, está o mundo inteiro e a possibilidade de estar em mil lugares. No fundo de todas as traições obscuras que eu vou descobrindo com as garras sujas e partidas, por trás das mentiras que me contaram, por trás das lágrimas que vêm por trás da raiva e da desilusão de estar infinitamente só em mim, estou. Estou aqui, eu. Estique o seu braço comprido e você vai poder me sentir com as extremidades dos seus dedos. Venha, mas venha com cuidado. Tateie as paredes, teste os sentidos, procure o caminho, respire fundo e lentamente, porque eu vou me esquivar. Em momentos vou grunhir, em momentos lhe abrirei o peito como quem nunca tropeçou: faz parte de estar aqui. Não existe um sofá, não fiz desse um lugar confortável. Fiz desse um lugar meu. Não sei compartilhar quem sou, mas juntei um monte de coisas durante a vida que sei que podem te fazer sorrir e as ponho na mesa pra que você as conheça e incorpore. Enquanto estiver procurando o caminho, enquanto estiver entrando, veja que eu lhe permito. Suba o olhar e verá um sorriso que antecede um beijo, mas não se distraia muito: aqui embaixo tudo continua vibrando e desmoronando constantemente. Eu não vou mentir, estou rota, estou quebrada em mim, estou desacreditada. Mas algo nas suas palavras me faz querer te ver agora e amanhã, algo no seu ritmo faz com que meus pés se mexam, algo no seu sorriso faz cócegas no meu coração. Eu quero você aqui. Eu lhe entrego tudo o que posso lhe entregar em troca de uma resposta: você fica?
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Tenho que encontrar um novo nome preferido pra meus contos, porque era o seu. E não tinha nada a ver com você, era só um personagem que sempre existiu e eu o imaginava seguindo por vielas escuras e pensando um milhão de coisas que eu, sozinha, não poderia pensar. Tenho que ir pra um novo ambiente onde você não esteja, algum canto da minha memória escondida, porque ultimamente é o que se repete em um disco arranhado irritante dentro de mim, e eu já ouvi esse disco até o final: o final é péssimo. Tenho que me preocupar menos com o que acontece, esperar menos uma resposta, estar mais aqui do que lá. A minha vida bate de encontro com o que sinto e a máscara de ser alguém suportável se faz perceptível. Tenho que ser menos louca, mas isso significa estar fora de mim e fazer parte do que não se faz. Tenho tanto, sinto tanto, e é uma pena. Comecei uma história, e demorei meia hora pra conseguir escrever o nome do personagem, porque só vinham na minha mente nomes de antigos amores, romances, paqueras, distrações. Pensei na praia:
Jorge segurava a respiração. Dentro de um armário fechado e escuro, ele mantinha os olhos firmes na pequena brecha de luz que se apresentava por entre as portas. Lá fora, a música tocava com um grave absurdo e os seus ouvidos se esforçavam pra ouvir o que Pablo dizia.
- A gente tem que ficar aqui por quanto tempo?
A resposta não vinha, e não era surpresa. Acho que nenhum dos dois esperava por ela, só apertavam forte os nós dos dedos suados e frios, que tremiam levemente. Era importante seguir olhando pra frente, fingir que a situação não se sobrepunha à eles de maneira densa e física. As pernas encostadas esquentavam em progressão geométrica, e isso era o suficiente pra que todas as palavras estivessem ali com eles, vomitadas no chão e nas paredes, amassando seus rostos e seus cérebros, despindo-os e enrubescendo-os, circulando o sangue e tornando-os rígidos. Pouco a pouco, as mãos se afrouxam.
- Eu não queria estar aqui.
E é aí que eu queria chegar, no ápice do querer, na vontade que se sobrepõe à ideia, na loucura que se sobrepõe à personalidade. Estou acima de minha loucura, estou em cima de mim, sentada em cima da minha barriga e empurrando meu corpo para baixo, prendendo os meus braços e gritando: fique. Fique. Fique. Contendo o bicho furacão que finge ser a minha essência, tentando encontrar a verdadeira linha tênue, brilhante e lúcida que aparece quando me ponho no lugar do outro ou quando leio textos na internet.
O problema é essa relação da minha loucura com tudo o que me incomoda, com a minha burrice e a minha desatenção, o meu tempo ocioso, o meu desperdício de mim. Em um instante, tudo isso se junta e eu me deparo com uma porta dura e estúpida, que acredito ser eu. A porta do maldito armário, escuro, inquerido mas insuportavelmente desejado. Preciso que não seja eu, preciso que seja Jorge. Preciso que seja praia, preciso que eu não goste da música, que eu não esteja dentro do armário nem fora. Preciso que seja lírico, preciso que seja um poema.
Lhe apresento a falta do novo, a morte do que não nasce
Lhe apresento a tentativa frustrada de se fazer algo
E de ser mais
Do que eu nem sei que sou
Lhe apresento um projeto mal trabalhado,
Um abraço desapertado,
Uma presença pela metade
E uma angústia incessante
Um trabalho árduo e contínuo
Que nunca termina de se concluir
Um jogo milimetricamente pensado
Que não diverte ninguém
E que não tem um vencedor
Mas em que alguém sempre perde
O meu projeto de mim, mal feito
Sujo, inacabado e ainda assim roto
Que por algum motivo
Me parece se relacionar com todas as desgraças que acontecem no mundo
Lhe apresento um poema que não rima
Não faz sentido
E não tem métrica
Que, em verdade, de poema só tem prosa
Coisa que eu sempre achei covarde
Mas só pra que de alguma forma isso faça sentido pra mim
Lhe apresento o projeto que eu mais detesto no mundo
Que vivo rompendo com raiva e frustração
E ainda assim, é de valor inestimável pra minha sanidade
Feito por e dedicado à:
Minha loucura.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
aninha
O peito aperta quando a cabeça viaja e traz imagens de você, da maneira como eu te conheci, os momentos e risos que vieram com os encontros, quase sempre inesperados.
Um mero sticker do Facebook, de repente se torna uma dor aguda. Uma mesa do Rio Vermelho se torna sombria, a gíria que eu mais gosto se torna mórbida. A noite, que me fazia fugir do casulo e procurar algum ambiente barulhento, parece agora gritar o seu nome e procurar o seu copo de cerveja; o que antes era só prazer, muda e ganha um novo significado depois de saber que você não está mais em um plano palpável, sólido, físico. Um plano onde os abraços se fazem possíveis antes que necessários. Um plano em que reina a dor de não usar das possibilidades no momento devido, que não abarca a necessidade de quem finge viver para sempre.
A mim me restam os risos - o lindo da tua essência - e os segredos, que sempre me surpreendiam quando compartilhados comigo. Ficam também o ardor e a coceira provocados por essa percepção da fragilidade da vida. Queima o medo da saudade, faz tremer a urgência de se perceber mortal.
Quando tudo estava escuro e minha cabeça não se permitia entender, abri o navegador e pesquisei sobre a juventude, sobre a morte prematura e as diferentes formas de vida. Encontrei diversas respostas que nadam no aquário inconstante que é a minha cabeça, mas uma surge diversas vezes e me acalma: dizem que os espíritos sabem quando se vão.
