Caro amigo.
Peço perdão pela insistência, mas mando-lhe essa segunda carta por receio de incompetência dos correios. Rezo, amigo, para que a falta de resposta não seja porque, por algum motivo, o amigo esteja envocado comigo.
No caso de que tenha lido a minha primeira carta e sua resposta não tenha chegado, lhe mando novidades: minha mão melhora a cada dia.
O médico, que por mim tem carinho especial, me disse que não ficaria bem por completo, mas que poderia voltar a cortar cebolas, queijo ou conversas.
Uso uma atadura apertada, tomo remédios e faço movimentos para voltar a cozinhar. Sinto falta dos temperos, amigo.
Faz alguns dias que me sinto solitário, sem sal. Meu sal, minha família, se foi quase que de vez. E eu passo as horas com a mulher de branco, esperando que a nuvem destape o sol e tape a lua.
Como as verduras que me indicaram, e durmo nos horários necessários. O hábito de fumar me deixou há anos, e minha vida é quase saudável. No entanto, temo por minha sanidade mental, amigo.
Peço permissão pra lhe contar um segredo, posso? Espero que sim, amigo. Você é um dos únicos que me inspira confiança necessária para segredar os fatos que me assustam. Os únicos que ainda me parecem secretos.
Sem mais nem menos, vou direto ao ponto: estava eu na minha varanda, tomando um vinho do porto, assistindo o entardecer, como em uma tarde monótona. E eis que eu vi aquilo.
Não posso te dizer a quantidade de coisas que pensei que poderia ser aquilo. Uma luz forte. Tão forte, amigo, que ela era todas as cores ao mesmo tempo. E, com os olhos molhados, eu podia ver o desenho de algo parecido a um animal. Foi se aproximando de mim - e eu, amigo, jurava que era morte que decidiu me puxar pela minha mão doente de uma vez - como um relâmpago do chão para o céu.
Até que fechei os olhos pela luz, e quando os abri novamente, não havia mais nada. As folhas caiam no chão como em qualquer atardecer de outono, e a moça de branco veio puchar a minha cadeira para dentro. Estava frio.
Receio estar enlouquecendo, amigo, mas tinha que lhe contar. Que mal lhe pergunte, algo assim já lhe ocorreu? É coisa de idade, de NOSSA idade?
Noventa e dois, amigo. E pensar que saimos do mesmo ventre doente que era a nossa cidade. Que conhecemos os mesmos vermes e brigamos com as mesmas lesmas. Que nos apaixonamos pelas mesmas flores, e que nos perdemos nos mesmos tempos.
Perdoe-me os devaneios, mas não se concentra em mim o mesmo poder de escrever do que antes. Espero que essa carta te alcance, amigo. Espero que possamos nos falar novamente, e que os dias passem rápido, para que suas cartas me alcancem o quanto antes.
Espero não ficar louco antes de ler os SEUS devaneios, amigo. Espero que possamos nos ver algum dia, antes que a Morte venha trazer a Lua para as nossas vidas.
Do seu saudoso amigo, Corral.