agora, faltam cinco horas e alguns minutos para que isso tudo se pinte de branco e vire uma coisa nova. e mesmo sabendo que tudo o que aconteceu vai ficar em uma outra página do calendário, tudo o que eu consigo desejar é um abraço seu.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
- Eu juro, não estou brincando.
- Você devia era parar de besteira. Parar de tanta melação. Eu não gosto, acho muito esquisito de sua parte.
- Mas eu não to brincando, Lia. Eu juro que é o que eu acho. Eu queria te dizer isso, e eu sei que é bem esquisito, mas é verdade. Talvez seja porque eu me acostumei, ou porque eu sempre convivi com isso, mas é verdade: pra mim, você é a menina mais bonita desse planeta.
- E pra mim você é o menino mais bobo desse planeta. E chato. Já disse que não gosto dessas conversas. Nem o Pedro. Ele não ia gostar de te ouvir falando isso, aposto que não. Não parece conversa de amigo.
- Que Pedro, Lia! Esse Pedro é invenção sua. Ele não te dá a mínima, e você sabe disso. Sabe que ele é um idiota, um sem noção. Eu não. Eu sou seu amigo, eu converso com você, e gosto das mesmas músicas que você repete mil vezes no iPod. Se não parece conversa de amigo, é porque não é, Lia. Você sabe que não é.
Todo mundo sabe que não é.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Theodora 3
Desespero. A garota se debatia na sua posição incomoda, no escuro, esperando por algum milagre conseguir se soltar. Suava, chorava, ardia, batia, apertava. Theodora estava naquela posição à uma hora e meia, e ainda não sabia o porquê. Não havia entendido a ultima conversa com aquele senhor tão indecifravelmente pertubado, e cada vez mais sentia que O Segundo estava perdido, sem saber para onde ir, porque ela havia vacilado.
Estava tudo escuro, e o chão parecia sujo por algo um pouco gosmento. Já haviam passado-se horas, até que ela conseguira se ajoelhar. Não podia ver um palmo a sua frente, mesmo estando no escuro há tanto tempo.
De repente, as luzes foram sendo ligadas: a de trás, depois mais na frente, e assim sucessivamente.
A sala era verde, e estava completamente suja com uma espécie de gosma preta e verde-escura. Estava completamente vazia, exceto por alguma coisa no canto esquerdo.
Era uma garota, um pouco maior que Theodora. Seus cabelos eram longos e negros, e ela vestia uma camisola que devia ser branca antes de ser completamente manchada pela sujeira. A menina parecia inconsciente, e tinha arranhões por todo o corpo.
Tentou arrastar-se até ela, mas ao virar-se para a parede, paralisou. Em letras negras e desalinhadas, estava escrito:
"O bem e o mal vem sempre com um sinal, apontando a direção. Tenha cuidado, dessa menina não vem nada bom."
Theodora respirou fundo. Parecia que tudo começava a se esclarecer, e então as coisas caíram mais uma vez. Ela não sabia o que aquela menina poderia fazer quando acordasse, não sabia como sair daquela sala assustadora, e não sabia se conseguiria encontrar O Segundo a tempo de salvar a sua irmã e toda a sua cidade.
Ela não sabia de muitas coisas, e aquela frase na parede não deixava com que ela tomasse nenhuma decisão.
Acontece que às vezes, quando o sol bate forte lá em cima, posso me ver em um reflexo ou outro. E então, eu me lembro de tudo aquilo que eu devia ter deixado pra trás ao entrar na água: me lembro da minha camisa cinza, de um cheiro forte e doce, das marcas nas suas mãos e dos seus olhos claros.
Diferente de antes, não há nada que me diga que isso é errado. E é justamente isso que me faz subir à superfície.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
lucas
sabia que outro dia, assim só pra sentir gosto de dois mil e nove coisas, abri o Google pra procurar imagens de locutores de rádio?
você tem que experimentar. é tão diferente do que a gente imagina!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
na parede do banheiro
Em um canto, um papel de picolé de açaí amassado e sujo. No outro, um buraco um pouco maior do que uma formiga, e um pouco menos escuro que um gato.