Se sabem, tu sabia que ficava por pouco tempo. Se sabia, faz sentido a especialidade do seu sorriso, o prazer da tua companhia e a beleza do seu olhar. Se sabia, teu olho realmente sorria quando brilhava e a tua dança realmente era mágica. E sabia, porque o seu deleite com a vida não era mero acaso, e a forma que se tornava fácil desfrutá-la ao estar contigo era de verdade um sinal de consciência do pleno, do plano, do aqui e do agora.
E o que me resta aqui e agora é carregar o que tu sempre acalentou com carinho nos braços: a vida. Há muito para se viver, e a única forma de aceitar isso é aceitando a sua partida. A maneira que encontrei de me manter sã é idealizando a tua imagem em uma estação de trem, dançando, sorrindo, plena, me olhando de canto de olho, sugerindo que eu aguarde. Se fosse por consolo, você diria que está ótima, que o tempo é astuto e há de sanar mais essa ferida. Diria que negar tua morte é negar tua vida, e que isso seria o maior dos pecados.
Com muito cuidado, guardo essa imagem naquela parte de mim que abriga minhas saudades crônicas e tento dançar também. O ritmo da música é a dúvida, o desejo do reencontro, a crença ferrenha na tal estação, a vontade de saber quais trens passam e pra onde vão.
A necessidade de pegar o mesmo trem que o teu bate forte, grave, constante. Mas deixo que bata lenta, pra que a dança possa durar mais.
Algum dia espero ter mais respostas, enquanto sei que teu riso continua me acompanhando. Espero que a tranquilidade, que sempre foi sua irmã, tenha te abraçado também nos últimos momentos e que me abrace em algum.
O mundo existe pra que você dance, Aninha. Espero que isso seja verdade, também.
Um mero sticker do Facebook, de repente se torna uma dor aguda. Uma mesa do Rio Vermelho se torna sombria, a gíria que eu mais gosto se torna mórbida. A noite, que me fazia fugir do casulo e procurar algum ambiente barulhento, parece agora gritar o seu nome e procurar o seu copo de cerveja; o que antes era só prazer, muda e ganha um novo significado depois de saber que você não está mais em um plano palpável, sólido, físico. Um plano onde os abraços se fazem possíveis antes que necessários. Um plano em que reina a dor de não usar das possibilidades no momento devido, que não abarca a necessidade de quem finge viver para sempre.
A mim me restam os risos - o lindo da tua essência - e os segredos, que sempre me surpreendiam quando compartilhados comigo. Ficam também o ardor e a coceira provocados por essa percepção da fragilidade da vida. Queima o medo da saudade, faz tremer a urgência de se perceber mortal.
Quando tudo estava escuro e minha cabeça não se permitia entender, abri o navegador e pesquisei sobre a juventude, sobre a morte prematura e as diferentes formas de vida. Encontrei diversas respostas que nadam no aquário inconstante que é a minha cabeça, mas uma surge diversas vezes e me acalma: dizem que os espíritos sabem quando se vão.
Se sabem, tu sabia que ficava por pouco tempo. Se sabia, faz sentido a especialidade do seu sorriso, o prazer da tua companhia e a beleza do seu olhar. Se sabia, teu olho realmente sorria quando brilhava e a tua dança realmente era mágica. E sabia, porque o seu deleite com a vida não era mero acaso, e a forma que se tornava fácil desfrutá-la ao estar contigo era de verdade um sinal de consciência do pleno, do plano, do aqui e do agora.
E o que me resta aqui e agora é carregar o que tu sempre acalentou com carinho nos braços: a vida. Há muito para se viver, e a única forma de aceitar isso é aceitando a sua partida. A maneira que encontrei de me manter sã é idealizando a tua imagem em uma estação de trem, dançando, sorrindo, plena, me olhando de canto de olho, sugerindo que eu aguarde. Se fosse por consolo, você diria que está ótima, que o tempo é astuto e há de sanar mais essa ferida. Diria que negar tua morte é negar tua vida, e que isso seria o maior dos pecados.
Com muito cuidado, guardo essa imagem naquela parte de mim que abriga minhas saudades crônicas e tento dançar também. O ritmo da música é a dúvida, o desejo do reencontro, a crença ferrenha na tal estação, a vontade de saber quais trens passam e pra onde vão.
A necessidade de pegar o mesmo trem que o teu bate forte, grave, constante. Mas deixo que bata lenta, pra que a dança possa durar mais.
Algum dia espero ter mais respostas, enquanto sei que teu riso continua me acompanhando. Espero que a tranquilidade, que sempre foi sua irmã, tenha te abraçado também nos últimos momentos e que me abrace em algum.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Alguem, por favor, abra os meus olhos. Depois de mante-los esbugalhados até lacrimejarem, depois de me forçar a ver, e ver, e enxergar, e expô-los à luz imbecil da vontade, eles se fecharam. Depois de deixar a poeira infiltrar, e secar as lágrimas e irritá-los e me deparar com o que eu não posso mais ver, eles se cansaram de me obedecer e abraçaram o negro. Logo eu...
Quantos livros eu preciso ler pra encontrar a paz que eu tanto procuro? Meus olhos já olharam para todos os lados: não está aqui. Não está dentro, não está fora. E agora estão fechados. Depois de mergulhar no poço negro e morrer lá embaixo tantas vezes, onde eu vou encontrar o que me faz falta e me relaxa o peito? Há tanto tempo eu venho me convencendo de que preciso de pouco pra estar plena, mas quantas músicas eu preciso ouvir pra chorar todo o choro que há em mim? Será que um dia esse choro, esse coro, esse corro, será que acaba? Quanto esgotamento eu preciso sentir pra que o descanso venha? Já me perdi na minha busca incessante, no meu esforço pra estar bem, nessa paixão desiludida que eu sinto pela sorte... Quantas vezes eu tenho que me deparar comigo pra começar a gostar de mim? Quantas partes de mim eu tenho que matar pra fazer com que viver se torne possível? Deus sabe o quanto eu tento fazer com que os dias não sejam os mesmos, não sejam piores. Quanto tempo eu tenho que gastar em mim? Sou insanamente incapaz.
Talvez, se eu tivesse o ócio pra me fazer infeliz, se eu tivesse o conforto pra me trazer solidão, se eu tivesse tudo pra sentir falta de nada, talvez essa tristeza fosse mais sincera do que esse desgaste imbecil da busca por paz. Eu estava sentada num banco e vi meus sonhos se tornarem selvagens, assisti a minha idealização de mim crescer em meio ao nada, me agarrei na minha fé e aprendi a me esvaziar depois de tudo o que tinha me ser arrancado. E ainda assim, sinto uma pena estúpida de mim. Antes de dormir acaricio meus pés um no outro e me consolo com meu próprio cafuné. Canto a minha cantiga coitada de ninar e me prometo que o amanhã existe e, por isso, tudo é possível. Me cubro e me reviro, acalmando a mim mesma e tentando fazer a única coisa que me ensinei a fazer pra ficar melhor: ser minha própria companhia. Deito na cama e escrevo um texto pra derramar o que os cigarros não conseguem terminar de extinguir e, chegando perto do fim, sempre acabo no que foi desde o início e será depois: quantos textos eu preciso escrever pra vomitar minha ânsia?
