domingo, 30 de outubro de 2011

Eu estou tão confusa! O que é que pode ser? Até onde eu gosto disso?
Era tão bom antes, e agora é tudo isso... Não sei mais, não entendo mais nada dentro de mim. Preciso respirar, em todos os sentidos. Preciso entender. Mas não dá, eu tenho outras coisas pra fazer, eu tenho preguiça. Não dá pra agradar todo mundo. Acredite, eu tentei.
Sempre acabam ficando as migalhas do bolo pra mim mesma. O bolo que eu cozinhei.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ela apertou o panfleto que tinha na mão. Não era nada importante, só alguma coisa sobre aulas extra de inglês que ela não precisava. Mas nem lhe passou pela cabeça se valia a pena ou não, simplesmente não conseguia aguentar olhar pra aquela foto dele, aquela expressão.
Mais uma vez com os olhos fechados... Como se a realidade fosse ruim demais para ser vista, como se tudo aquilo fosse inútil e sem sentido, e não ver nada era a melhor saída pra continuar vivendo.
Ela sentia aquilo. Dentro dos seus ossos, ela sentia que eles eram iguais. Não era só pelos pôsteres dos Smiths no armário dele, nem pela blusa amassada por baixo da jaqueta jeans. Não era uma paixonite adolescente pelo punk incompreendido, não era um caso de amor platônico.
Era mais do que isso. Ela sabia que aquilo era diferente dos filmes, histórias, romances. Lisa Gaertner não esperava que um dia ele percebesse que ela era a mocinha da história, ela não se achava uma pessoa melhor do que as gostosas da educação física e ele nem sequer namorava uma delas. E ela não era tão excluída assim: as pessoas sabiam quem ela era, ela tinha amigos, e eles eram tão amigos como qualquer outro. Era loira, e os cabelos caíam retos no queixo, combinando com seus óculos de grau vermelhos. Assim como a maioria dos estudantes, tinha nascido ali mesmo na Alemanha, e sua mãe era conhecida por quase todos na cidade.
Mas existia uma coisa dentro dela, sobre a qual ninguém falava, nem ela... Uma depressão profunda, uma falta de perspectiva, uma maneira cética de ver o mundo como se nada fosse realmente tão importante assim. E ele tinha aquilo.
Quando sentava pra comer o mesmo sanduiche natural de todos os dias, ele apertava o pão e não tirava o tomate. Pegava as migalhas e os gergelins que caíram no prato com a ponta do dedo e mastigava com os dentes da frente. Olhava ao redor com um olhar desinteressado e levantava pra jogar o prato descartável na lixeira. Voltava pra mesa, abria o suco em lata e servia em um copo.
Ele era composto por uma rotina que parecia melhor do que tudo aquilo. Algo que realmente tinha uma intensão, um significado. E além do mais, ele não usava cadarços.
Tinha os cabelos oleosos e pretos, caídos na testa um pouco em cima das sobrancelhas e olhos verdes. Chamava-se Leroy Rochon, e tinha chegado da França há dois meses. Talvez fosse esse ar diferente que os franceses respiram, mas até seus jeans caiam diferente. Era algo que puxava seus olhos, e os mantinha ali por muito tempo.
Eram do mesmo ano, mas de classes diferentes, então só se viam nos intervalos. Lisa não entendia como ele não havia feito contato social com ninguém ainda. É certo que só convivera pouco mais do que dois meses no colégio, mas a maioria dos alunos se enturmava no segundo dia! Quando perguntava a alguém, sempre respondiam a mesma coisa: até tentaram alguma aproximação, mas suas respostas são secas e desestimulantes.
Todas as informações que conseguira recolher era que ele morava com os pais na França, mas acabou se desentendendo com eles e estes o mandaram para um intercâmbio no intuito de estimulá-lo com novas experiências. Era bom em Literatura e História, mas foi expulso no segundo dia da aula de Física. Não tinha muitos amigos em seu país, mas tinha uma namorada de infância. Se meteu em várias brigas na sua escola, e quase foi expulso duas vezes de lá. Era o suficiente para manter distância.
Talvez nem fosse verdade. É o tipo de coisa que alguém inventaria se quisesse que as pessoas não se aproximassem. É o tipo de desejo que alguém teria se quisesse provar aos pais que eles estavam errados com aquela ideia. Mas era o que ele dizia, e ela não sabia como se aproximar.
Um dia tiveram um exame na mesma sala e ele até lhe pediu o lápis emprestado com um sotaque maravilhosamente francês, mas nada que passasse do "ouí, obrigado".
Dois meses se passaram e ela não criou coragem para ir ao seu encontro. Quando perguntou à uma amiga da classe dele porque estava faltando há uma semana, ficou sabendo que já tinha partido de volta pra Paris.
Hoje fazem 50 anos que ela ouviu essa notícia, e continua sentada na grama verde ouvindo a mesma música enjoada dos Smiths.
E se for assim?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Um pouco mais de magia, por favor