Todo um caminho: siga o espelho, vire a esquerda na foto do Raul Seixas e passe por cima do olho um pouco vesgo da Rita Lee. Desvie do azulejo pintado, e contorne a terceira letra da palavra Alegria. Deixe o resto da frase pra trás.
Depois é só seguir pelo caminho marcado entre dois espaços brancos, até entrar em um caminho escuro. Tudo bem, porque você não precisa saber onde ir: vai acabar dando sempre no mesmo lugar.
Algumas folhas, um pouco de terra e muitas migalhas sendo carregadas de um lado pro outro, batendo-se umas nas outras.
Ninguém nunca viu para onde vai, ou se aquilo é mesmo comida. A gente só supõe.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
gatos pretos de olhos de bola de gude
"Respire fundo e pergunte-se porque você está ali..."
Eu já tinha decidido: no final, tudo o que eu queria era aquele caderno da cor do meu tio, e com aqueles desenhos que eu tinha feito. Estava na primeira gaveta, mas a primeira gaveta é sempre a última a ser aberta.
Eu sabia quem estava vindo, e sabia que logo o céu se tornaria rosado e os gatos iam descer pela janela em busca de comida. Sabia que eu tinha pouco tempo pra esconder o que eles não podiam ver, e sabia que bolas de gude enxergam melhor do que qualquer íris.
Você sempre sabe quando um deles está vindo, pelo sentimento que aqueles miados provocam, e pelo reflexo do vidro com o sol. Você sente aquilo e sabe que eles vão estar te vigiando e te mostrando o que você sabe que já viu demais, que já tem de menos.
Pouco a pouco, eu puxava a gaveta da cor da aurora, com medo de despertá-los. Respirando fundo e entendendo que aquilo me levaria de volta para o meu travesseiro sem ouvir o ruído de pequenas patinhas arranhando o azulejo da cozinha.
Mas quando abriu-se a gaveta, ele não estava lá. O caderno tinha ido embora, fugido com os meus desenhos que - eu sempre soube - também não gostavam de mim. E as palavras, cada uma delas, que eu dediquei para os meus temores e minhas verdades menos claras, todas foram embora, em menos tempo do que se pode esperar.
Não foram necessários minutos, e eles estavam ali: os olhos brilhando, as patas nos azulejos e o miado insistente, exibindo um filme que eu não suportava mais ver.
"... Porque no final das contas, isso é o que menos importa."
já foi
não tem como explicar. nem melhorar um pouco a situação, olhar por um outro lado. acho que agora não tem nem como olhar.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
nome nenhum
Um olhar. É a unica coisa necessária para que rolemos no chão de tanto rir, só pelo fato de não precisarmos de palavras pra explicar o que estamos pensando. Está tudo ali: naquele olhar. Todas as piadas, agonias, as raivas, os sites e os problemas mal resolvidos.
Ela, por trás daqueles óculos, sabe de toda a minha angústia e de todos os meus rancores. Conhece meus ódios e tem bem claro o que me faz rir e o que me causa mau-humor pelo resto do dia.
E eu, por trás da minha insegurança, sei da sua obsessão por signos, da sua sabedoria engraçada e dos seus tempos de "Lacoste girl".
Nós não precisamos dizer porque estamos rindo, assim como não precisamos nos apresentar e nos conhecer. Já estava tudo ali, nos vagalumes e em um certo pássaro azul que preenche as nossas noites engraçadas.