Lá se foi mais um. Lá se vem mais uma.
Quantos livros eu preciso ler pra encontrar a paz que eu tanto procuro? Meus olhos já olharam para todos os lados: não está aqui. Não está dentro, não está fora. E agora estão fechados. Depois de mergulhar no poço negro e morrer lá embaixo tantas vezes, onde eu vou encontrar o que me faz falta e me relaxa o peito? Há tanto tempo eu venho me convencendo de que preciso de pouco pra estar plena, mas quantas músicas eu preciso ouvir pra chorar todo o choro que há em mim? Será que um dia esse choro, esse coro, esse corro, será que acaba? Quanto esgotamento eu preciso sentir pra que o descanso venha? Já me perdi na minha busca incessante, no meu esforço pra estar bem, nessa paixão desiludida que eu sinto pela sorte... Quantas vezes eu tenho que me deparar comigo pra começar a gostar de mim? Quantas partes de mim eu tenho que matar pra fazer com que viver se torne possível? Deus sabe o quanto eu tento fazer com que os dias não sejam os mesmos, não sejam piores. Quanto tempo eu tenho que gastar em mim? Sou insanamente incapaz.
Talvez, se eu tivesse o ócio pra me fazer infeliz, se eu tivesse o conforto pra me trazer solidão, se eu tivesse tudo pra sentir falta de nada, talvez essa tristeza fosse mais sincera do que esse desgaste imbecil da busca por paz. Eu estava sentada num banco e vi meus sonhos se tornarem selvagens, assisti a minha idealização de mim crescer em meio ao nada, me agarrei na minha fé e aprendi a me esvaziar depois de tudo o que tinha me ser arrancado. E ainda assim, sinto uma pena estúpida de mim. Antes de dormir acaricio meus pés um no outro e me consolo com meu próprio cafuné. Canto a minha cantiga coitada de ninar e me prometo que o amanhã existe e, por isso, tudo é possível. Me cubro e me reviro, acalmando a mim mesma e tentando fazer a única coisa que me ensinei a fazer pra ficar melhor: ser minha própria companhia. Deito na cama e escrevo um texto pra derramar o que os cigarros não conseguem terminar de extinguir e, chegando perto do fim, sempre acabo no que foi desde o início e será depois: quantos textos eu preciso escrever pra vomitar minha ânsia?
Lá se foi mais um. Lá se vem mais uma.
sábado, 3 de outubro de 2015
Sobre utero, luz e sangue
Incho, me contorço e expulso. Meu ritual mensal é enraizado em mim e me conecta com partes do meu ser que desconheço. É a epoca de mergulhar na dor e expulsa-la, esquentar o corpo e nutrir-se de um novo ciclo. Um novo ciclo se apresenta, guiado pela lua sangrenta que mexe diretamente comigo. Uivo pra ela, quase como numa gratidao por sua existencia e por nossa conexão, que é real, tangível e de uma força inexplicável - conversa que por ser intraduzivel, diz tudo o que se precisa entender.
Olho pra ela e sinto as outras, as que tambem a conheceram e lhe uivaram, as que ouviram seu conselho de ser mulher porta a fora e natureza a dentro, e por isso queimaram e afundaram diante de sua luz... Lua, essa testemunha da sangrenta morte e da sangrenta vida feminina, que nos estende os braços como feixes de luz e numa mágica realidade se relaciona com nossos líquidos, nossos corpos, nossas almas. Que nos faz semelhantes pelas diferentes influencias que sofremos dela, que nos faz irmãs por sermos todas suas filhas. Lua sangrenta, que fecha o inacabado e conduz para a redençao, que toma o meu corpo e pede pra que aguarde, recomeçando o meu ciclo no terceiro dia do mês dez. O três, número do sagrado feminino. Três pontas tem o Triskle, três formas tem a Deusa e três fases tem a lua. Por estas três tambem se relaciona a vida: Corpo Mente e Alma, Céu Terra e Mar, Nascimento Desenvolvimento e Morte. A lua sangrenta impera e me impõe o três, número sagrado pro bicho fêmea, número da Deusa que nos abre os olhos e portas, que nos entrega a maçã do Éden - vermelha como o sangue - e nos conduz à autonomia mental e corporal.
A lua se faz influente para todas nós, e nos toca, e continua nos tocando, abrindo nossos sentidos e deformando as carnes que tentam ofuscar nosso brilho essencial. É necessário ouvi-la, é necessário uivar, é necessário entender essa relação de tamanha força e rosnar, clamar o que é nosso por direito, fincar os pés nessa Terra de que somos feitas e fazer tremer as estruturas que nos temem e - por temor - nos acorrentam. Os nossos passos não andam mais pra trás, não enquanto pudermos ouvir a lua e o sangue, não enquanto sangrarmos nossos ciclos de conexão com a vida, não enquanto somos criadoras dessa vida - e das vidas que depois tentam controlar as nossas -, não enquanto mantemos o chão firme e as águas calmas. Nossa ira é avassaladora e nossos braços carregam o mundo: nós reproduzimos, produzimos e fazemos com que produzam.
A lua sangrenta é testemunha da caça à nossa liberdade e surge há cada trinta anos pra fechar os capítulos que não se deixam terminar, mas tambem pra acordar a força do bicho fêmea, pois funciona como nosso receptáculo com a Deusa mulher, aquela que nos diz que, como suas representantes, tudo podemos e a tudo temos direito.
Se a realidade é mágica, é porque existe a mulher. Somos lobas, discipulas da lua e filhas da natureza. Quando olhar pro céu e ver uma enorme bola de luz vibrando e banhando a noite, lembra da intensidade da nossa força e sinta com certeza: daremos cada vez menos passos atrás.
Incho, me contorço e expulso. Meu ritual mensal é enraizado em mim e me conecta com partes do meu ser que desconheço. É a epoca de mergulhar na dor e expulsa-la, esquentar o corpo e nutrir-se de um novo ciclo. Um novo ciclo se apresenta, guiado pela lua sangrenta que mexe diretamente comigo. Uivo pra ela, quase como numa gratidao por sua existencia e por nossa conexão, que é real, tangível e de uma força inexplicável - conversa que por ser intraduzivel, diz tudo o que se precisa entender.
Olho pra ela e sinto as outras, as que tambem a conheceram e lhe uivaram, as que ouviram seu conselho de ser mulher porta a fora e natureza a dentro, e por isso queimaram e afundaram diante de sua luz... Lua, essa testemunha da sangrenta morte e da sangrenta vida feminina, que nos estende os braços como feixes de luz e numa mágica realidade se relaciona com nossos líquidos, nossos corpos, nossas almas. Que nos faz semelhantes pelas diferentes influencias que sofremos dela, que nos faz irmãs por sermos todas suas filhas. Lua sangrenta, que fecha o inacabado e conduz para a redençao, que toma o meu corpo e pede pra que aguarde, recomeçando o meu ciclo no terceiro dia do mês dez. O três, número do sagrado feminino. Três pontas tem o Triskle, três formas tem a Deusa e três fases tem a lua. Por estas três tambem se relaciona a vida: Corpo Mente e Alma, Céu Terra e Mar, Nascimento Desenvolvimento e Morte. A lua sangrenta impera e me impõe o três, número sagrado pro bicho fêmea, número da Deusa que nos abre os olhos e portas, que nos entrega a maçã do Éden - vermelha como o sangue - e nos conduz à autonomia mental e corporal.
