quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Alguem, por favor, abra os meus olhos. Depois de mante-los esbugalhados até lacrimejarem, depois de me forçar a ver, e ver, e enxergar, e expô-los à luz imbecil da vontade, eles se fecharam. Depois de deixar a poeira infiltrar, e secar as lágrimas e irritá-los e me deparar com o que eu não posso mais ver, eles se cansaram de me obedecer e abraçaram o negro. Logo eu...
Quantos livros eu preciso ler pra encontrar a paz que eu tanto procuro? Meus olhos já olharam para todos os lados: não está aqui. Não está dentro, não está fora. E agora estão fechados. Depois de mergulhar no poço negro e morrer lá embaixo tantas vezes, onde eu vou encontrar o que me faz falta e me relaxa o peito? Há tanto tempo eu venho me convencendo de que preciso de pouco pra estar plena, mas quantas músicas eu preciso ouvir pra chorar todo o choro que há em mim? Será que um dia esse choro, esse coro, esse corro, será que acaba? Quanto esgotamento eu preciso sentir pra que o descanso venha? Já me perdi na minha busca incessante, no meu esforço pra estar bem, nessa paixão desiludida que eu sinto pela sorte... Quantas vezes eu tenho que me deparar comigo pra começar a gostar de mim? Quantas partes de mim eu tenho que matar pra fazer com que viver se torne possível? Deus sabe o quanto eu tento fazer com que os dias não sejam os mesmos, não sejam piores. Quanto tempo eu tenho que gastar em mim? Sou insanamente incapaz.
Talvez, se eu tivesse o ócio pra me fazer infeliz, se eu tivesse o conforto pra me trazer solidão, se eu tivesse tudo pra sentir falta de nada, talvez essa tristeza fosse mais sincera do que esse desgaste imbecil da busca por paz. Eu estava sentada num banco e vi meus sonhos se tornarem selvagens, assisti a minha idealização de mim crescer em meio ao nada, me agarrei na minha fé e aprendi a me esvaziar depois de tudo o que tinha me ser arrancado. E ainda assim, sinto uma pena estúpida de mim. Antes de dormir acaricio meus pés um no outro e me consolo com meu próprio cafuné. Canto a minha cantiga coitada de ninar e me prometo que o amanhã existe e, por isso, tudo é possível. Me cubro e me reviro, acalmando a mim mesma e tentando fazer a única coisa que me ensinei a fazer pra ficar melhor: ser minha própria companhia. Deito na cama e escrevo um texto pra derramar o que os cigarros não conseguem terminar de extinguir e, chegando perto do fim, sempre acabo no que foi desde o início e será depois: quantos textos eu preciso escrever pra vomitar minha ânsia?

Lá se foi mais um. Lá se vem mais uma.

Um comentário:

Pedro Leonelli disse...

enquanto você quer abraçar um fiapo seu que deus sabe qual é, eu quero te abraçar inteira. Sinto como sua tia, seus vacilos são por sua maravilha, minha esperança de um paraíso doloroso.