E isso não precisa ter nome nenhum.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
vickk
eu olhava pra janela e via as paredes dos prédios, o preto e branco das pessoas olhando os relógios. eu me confundia com a quantidade de placas e informações, enquanto tentava bolar um plano de vista na minha cabeça.
e então, você apareceu. você trouxe cores, trouxe um pouco mais de vida de verdade, um pouco mais de amor. trouxe o que eu não tinha a muito tempo: graça. veio com suas risadas e seu jeito meio bêbado, me levando para um caminho onde os arco-íris eram mais visíveis, e os duendes exibiam seus potes de ouro.
eu estava procurando o tempo todo por algumas árvores, e você me trouxe uma floresta inteira. Por favor, não apague tudo o que você coloriu. é um caminho longo e tortuoso, eu bem sei. mas não é o suficiente pra te fazer esquecer do quanto o seu sorriso importa nesse mundo.
eu te amo.
domingo, 5 de dezembro de 2010
canadés
Olhei ao redor: na sala, várias pessoas com caras e tons diferentes sentadas no sofá e conversando sobre coisas que eu nunca entenderia. Fazia barulho, e eu estava enjoada.
Mas já era muito tarde para fingir que não via e subir as escadas mais uma vez. Já tinha passado muito tempo desde a última vez que eu decidira fechar os olhos e tropeçar no mesmo segundo degrau, para depois desabar no quinto e me arrastar até o último.
Eu decidira, alguns minutos atrás, que iria tentar encontrar o que havia neles que me provocava tanto medo de mim mesma.
Tropeçando em pés e em olhos assustados e curiosos, sentei-me no canto do sofá e esperei. Não sabia o que esperar, mas alguma coisa certamente viria. Até que ela se virou:
- Afinal, o que está procurando?
Na nossa frente, um homem que parecia uma lebre de monóculo estava servindo chá. Uma bandeja em cada orelha, duas cartolas em cada mão. Uma xícara em canapé. Cada pé.
- Não sei. Achei que vocês me diriam.
Ela se virou para seus companheiros e riu. Depois, voltou-se para mim novamente e me encarou por alguns segundos, só pra me assustar. E tinha resultados.
- Dizer o quê? Não é você que sempre passa por aqui e nos ignora? Nós te convidamos para a nossa festa, te oferecemos chás e cadapés, e você nunca nem ao menos acenou a cabeça!
- Mas eu...
- Passa correndo, correndo como se nada importasse, e nós... coitados! coitados de nós, não é Roseline?
Uma mulher de vestido vermelho e cabelo atado no lugar mais alto possível virou-se, balançando os brincos. Sua voz parecia ser a de duas pessoas ao mesmo tempo:
- Pois sim, pois sim. Coitados de nós, Margie.
Na minha frente, o homem-lebre parecia derrubar tudo ao mesmo tempo que mantia o perfeito equilíbrio, oferecendo-me o chá. Mais do que uma oferta, parecia uma ameaça.
Peguei um cadané com as duas mãos e acomodei a xícara nas bandejas, enquanto Margie e Roseline sussurravam algo entre elas.
- Obrigado - disse o homem-lebre - mas a tarefa de levar os chás e os nadacés é minha.
Irritado, virou-se e saiu balançando o pompom.
Naquele momento, eu já não tinha certeza de que eu realmente queria estar ali. Os rostos e corpos ao meu redor começavam a deformar-se, e as aranhas começavam a invadir os cantos.
- Olha, eu acho que tenho que ir agora...
- Ir? Aonde? Você tem para onde ir?
Pouco a pouco, seus rostos começaram a tornar-se assustadores, seus sorrisos cresciam e confundiam-se com seus olhos, e suas mãos se esticavam até meu rosto, as unhas vermelhas bem na minha frente.
Por impulso, fechei os olhos. E de certa forma, arrependo-me de ter fechado. Mas na hora tudo o que eu conseguia fazer era apertá-los mais e mais, e pressionar minhas mãos contra eles.