A lua se faz influente para todas nós, e nos toca, e continua nos tocando, abrindo nossos sentidos e deformando as carnes que tentam ofuscar nosso brilho essencial. É necessário ouvi-la, é necessário uivar, é necessário entender essa relação de tamanha força e rosnar, clamar o que é nosso por direito, fincar os pés nessa Terra de que somos feitas e fazer tremer as estruturas que nos temem e - por temor - nos acorrentam. Os nossos passos não andam mais pra trás, não enquanto pudermos ouvir a lua e o sangue, não enquanto sangrarmos nossos ciclos de conexão com a vida, não enquanto somos criadoras dessa vida - e das vidas que depois tentam controlar as nossas -, não enquanto mantemos o chão firme e as águas calmas. Nossa ira é avassaladora e nossos braços carregam o mundo: nós reproduzimos, produzimos e fazemos com que produzam.
A lua sangrenta é testemunha da caça à nossa liberdade e surge há cada trinta anos pra fechar os capítulos que não se deixam terminar, mas tambem pra acordar a força do bicho fêmea, pois funciona como nosso receptáculo com a Deusa mulher, aquela que nos diz que, como suas representantes, tudo podemos e a tudo temos direito.
Se a realidade é mágica, é porque existe a mulher. Somos lobas, discipulas da lua e filhas da natureza. Quando olhar pro céu e ver uma enorme bola de luz vibrando e banhando a noite, lembra da intensidade da nossa força e sinta com certeza: daremos cada vez menos passos atrás.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
mandacaru
Ói, repara bem: sente o cheiro que surge, vagaroso,
tomando conta dos sentidos e da cabeça.
Aperta os ouvidos e ouve a música que retumba distante,
harmonizando com carinho com esse tambor constante.
Vê, olha o chão com vontade,
percebe como treme e se alegra,
véspera de um broto, vêsperando os bichos,
as cores
e vespas
que costumam permear o resplandescer da frô.
Atenta bem aos sinais,
atenta bem a essa brisa que vem de fininho e se agranda cada vez mais,
repara na urgência quieta desse momento e segura forte no chão: évem chuva.
Évem a calmaria que antecede e póspõe a tempestade.
Tu que és novo aqui, semente desse futuro, atenta bem: tu vai crescer que só vendo, dentro desse coração árido.
tomando conta dos sentidos e da cabeça.
Aperta os ouvidos e ouve a música que retumba distante,
harmonizando com carinho com esse tambor constante.
Vê, olha o chão com vontade,
percebe como treme e se alegra,
véspera de um broto, vêsperando os bichos,
as cores
e vespas
que costumam permear o resplandescer da frô.
Atenta bem aos sinais,
atenta bem a essa brisa que vem de fininho e se agranda cada vez mais,
repara na urgência quieta desse momento e segura forte no chão: évem chuva.
Évem a calmaria que antecede e póspõe a tempestade.
Tu que és novo aqui, semente desse futuro, atenta bem: tu vai crescer que só vendo, dentro desse coração árido.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
súplica
Caro Tempo,
vem e me arranca esse encosto do coração. Morde a minha carne e gasta os meus sentidos, mas tira de mim esse peso que está sempre aqui. Alivia estas minhas costas das saudades que carrego, limpa os meus olhos das lágrimas que não tenho forças pra chorar. Faz-me menos dramática, faz com que esse clamor torne-se ridículo, e se for necessário, transforma em murcho o meu coração para que seja meu.
Quem lhe escreve é uma súdita fiel, que têm em si nada mais do que a crença em ti. Ponho-lhe todas as minhas esperanças porque o tenho como único remédio, única salvação para o amor que insiste em prender-se nos vãos escuros da alma. Me leva com você pra onde for, mas me ajuda a transformar isso que tenho aqui dentro em algo melhor. Não posso ver-te arrastar-se enquanto estou inerte, tampouco posso ir correndo atrás de ti. Sei viver com quase toda dor, mas não posso aguentar o desespero e o aperto de um amor gasto agarrado no peito. Tira essas olheiras do meu sono, mata a mentira no fundo do sorriso, afugenta o medo que vive por trás das piadas que conto. Há tempos que estou tentando equilibrar-me nessa corda bamba insegura e te imploro: transforma-a em um chão sólido e espaçoso para que meus pés possam pisar confiantes. Faz-me de novo plena em mim, Sophia, sem que seja necessário tapar esse buraco com outro preenchimento. Não deixe que esmaeça a fé que tenho em ti, depois de tantas outras que tinha e que definharam perante à sua força. Vem e me abraça com vontade. Vem e corre com coragem. Vem e muda tudo o que há em mim. Vem.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
samba, sambei
Sensibilidade toca no peito, samba toca no pé. Mas quando a rima desenrola no ouvido, o samba pega a sensibilidade e leva pra dançar.
As vezes não, as vezes carrega ela no colo e vai ninando, como sussurrando pra que durma. As vezes surra-lhe as costas, e o ímpeto bêbado surge correndo, fazendo a vida ser um pouco mais d(c)olorida.
O samba tem vários modos de tocar na gente. A mim me tem como discípula: o que quer eu faço. As vezes choro baixinho, as vezes caio no abraço.
Rimo quando posso e danço quando sei, nem que seja uma batidinha de mão errando uma percussão invisível - precisa existir. Precisa. O samba se faz necessário. Enfeitiça e encanta a um ponto em que nenhum Domingo na Bahia possa passar sem que se toque.
O samba me criou, baiana, parceiro do meu santo. E lhe rezo, lhe obedeço e lhe venero no dia sagrado, porque não há descanso sem esse pedaço de mim.
"O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor
O grande poder transformador"
As vezes não, as vezes carrega ela no colo e vai ninando, como sussurrando pra que durma. As vezes surra-lhe as costas, e o ímpeto bêbado surge correndo, fazendo a vida ser um pouco mais d(c)olorida.
O samba tem vários modos de tocar na gente. A mim me tem como discípula: o que quer eu faço. As vezes choro baixinho, as vezes caio no abraço.
Rimo quando posso e danço quando sei, nem que seja uma batidinha de mão errando uma percussão invisível - precisa existir. Precisa. O samba se faz necessário. Enfeitiça e encanta a um ponto em que nenhum Domingo na Bahia possa passar sem que se toque.
O samba me criou, baiana, parceiro do meu santo. E lhe rezo, lhe obedeço e lhe venero no dia sagrado, porque não há descanso sem esse pedaço de mim.