"... passou tantos anos sonhando com algo como isso, alguma prova de que o mundo real não era o único possível, e teve de aturar todas as esmagadoras evidências do contrário."

Como se contentar em ser só mais um? Como se contentar com cálculos sobre a velocidade final de um objeto ao cair no chão? Como aceitar o fato de que a vida é o que nós vemos, de que as coisas são calculadas e previstas, de saber porque a chuva cai?
Me sinto vazia, inútil. Me sinto mal por ser medíocre, por ser igual, por fazer parte de tudo o que todos nós já sabemos. Uma engrenagem fria e monótona, que se mexe como todas as outras, sem nem perceber... Sem diferencial, sem gosto, sem aquilo que sempre me ensinaram a querer.
Não se trata de ser "a princesa", ou a protagonista em geral. Se trata de SER algo, de fazer alguma diferença real, de querer do meu mais profundo eu, ser especial. Não que todo o mundo não queira, mas queria pelo menos sentir que sou. Ser enganada. E daí?
Queria estar convicta de que não é tudo uma grande piada, de que a magia existe, de que eu posso fazer parte dela, diferente de todos os outros manés que assistem o jornal sensacionalista na hora do almoço. Entrar num ônibus e pensar: sou diferente de tudo isso.
Não quero morrer com cinquenta anos como mais uma, porque afinal, pra quê? Pra que existir e estudar, e viver, se no final é só isso? É só o que estamos vendo, é só o que aprendemos na escola, é só. Não vai se tornar nada do que eu estou esperando, então pra quê?
Afinal, o mundo não é mágico, e muito menos eu. E isso tira todo sentido da coisa!
Será que não é suficiente ser eu? A menina ruiva que tira notas ruins e odeia o sistema, que faz teatro e acha que canta, e que chora mais do que deveria? Que tem amigos que ama, que confia e desconfia em segundos, que tem os sentimentos tão na beira? Nada disso me faz algo realmente especial?
Seja bem-vindo a máquina, não é? Você é só mais um. Os seus problemas são típicos e sua mente te faz crer que tudo que lhe acontece é importante, que existe destino, que o amor é eterno e ifinito, e que você é uma boa pessoa. Mas no final, o que é que realmente vale?
Sinto como se fosse um desses figurantes de filme que morre no ônibus que o vilão explodiu. Um daqueles milhões que são usados como reféns e depois acabam afogados. Mera figurante cuja vida não vale nada, que vai ser lembrada por algum tempo por umas poucas pessoas, e vai acabar ficando em um papel. Uma dessas mil pessoas que morreram na guerra que a gente ouve no noticiário.
Como se existisse uma coisa realmente superior, como super-heróis, magia e monstros submarinos, mas que eu não fizesse parte de nada disso. Como se tudo o que eu estou vivendo agora fosse só uma ilusão da minha mente, e na verdade não tivesse nenhum grande valor. Como se eu não soubesse o que realmente está acontecendo. Afinal, quem pode dizer o que é real ou não? E se for, realmente, tudo uma grande piada?
Não quero ser a pessoa do fundo, ignorante e sem graça, quero um pouco de magia.