A festa acabou, o dia insistiu em amanhecer em um borrão claro e insolente, a praia brilha e o mar respira tranquilo. A paisagem é tão linda que parece proposital. Parece zombar de mim, bêbada e torpe, lutando com os meus dedos que tentam construir um último suspiro de loucura: apertar um beck fica muito mais difícil quando a cerveja fermenta e borbulha dentro de você. O vento está contra mim, feliz e forte, saudando a sobriedade de quem acorda cedo pra correr na orla e tomar água de côco. Eu tomaria uma cerveja, só pra fazer as pazes com a minha decisão ébria.
Meu único companheiro é um perdido, que balbucia algo enquanto me observa lutar com a seda Pure Hemp... OCB é muito melhor. Escuto enquanto ele fica repetindo alguma frase, sua voz é irritante e sua existência me deprime um pouco. Não é a primeira vez que eu desejo uma noite um pouco mais longa e me frustro com o sol e a maresia da cidade velha, mas é muito pior quando um perdido te acompanha. Um individuo velho, sujo e oportunista, um papo brocha, um cigarro rasgado. Eu não penso que sou mais do que isso, só acho tudo um saco e não quero dividir meu beck. Ele continua falando
"Você é tão linda... A gente tem uma conexão, cê sentiu também?"
Ele chega perto. Cheiro ruim, boca mole, aproximação rude e trôpega: um inquilino do Irish Pub, um resto do Rio Vermelho. Roupa preta, suor e maresia.
Me afasto tropeçando, tento empurrar ele de leve com a mão. Ele me questiona e arrota. Que saco. Acendo o beck e minha boca seca ainda mais. Gosto azedo de ressaca sem dormir misturada com o sal e a areia de uma quadra abandonada. Sinto sede e vontade de continuar. Imagino o líquido gelado descendo pela minha garganta e quase chego a sentir alívio. Volto pra realidade e ele ainda tá lá, chegando perto mais uma vez. Suspiro:
"porra, como eu queria que você fosse uma cerveja!"
E eis que nesse momento louco, não sei se de bêbada, se de chapada ou do quartinho que eu engoli mais cedo, acontece o sonho de qualquer mulher: o bêbado abusivo, torpe e imbecil some em uma explosão de fumaça e ressurge na forma de uma long neck suada. Ri um pouco sozinha, olhei pros lados: não tinha ninguém. Ninguém testemunhou o meu milagre. Eu nem precisei pensar muito pra aceitar. Vai ver Deus começou a sorrir pra mim. Vai ver o Diabo quis tirar uma com a minha cara. Vai ver essa cerveja é boa mesmo. Abro a garrafa com o dente e provo: maravilhosa. Gargalho sozinha na praia e vou tropeçando pra casa com a melhor cerveja que já bebi na vida.
Ideia de Léo.
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