"O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor
O grande poder transformador"
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Sim, sim, há que existir um motivo. Um algo mais, um pedaço de certeza e de validez, um caminho ou uma resposta. Há que levantar-se da cama e dobrar os lençóis, lutar contra a incerteza e seguir empurrando o que quer que seja. Há que se usar toda a energia, gastar todos os músculos, arrastar bem os pés. Mais além, há que existir alguma razão para todos os cortes na pele, para os grunhidos e os dentes gastados, para o ir e porvir - há que existir um caminho. Ainda que corte o mato com o facão, gastando os braços e machucando o rosto com os ramos, há que existir um caminho. Ainda que seja de pedra e fure os pés e tope os dedões, há de ser um caminho. Ainda que mudo, surdo e vazio, há de ser um caminho. Repito isso como um mantra. Bato na minha cabeça até que entre, martelando um pouco de coragem e gana antes de provar o café. Até que finalmente me convenço. E tomo. Tomo na cara.
domingo, 6 de setembro de 2015
me salte
sobre o esforço vão pra se fazer entender
e a exaustão ao se compreender incógnita,
eu só sou.
sobre o medo dilacerado de um beijo distante
e a coragem burra de se dizer o que sente,
eu falo.
sobre o pouco que te dei que foi demais
e a imensidão profunda em que se molham os pés,
eu mergulho.
sobre o sal e a areia e o medo de amar
(que é meu, não é seu nem você)
e a quantidade de coisas que ficam por dizer,
eu me calo.
sobre o balanço estupido e o erro que parece cego
mas que vê, e vê muito bem,
eu me vejo.
sobre o inicio de algo que podia ser nada
e se torna o fim do que podia ser tudo,
eu me saio.
fim.
e a exaustão ao se compreender incógnita,
eu só sou.
sobre o medo dilacerado de um beijo distante
e a coragem burra de se dizer o que sente,
eu falo.
sobre o pouco que te dei que foi demais
e a imensidão profunda em que se molham os pés,
eu mergulho.
sobre o sal e a areia e o medo de amar
(que é meu, não é seu nem você)
e a quantidade de coisas que ficam por dizer,
eu me calo.
sobre o balanço estupido e o erro que parece cego
mas que vê, e vê muito bem,
eu me vejo.
sobre o inicio de algo que podia ser nada
e se torna o fim do que podia ser tudo,
eu me saio.
fim.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Wish you were beer
A festa acabou, o dia insistiu em amanhecer em um borrão claro e insolente, a praia brilha e o mar respira tranquilo. A paisagem é tão linda que parece proposital. Parece zombar de mim, bêbada e torpe, lutando com os meus dedos que tentam construir um último suspiro de loucura: apertar um beck fica muito mais difícil quando a cerveja fermenta e borbulha dentro de você. O vento está contra mim, feliz e forte, saudando a sobriedade de quem acorda cedo pra correr na orla e tomar água de côco. Eu tomaria uma cerveja, só pra fazer as pazes com a minha decisão ébria.
Meu único companheiro é um perdido, que balbucia algo enquanto me observa lutar com a seda Pure Hemp... OCB é muito melhor. Escuto enquanto ele fica repetindo alguma frase, sua voz é irritante e sua existência me deprime um pouco. Não é a primeira vez que eu desejo uma noite um pouco mais longa e me frustro com o sol e a maresia da cidade velha, mas é muito pior quando um perdido te acompanha. Um individuo velho, sujo e oportunista, um papo brocha, um cigarro rasgado. Eu não penso que sou mais do que isso, só acho tudo um saco e não quero dividir meu beck. Ele continua falando "Você é tão linda... A gente tem uma conexão, cê sentiu também?" Ele chega perto. Cheiro ruim, boca mole, aproximação rude e trôpega: um inquilino do Irish Pub, um resto do Rio Vermelho. Roupa preta, suor e maresia. Me afasto tropeçando, tento empurrar ele de leve com a mão. Ele me questiona e arrota. Que saco. Acendo o beck e minha boca seca ainda mais. Gosto azedo de ressaca sem dormir misturada com o sal e a areia de uma quadra abandonada. Sinto sede e vontade de continuar. Imagino o líquido gelado descendo pela minha garganta e quase chego a sentir alívio. Volto pra realidade e ele ainda tá lá, chegando perto mais uma vez. Suspiro: "porra, como eu queria que você fosse uma cerveja!" E eis que nesse momento louco, não sei se de bêbada, se de chapada ou do quartinho que eu engoli mais cedo, acontece o sonho de qualquer mulher: o bêbado abusivo, torpe e imbecil some em uma explosão de fumaça e ressurge na forma de uma long neck suada. Ri um pouco sozinha, olhei pros lados: não tinha ninguém. Ninguém testemunhou o meu milagre. Eu nem precisei pensar muito pra aceitar. Vai ver Deus começou a sorrir pra mim. Vai ver o Diabo quis tirar uma com a minha cara. Vai ver essa cerveja é boa mesmo. Abro a garrafa com o dente e provo: maravilhosa. Gargalho sozinha na praia e vou tropeçando pra casa com a melhor cerveja que já bebi na vida.
Ideia de Léo.
Meu único companheiro é um perdido, que balbucia algo enquanto me observa lutar com a seda Pure Hemp... OCB é muito melhor. Escuto enquanto ele fica repetindo alguma frase, sua voz é irritante e sua existência me deprime um pouco. Não é a primeira vez que eu desejo uma noite um pouco mais longa e me frustro com o sol e a maresia da cidade velha, mas é muito pior quando um perdido te acompanha. Um individuo velho, sujo e oportunista, um papo brocha, um cigarro rasgado. Eu não penso que sou mais do que isso, só acho tudo um saco e não quero dividir meu beck. Ele continua falando "Você é tão linda... A gente tem uma conexão, cê sentiu também?" Ele chega perto. Cheiro ruim, boca mole, aproximação rude e trôpega: um inquilino do Irish Pub, um resto do Rio Vermelho. Roupa preta, suor e maresia. Me afasto tropeçando, tento empurrar ele de leve com a mão. Ele me questiona e arrota. Que saco. Acendo o beck e minha boca seca ainda mais. Gosto azedo de ressaca sem dormir misturada com o sal e a areia de uma quadra abandonada. Sinto sede e vontade de continuar. Imagino o líquido gelado descendo pela minha garganta e quase chego a sentir alívio. Volto pra realidade e ele ainda tá lá, chegando perto mais uma vez. Suspiro: "porra, como eu queria que você fosse uma cerveja!" E eis que nesse momento louco, não sei se de bêbada, se de chapada ou do quartinho que eu engoli mais cedo, acontece o sonho de qualquer mulher: o bêbado abusivo, torpe e imbecil some em uma explosão de fumaça e ressurge na forma de uma long neck suada. Ri um pouco sozinha, olhei pros lados: não tinha ninguém. Ninguém testemunhou o meu milagre. Eu nem precisei pensar muito pra aceitar. Vai ver Deus começou a sorrir pra mim. Vai ver o Diabo quis tirar uma com a minha cara. Vai ver essa cerveja é boa mesmo. Abro a garrafa com o dente e provo: maravilhosa. Gargalho sozinha na praia e vou tropeçando pra casa com a melhor cerveja que já bebi na vida.
