Estava precisando. Precisando aconchegar meu gatinho listrado, e meus outros bichinhos que moram comigo. Estou precisando até agora de um sorvete de chocolate, se quer saber.
Mas não era só isso. E aqui vai uma grande verdade: desde o dia que ela se foi, ela que ninguém quer ouvir falar por ter pena, ela que era mais do que mãe, amiga, irmã, parte de mim, ela que nunca mais vai voltar fisicamente, bom... Desde que minha estrela se foi, eu decidi que precisava ser forte. Eu decidi que eu tinha que segurar as pessoas. Eu tinha que ser a mais sorridente, a mais feliz, o apoio de quem precisasse. Porque foi de mim que ela se despediu, fui eu que recebi um abraço dela com seu vestido florido, fui eu que vi seu sorriso e ouvi a sua risada pela última vez. Foi a mim que ela deu esse presente, e eu sabia o que isso significava.
E eu fui. Eu fui o que cada um precisava. Eu tornei essa casa - que de repente tinha se tornado grande demais - em uma kitnet, e abracei todos com um sonho de ser feliz de verdade mais uma vez. Eu me tornei o que ela era, pra cada um que sentia saudade.
E fui esquecendo de mim. Eu esqueci dos meus sorrisos, do meu jeito, dos meus princípios, dos meus ódios, dos meus amores, de quem eu realmente iria sentir falta e de quem eu realmente poderia me aproximar. Convivi com gente e coisas erradas - que depois se mostraram não ser tão erradas assim - e fiz coisas de que me arrependi e me arrependo até hoje.
Eu precisava me recriar: sair de mim. Pintei e cortei o cabelo sabe lá quantas vezes, vesti mil casacos que me cobriam e pintei o verde brilhante dos meus olhos pra não ver o reflexo dela no espelho todas as manhãs. Experimentei gostos e coisas que me levavam para um estado fora de mim, só pra poder respirar fundo, olhar pro lado e não ver o sorriso dela de novo, olhar pro lado e não reconhecer nada, não me reconhecer, agindo de maneira que ninguém aprovaria, nem mesmo eu, só pra poder não sentir nada mesmo.
E eu não senti, realmente. As pessoas ficavam com pena de mim, e eu não entendia o porquê. Eu nunca consegui ter pena de mim de verdade.
Enfim, tudo isso foi preciso ser dito porque faz parte do processo em que eu estou agora: viagem de volta. Porque não importa o quanto você queira escapar de si mesmo, a vida é uma coisa só e você vai sempre ter que voltar alguma hora. Por isso eu disse que ninguém poderia dizer que aquilo era errado: porque ninguém sentiu a necessidade que eu senti.
Ao passo que me arrependo, me sinto feliz de ter conseguido lidar de uma maneira melhor do que me machucando fisicamente ou até mesmo tentando acabar comigo mesma - era o que eu queria - mesmo que isso tenha derrubado minha moral em muitos pontos.
E foi bom para abrir essa mente infernal, que sempre punha o certo e o errado, o amor e o ódio, o início e o fim. Foi bom pra não ter que botar nome em nada, nem tentar entender nada, nem tentar fazer parte de nada. Eu fiz parte de tudo, para perceber que tudo faz parte de mim.
E estou feliz, porque eu construí um caminho muito bem feito até essa reviravolta. Tão bem feito, que as pessoas que eu escolhi para ficar comigo estão comigo até agora, e acabaram de me convidar para celebrar o meu 16º aniversário na casa delas, e me ofereceram todo o amor do mundo, mesmo reconhecendo que eu fui uma vadia por uns tempos.
Não vou me desculpar até porque sei que elas entendem que isso não é necessário.
Eu sei que a maioria das coisas é passageira, mas a passagem que a minha estrela teve me mostrou que existem algumas coisas que simplesmente ficam lá pra sempre. E eu vou lidar com a minha tristeza até entender completamente que ela continua aqui, porque só saber não é o bastante.