Quando abri, eu já sabia o que veria: o mesmo sofá de couro marrom, as mesmas paredes verdes e brancas e a mesma escada, me chamando para subir e ignorá-los mais uma vez.
eu não preciso fazer escolhas, não tão cedo. ou talvez eu precise mais do que tudo. eu preciso um pouco mais de tudo.
quantas vezes eu disse pra mim mesma que não podia acontecer mas deixei acontecer? quantas vezes eu vi um reflexo que não pertencia a mim e ri? e quantas vezes, quantas horas que eu passei errando, só tocando o erro com a ponta dos dedos?
eu não estou pronta pra ouvir um "não" tão certo. não estou pronta pra cair por um sorriso, nem pra me esconder dentro de alguns livros. esse é o meu problema: eu sempre estou pronta para o que não posso estar.
não vou ficar me iludindo com os paralelepípedos, mas não vou cair de novo. não estou usando óculos, mas as minhas lentes estão gastas.
preciso de um par de sapatos silenciosos, só por essa noite.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Eu queria um pássaro, todo azul marinho e brilhante e que não precisasse de gaiola. Que ele fosse, voasse e voltasse, só porque gosta de mim. E que ele cante músicas pra me acalmar.
E que eu possa abraçá-lo sem que ele se machuque, que toda a minha afeição o faça bem. E que ele dormisse comigo, e acordasse vermelho com o meu cabelo.
E brilhante.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
eu lembro. lembro de quando tudo parecia tão impossível, e você só roçava os dedos em um pedaço de pano molhado. e voce nao falava e nao me reconhecia.
lembro de que eu dei um beijo no seu ombro magro porque eu sabia que seria o último. eu lembro que eu caí no chão de um lugar sujo e que me dá arrepios sempre que passo na frente.
lembro que eu sabia de tudo desde o começo, e quase me culpei por nao ter acreditado no oposto. eu lembro que os dias passavam e eu nao acreditava, e quando alguem telefonou as pessoas me abraçavam e eu nao entendia nada, só sentia falta de ar. por que tao apertado?
eu nao entendo, nao consigo perceber o quanto isso tudo foi uma outra vida. o quando eu nasci de novo, e isso nao foi bom. nao nao nao nao.
eu nao entendo a pena, eu nao entendo o medo de falar.
eu sempre achei que você se recuperaria de novo, e vestiria a sua túnica confortável mais uma vez. e os seus óculos redondos seriam postos de novo bem acima do seu sorriso e das suas marcas.
eu nunca pensei que chegariamos tao longe, e hoje isso me parece muito mais distante do que um ano e alguns poucos meses.
eu agradeço pelo seu abraço e pelo seu sorriso de despedida, sempre gostei daquele vestido e daquelas flores.
voce se afastou tanto de mim! nao foi o espaço, foi voce. eu nao consigo entender mais nada.
Olhos fechados, o cabelo mais uma vez empurrado pra trás da orelha; eles sempre voltavam.
Respire fundo e abra os olhos: nada mudou.
Era a quinta vez no mês que aquilo acontecia. De repente, as pontas de seus dedos começavam a soltar purpurina vermelha, e ardiam intensamente.
Chamava-se P. Veio tudo de uma palavra e um jogo estranho, mas ela sabia a história de trás pra frente.
Começou a correr. Tocava em tudo o que podia: pássaros, corpos, paredes, chão, céu. Nuvens? Não se sabe. Parecia meio molhado, mas podia ser só um tubo de ar condicionado.
"Eu te amo!" - alguém gritou.
Então seus olhos começaram a escorrer daquele mesmo pó brilhante e rubro, enquanto ela soluçava repetidamente. Falta de ar, mas quem pensaria em parar de correr? Era impossível.
"Eu te amo" - não era uma voz ao fundo, um sussurro ou um fim de grito de quem está longe. Eram pessoas, bem no seu ouvido. Mais especificamente seis. Seis pessoas.
Estavam em seus ombros, e ela precisava? dizer o quanto os amava também. Todos em seus ombros, tijolos.
Pensou que chega. Tinha que abrir a boca e deixar de confusão: vou gritar! Vou gritar e que vá tudo pras cucuias.
Abriu a boca, mas quando forçou a garganta mais purpurina jorrou por entre os dentes. O que é isso? Não se sabe. Não era terminal, nem benigno.
Poucas pessoas sabem que purpurina solta forma desenhos no ar, junto com o vento. Ela desenhou todo um caminho errado, mas alguns pássaros estão protegidos pelo seu manto vermelho.
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