Ideia de Léo.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
sempre correndo.
sempre presa por ninguém, e então livre por mim.
destrancando uma, duas, três portas geladas pra poder sair pra selva quente.
fugindo rápido de nada, olhando pra trás com medo de que nada esteja muito perto.
despindo e cobrindo com as mesmas roupas.
sempre.
buscando e necessitando nada.
e encontrando nada.
e abraçando o nada, e afogando-se no nada.
uma, duas, três profundidades de nada.
até que chego em mim, esbaforida, e a força pra não chorar é brutal.
queria que não tivesse nada.
queria que não fosse nada.
mas é.
sempre presa por ninguém, e então livre por mim.
destrancando uma, duas, três portas geladas pra poder sair pra selva quente.
fugindo rápido de nada, olhando pra trás com medo de que nada esteja muito perto.
despindo e cobrindo com as mesmas roupas.
sempre.
buscando e necessitando nada.
e encontrando nada.
e abraçando o nada, e afogando-se no nada.
uma, duas, três profundidades de nada.
até que chego em mim, esbaforida, e a força pra não chorar é brutal.
queria que não tivesse nada.
queria que não fosse nada.
mas é.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Hoje me contaram que existem pessoas que trabalham em plataformas no meio do oceano concertando o que quer que esteja lá embaixo. Elas descem no fundo profundo do mar escuro com uma lanterna e um tubo de oxigênio e ajustam as coisas... Como um encanador, mas sobre uma pressão absurda e com um campo de visão mínimo. Essa é a segunda profissão mais perigosa do mundo - a primeira é astronauta. Existe uma grande probabilidade de morrer lá embaixo, e quando acontece, não tem muito o que se fazer: era um risco assumido conscientemente, ossos do ofício. Felizmente, não acontece tanto assim.
E não é assim com a gente também? Temos esse mar escuro e denso aqui dentro, cheio de plataformas com coisas por concertar… E de vez em quando, com a consciência dos riscos e muita cautela (ou não), deixamos alguém descer lá pra fazer o trabalho. E às vezes dá certo e a gente sente que tá funcionando melhor, sabe? Fica satisfeito com o resultado... Depois de um tempo as pessoas terminam o trabalho e vão pra casa, voltam pras suas vidas felizes com o pagamento.
Mas algumas vezes alguém morre lá dentro… e aí não tem muito o que se dizer, só aceitar que o risco faz parte do pacote. Sofrer, sim, mas um sofrimento resignado, uma desistência convicta, um adeus sincero. Não era a melhor pessoa pra fazer o trabalho, acabou a pilha da lanterna, o oxigênio era muito pouco, o tempo foi curto ou aconteceu algum incidente parcialmente inesperado… no fim das contas, isso é o que menos importa.
As vezes é a gente que topa esse trabalho, as vezes é só o que a gente quer fazer. O pagamento é bom e a vontade é muita. As vezes a gente também morre lá embaixo… e dói. Nossos pulmões se enchem de água, nosso corpo se agiganta e nossa mente pára de funcionar por um tempo. Mas faz parte do processo, e é isso que em algum momento nos faz deixar o corpo lá e continuar procurando.
Amar (também) é ir no fundo mais fundo do mar e deixar que afundem dentro de si mesmo. É ir consciente do risco, porque o pagamento vale a pena ou porque se precisa dele pra viver…
Mas principalmente porque ainda existem coisas por se concertar. E enquanto existem, a gente continua.
(Muito importante: como em todo trampo, de vez em quando é necessário TIRAR FÉRIAS!)
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Nunca penso muito nas consequencias dos meus atos. Eu chamaria isso de defeito se não fosse tão inerente a mim. Eu tramo e me embrenho, mas na maior parte do tempo como todos os meus planos de sobremesa. E no meu diálogo idiossincrático, eu me aconselho: menina, olha por onde você anda.
Mas dentro de mim surge um riso malandro e fujo do meu repreendimento. Lá vou eu de novo. Sacana.
Sou levada pelo meu falso encanto, guiada pelo meu ego que ronrona com prazer cada vez que é amaciado. E sinto que suas palavras me descobrem, me levam a despir cada vez mais os meus escudos e as minhas cascas, até que estou nua e de barriga pra cima: completamente entregue ao meu momento de mimo. Como um gato, vou fechando os meus olhos e respirando fundo, absorvendo a profundidade que só um momento de prazer superficial pode trazer. Talvez você não saiba, mas esse é o momento oportuno pra me capturar. Talvez eu não saiba mas tenha te capturado... eu só acho que no fundo cê ta de barriga pra cima também. E a gente ta muito ocupado se sentindo bem com isso pra fazer alguma coisa. Talvez eu me dê conta disso daqui a pouco, e tenha que sair correndo pra me esconder na vergonha das roupas e me podar mais uma vez, rangendo os dentes. Mas queria que você soubesse que dá tempo pra não dizer que não. Dá tempo de me convencer que isso não tá errado.
Eu sou um cerebro constantemente pensante e um coração hiperativo, mas nada do que eu to dizendo é algo maior do que um simples "quero que você me conheça", ou "quero te levar pra um lugar que acho que você vai gostar". Só que ao mesmo tempo é. Porque eu me arrepiei e me arrepio, e quero sussurrar as respostas no teu ouvido. Porque quero que cê cante pra mim, porque eu te vi. E é isso: eu não tô só(r)rindo a toa. Eu te vi. No meio dessa multidão colorida, com mil ideias e soluços, eu te vi. E eu te vi porque sei que em algum momento, cê tava olhando pra mim. Não tava?
Mas dentro de mim surge um riso malandro e fujo do meu repreendimento. Lá vou eu de novo. Sacana.
Sou levada pelo meu falso encanto, guiada pelo meu ego que ronrona com prazer cada vez que é amaciado. E sinto que suas palavras me descobrem, me levam a despir cada vez mais os meus escudos e as minhas cascas, até que estou nua e de barriga pra cima: completamente entregue ao meu momento de mimo. Como um gato, vou fechando os meus olhos e respirando fundo, absorvendo a profundidade que só um momento de prazer superficial pode trazer. Talvez você não saiba, mas esse é o momento oportuno pra me capturar. Talvez eu não saiba mas tenha te capturado... eu só acho que no fundo cê ta de barriga pra cima também. E a gente ta muito ocupado se sentindo bem com isso pra fazer alguma coisa. Talvez eu me dê conta disso daqui a pouco, e tenha que sair correndo pra me esconder na vergonha das roupas e me podar mais uma vez, rangendo os dentes. Mas queria que você soubesse que dá tempo pra não dizer que não. Dá tempo de me convencer que isso não tá errado.
Eu sou um cerebro constantemente pensante e um coração hiperativo, mas nada do que eu to dizendo é algo maior do que um simples "quero que você me conheça", ou "quero te levar pra um lugar que acho que você vai gostar". Só que ao mesmo tempo é. Porque eu me arrepiei e me arrepio, e quero sussurrar as respostas no teu ouvido. Porque quero que cê cante pra mim, porque eu te vi. E é isso: eu não tô só(r)rindo a toa. Eu te vi. No meio dessa multidão colorida, com mil ideias e soluços, eu te vi. E eu te vi porque sei que em algum momento, cê tava olhando pra mim. Não tava?
