Caro Tempo,
vem e me arranca esse encosto do coração. Morde a minha carne e gasta os meus sentidos, mas tira de mim esse peso que está sempre aqui. Alivia estas minhas costas das saudades que carrego, limpa os meus olhos das lágrimas que não tenho forças pra chorar. Faz-me menos dramática, faz com que esse clamor torne-se ridículo, e se for necessário, transforma em murcho o meu coração para que seja meu.
Quem lhe escreve é uma súdita fiel, que têm em si nada mais do que a crença em ti. Ponho-lhe todas as minhas esperanças porque o tenho como único remédio, única salvação para o amor que insiste em prender-se nos vãos escuros da alma. Me leva com você pra onde for, mas me ajuda a transformar isso que tenho aqui dentro em algo melhor. Não posso ver-te arrastar-se enquanto estou inerte, tampouco posso ir correndo atrás de ti. Sei viver com quase toda dor, mas não posso aguentar o desespero e o aperto de um amor gasto agarrado no peito. Tira essas olheiras do meu sono, mata a mentira no fundo do sorriso, afugenta o medo que vive por trás das piadas que conto. Há tempos que estou tentando equilibrar-me nessa corda bamba insegura e te imploro: transforma-a em um chão sólido e espaçoso para que meus pés possam pisar confiantes. Faz-me de novo plena em mim, Sophia, sem que seja necessário tapar esse buraco com outro preenchimento. Não deixe que esmaeça a fé que tenho em ti, depois de tantas outras que tinha e que definharam perante à sua força. Vem e me abraça com vontade. Vem e corre com coragem. Vem e muda tudo o que há em mim. Vem.
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