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Eu quase imploro. Eu quase grito, quase rujo. Sinto sede, sinto fome. Devora-me ou te decifro. Não tenho pressa, tenho urgência. Meus olhos estão injetados de desejo, desejo por amor, desejo por magia, desejo por histórias. E aquele arrepio… que não se vê mas está lá, aquele enjôo que dá fome, aquele sorriso que não se controla. Quero descobrir, desafiar, brincar. Quero ir só por ir. Me sinto pulsante, capaz, forte. Me sinto viva! O que faço com tanta vida? Eu nunca fui boa em coisas superficiais… Mas também não quero me afogar no profundo. Eu quero o profundo sem promessa, a verdade sem peso. Onde você tá? Me liga.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Toco minha mão na sua e percebo como é pequena e frágil. Arranho sua pele sem unhas, mordo sua carne sem força. Me sinto pequena nos seus braços, mas não de uma forma fraca. Me sinto como um pequeno pote de uma essência inebriante, como um pequeno fruto cheio de veneno (ou antídoto), como uma semente que tem dentro de si uma árvore inteira. Desabrocho quando você me toca, floresço. Escorrego para cima e para baixo, me faço de mola, me derreto e me contraio, me aperto e me solto. Subo. Desço. Danço. Fecho os olhos e entro em transe, abro os olhos e vejo amor. Em um segundo, as intenções mudam e eu estou completamente entregue. Sorrio sem pensar, me perco na sensação, me sento no poder e estremeço com vontade. É tão bom não ter o controle e se sentir segura. Respiro, ofego, rio, mar... Até acabar. Não dei nem tomei, fui e sou. As coisas acabam muito melhor no auge. Eu não me incomodaria de ter um pouco mais disso, é muito bom pra negar. Mas me sinto completa e satisfeita, me sinto real e segura, me sinto capaz e feliz. Sei que você sente também. Não há nada pelo que ser grato, há porque ser e só.
Guardei o meu coração numa caixa. Guardei com um caderno azul marinho, uma blusa verde e o algodão que usei pra limpar minhas unhas. Sinto como se tivesse abandonado um espaço da minha alma, mas trouxe comigo tudo o que precisava. Precisava estar só. Sentar-me comigo mesma e perceber que estou feliz. Que gosto do sol e tenho tempo pra ir na praia. E que o amor não é apego nem doença, não é vontade nem querer. É mais puro, mais profundo. Mergulhei no ofício, no necessário, mergulhei no auto-conhecimento e na falsa verdade de mim. Quando me sinto só me sinto bem. Sinto que qualquer um pode segurar a minha mão e me acompanhar por um tempo, mas que não é necessário. Tenho tudo o que necessito em mim. Sinto saudade, mas a saudade é um pedaço meu, como um braço ou uma perna. Tem saudade nos meus olhos, tem saudade no meu sorriso... E a amo. Me amo. Profundamente. A ponto de nunca mais deixar encostar a faca no sangue, a ponto de nunca mais me esconder (porque isso só me dá medo de me abrir). A ponto de não sujar mais meus olhos com ideias pessimistas, a ponto de aceitar que o pessimismo por si só pode ser bom. Tudo pode ser bom. Tudo pode ser bem. Tá tudo bem.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Faço brotar música do chão dessa cidade, sangro pelos dedos e pela vida, canto embrigada de som e luz, faço amor com gente de carne e de gesso, as vezes de bronze. Danço no colo da estátua de Jorge Amado, me declaro pra Zélia e brinco com o cachorro. Quebro copos e rasgo pele e carne. Falo rápido e me movimento muito, grito e avanço no vagabundo, gozo e como. Sou uma mulher. No ser mulher me descobri como a melhor das coisas, e não no aspecto que vejo sendo exibido por aí. Meu empoderamento não vem do meu corpo nem da aceitação ou não da minha celulite. Vem de dentro, como um terremoto que começa aos poucos e toma uma expansão enorme, fazendo tremer tudo e deixando todo e qualquer homem apavorado. Eu não seduzo, não é esse o meu poder. Meu encanto não é o corpo nem o feminino, meu encanto é o furacão-terremoto que só uma mulher pode ter. Porque a Terra é mulher, a natureza é mulher, o poder é mulher. A buceta é mulher. Mas a mulher não é uma arma, não é morte nem destruição. É revolução, é broto forte, é erva. É mar, amar. É a tempestade e a estiagem. A mulher pare, mas não pára e não é para ninguém. De dentro de mim vai nascer amor, todo o poder está dentro de mim. Eu sou mulher. Ainda bem.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Já não sei mais se a dor surge porque preciso escrever ou se preciso escrever porque a dor surge, mas me encontro comigo mesma quando encaro a folha em branco e entramos em uma relação que me preenche os buracos e libera o meu sangue. Sinto pulsarem as pontas dos meus dedos e saio desabafando tudo de amor e dor que tem em mim. Essa parte de mim ninguém toca. É o meu lugar seguro, é o meu ponto de encontro, é meu e só. Escrevo desde que tenho seis anos. E esse processo sempre foi tão íntimo pra mim que eu guardava o meu diário trancado com o cadeado dentro de uma caixa trancada em uma gaveta trancada. Lembro que uma vez meu irmão leu um trecho dele e eu me senti completamente nua, como um pássaro depenado. Se eu sei quem eu sou, sei por aqui. Leio meus textos de anos atrás e percebo como eu era imatura, as vezes rio de mim mesma. Mas é também onde me reencontro, me reentendo, me percebo e me formo. Eu entendo a menina de alguns anos atrás que escrevia nesse mesmo blog uns 12 textos por dia falando sobre seu amor incorrespondido, porque foi ela que me fez nunca mais ter que sentir isso dessa forma. A parte que eu não entendo e não apoio dela não está aqui. Não está nos textos. Porqué é externo, muda o tempo todo justamente porque não precisa - e não quer - ter lugar fixo. Escrever é minha essencia e o meu refúgio. O meu medo e a minha coragem, o meu luto e o meu amor... escrever é a minha verdade.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Se eu fosse colocar numa retrospectiva, ficaria tonta com todos os saltos e vôos e quedas que a minha vida deu. Só vou me dando conta aos poucos dessa minha imensa vontade de viver e provar, e o quanto sou capaz. Por todos os lados, me surpreendo comigo mesma e é a primeira vez que começo a gostar do que vejo. Um mundo de possibilidades que só gente jovem entende se abre aos meus olhos e eu sinto uma vontade forte de sorrir e de chorar. Eu não acreditava na felicidade porque nunca soube como consegui-la, mas agora sei. Eu procurei em lugares, poesias, livros, paisagens, carinhos, confortos e pessoas mas só encontrei quando realmente me joguei no escuro. A sensação de queda livre é a coisa mais verdadeira que eu já senti na minha vida. E é a melhor. Se você me lê e me conhece, me escreve uma carta. Me leva pra tomar um sorvete. Dança comigo na chuva. Te prometo: quando estivermos juntos nesse momento, seremos felizes. Seja lá você quem for. Te amo.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
No balanço de um barco, meus pensamentos vão pra frente e pra trás: será que eu to no caminho certo? Existem alguns objetivos que eu quero alcançar, mas só posso ir tateando e tentando enxergar alguma coisa nessa escuridão. Acendo algumas velas pra poder ver melhor, mas no final das contas elas só acabam me cegando mais. Fecho os olhos e tento ouvir o meu caminho. Meu caminho é uma música melódica, um passeio solitário e um pouco melancólico, mas com alguns picos de bateria que me deixam atordoada e feliz. Minha música é algo que você pode ver bem dentro dos meus olhos, e é irônico que para ouvi-la eu tenha que fecha-los. Se eu não fosse tão perdida...
Sempre penso que esse caminho escuro e tortuoso pode levar pra um fim estupidamente claro e cegante, e lembro da história da caverna de Platão... No balanço de um barco, meus pensamentos vão pra um lado e pro outro: onde é que está a verdadeira resposta? Aqui ou lá? De qualquer forma, quando eu chegar lá posso acabar me acostumando com a luz e depois nunca mais enxergar aqui... No final das contas isso não faz muita diferença, porque não paro de ir. Mesmo nos momentos mais escuros em que eu tive vontade de desistir, eu segui. Eu sigo. As vezes pros lados, as vezes pra frente, as vezes pra trás. Como um bom barco, eu vou. No rio ou no mar, eu vou. Na selva ou na pedra, eu vou. Então quem é que me leva?
É o teu sorriso, é um sorvete bom que eu tomo, é uma piada boa, é um riso frouxo. É também o choro, o aperto, o cigarro ruim, o café passado. É a minha vontade de estar aqui e lá, é a minha essência que já disse pra muita gente o porquê de estar aqui mas nunca teve uma resposta pra si mesma. É o meu declínio, é o meu balanço. No balanço do meu barco, que sou eu, eu vou. Sozinha ou não, eu vou.
Sempre penso que esse caminho escuro e tortuoso pode levar pra um fim estupidamente claro e cegante, e lembro da história da caverna de Platão... No balanço de um barco, meus pensamentos vão pra um lado e pro outro: onde é que está a verdadeira resposta? Aqui ou lá? De qualquer forma, quando eu chegar lá posso acabar me acostumando com a luz e depois nunca mais enxergar aqui... No final das contas isso não faz muita diferença, porque não paro de ir. Mesmo nos momentos mais escuros em que eu tive vontade de desistir, eu segui. Eu sigo. As vezes pros lados, as vezes pra frente, as vezes pra trás. Como um bom barco, eu vou. No rio ou no mar, eu vou. Na selva ou na pedra, eu vou. Então quem é que me leva?
É o teu sorriso, é um sorvete bom que eu tomo, é uma piada boa, é um riso frouxo. É também o choro, o aperto, o cigarro ruim, o café passado. É a minha vontade de estar aqui e lá, é a minha essência que já disse pra muita gente o porquê de estar aqui mas nunca teve uma resposta pra si mesma. É o meu declínio, é o meu balanço. No balanço do meu barco, que sou eu, eu vou. Sozinha ou não, eu vou.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Ontem eu escrevi um poema. Eu tava bebada e aquele poema era exatamente tudo o que eu tinha pra te dizer, mas daí eu decidi que não quero te dizer nada. Joguei no lixo e esqueci. Se eu fizesse um poema pra mim mesma, talvez ganharia mais. Comecei a fazer outro. Escrevi um pouco no braço dos amigos que estavam comigo, na dança que eu dancei e no olhar que eu dei pra um estranho. Escrevi na minha outra cerveja, e nas outras que vieram. Escrevi na taxista mulher que me levou pra casa, escrevi no travesseiro e no meu corte novo de cabelo que eu odiei. Olhei pra você e não consegui escrever nada. Talvez eu só tenha tentado demais esse tempo todo fazer um poema em você. Fazer de um poema você e eu... e o máximo que eu consegui foi naquele pedaço de papel que eu joguei no lixo. Aquilo que foi nosso não era poema. Fazia muito tempo que eu não escrevia, e eu percebi o quanto preciso disso. Contar a minha história faz parte da minha escrita, viver quem eu sou faz parte da minha poesia... olhar pra você me dá indigestão. Mas eu vou digerir, e o que eu só percebi agora é que se não posso te fazer de poema nem de desgosto, você não é nada. Fazer o quê.
Falar de amor
Por si só
Não é amar
Paixão é pior
E a pior dor
É não lembrar
Se eu estou aqui
E você está ai
Não precisa nem começar
Mas se você vem
Não vai além
De mais pesar
É triste, querido
Ter um coração ferido
Mais triste ainda
É achar que a vida é linda
E não ter nada pra contar
Falar de amor
Por si só
Não é amar
Paixão é pior
E a pior dor
É não lembrar
Se eu estou aqui
E você está ai
Não precisa nem começar
Mas se você vem
Não vai além
De mais pesar
É triste, querido
Ter um coração ferido
Mais triste ainda
É achar que a vida é linda
E não ter nada pra contar
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
estrela
Foi num sonho. Eu tava sentada, fumando um cigarro e chutando pedrinhas com meu tenis, e você apareceu. Sorriu pra mim e sentou do meu lado. Eu parei pra pensar que você nunca tinha me visto fumando antes, e você pediu um cigarro.
A gente ficou um tempo ali sentadas, pensando no que dizer. Eu tava naquela confusão com as pedrinhas no chão: quanto mais eu chutava, mais pedras apareciam embaixo do meu pé. Era como se o meu esforço pra limpar aquilo só fosse piorando tudo cada vez mais. Eu já estava grunhindo e chutando com toda a força quando você segurou a minha perna, sentou no chão e começou a formar estrelas com as pedrinhas. De repente, eu percebi que das pontas dos seus dedos saiam pedrinhas, e que na verdade elas eram bem brilhantes... bem bonitas. E você fez um mar delas, de peixes e estrelas. Só aí que eu percebi que estava sorrindo. Suas mensagens sempre foram fáceis de entender:
- Acho que você tá afastando as coisas erradas, filha.
A gente ficou um tempo ali sentadas, pensando no que dizer. Eu tava naquela confusão com as pedrinhas no chão: quanto mais eu chutava, mais pedras apareciam embaixo do meu pé. Era como se o meu esforço pra limpar aquilo só fosse piorando tudo cada vez mais. Eu já estava grunhindo e chutando com toda a força quando você segurou a minha perna, sentou no chão e começou a formar estrelas com as pedrinhas. De repente, eu percebi que das pontas dos seus dedos saiam pedrinhas, e que na verdade elas eram bem brilhantes... bem bonitas. E você fez um mar delas, de peixes e estrelas. Só aí que eu percebi que estava sorrindo. Suas mensagens sempre foram fáceis de entender:
- Acho que você tá afastando as coisas erradas, filha.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Eu queria poder te dizer que vai ser diferente. Porque uma parte de mim realmente acredita que passaria por cima de tudo pra ficar com você. Eu queria que quando você olhasse pra mim não sentisse dor ou raiva. Eu queria poder te fazer acreditar que eu ainda valho a pena. Eu queria poder te dizer que eu não me odeio mais, que isso não vai mais ficar no meio do caminho. Eu queria acreditar que você não tá melhor sem mim, e que eu não te danifico e te limito muito. Eu queria ser uma fonte de coisas boas na sua vida, eu queria te fazer feliz. E é nisso que eu penso quando eu não consigo comer nem dormir. É o quanto eu queria poder ser uma pessoa melhor só pra você. E eu queria poder ter tudo isso em mente antes de todas as crises que fizeram as coisas ficarem assim. Eu queria não ter estragado tudo, como eu sempre faço. Eu queria não ser eu, pra poder ser nós dois.
Assinar:
Postagens (Atom)