Sobre utero, luz e sangue
Incho, me contorço e expulso. Meu ritual mensal é enraizado em mim e me conecta com partes do meu ser que desconheço. É a epoca de mergulhar na dor e expulsa-la, esquentar o corpo e nutrir-se de um novo ciclo. Um novo ciclo se apresenta, guiado pela lua sangrenta que mexe diretamente comigo. Uivo pra ela, quase como numa gratidao por sua existencia e por nossa conexão, que é real, tangível e de uma força inexplicável - conversa que por ser intraduzivel, diz tudo o que se precisa entender.
Olho pra ela e sinto as outras, as que tambem a conheceram e lhe uivaram, as que ouviram seu conselho de ser mulher porta a fora e natureza a dentro, e por isso queimaram e afundaram diante de sua luz... Lua, essa testemunha da sangrenta morte e da sangrenta vida feminina, que nos estende os braços como feixes de luz e numa mágica realidade se relaciona com nossos líquidos, nossos corpos, nossas almas. Que nos faz semelhantes pelas diferentes influencias que sofremos dela, que nos faz irmãs por sermos todas suas filhas. Lua sangrenta, que fecha o inacabado e conduz para a redençao, que toma o meu corpo e pede pra que aguarde, recomeçando o meu ciclo no terceiro dia do mês dez. O três, número do sagrado feminino. Três pontas tem o Triskle, três formas tem a Deusa e três fases tem a lua. Por estas três tambem se relaciona a vida: Corpo Mente e Alma, Céu Terra e Mar, Nascimento Desenvolvimento e Morte. A lua sangrenta impera e me impõe o três, número sagrado pro bicho fêmea, número da Deusa que nos abre os olhos e portas, que nos entrega a maçã do Éden - vermelha como o sangue - e nos conduz à autonomia mental e corporal.
A lua se faz influente para todas nós, e nos toca, e continua nos tocando, abrindo nossos sentidos e deformando as carnes que tentam ofuscar nosso brilho essencial. É necessário ouvi-la, é necessário uivar, é necessário entender essa relação de tamanha força e rosnar, clamar o que é nosso por direito, fincar os pés nessa Terra de que somos feitas e fazer tremer as estruturas que nos temem e - por temor - nos acorrentam. Os nossos passos não andam mais pra trás, não enquanto pudermos ouvir a lua e o sangue, não enquanto sangrarmos nossos ciclos de conexão com a vida, não enquanto somos criadoras dessa vida - e das vidas que depois tentam controlar as nossas -, não enquanto mantemos o chão firme e as águas calmas. Nossa ira é avassaladora e nossos braços carregam o mundo: nós reproduzimos, produzimos e fazemos com que produzam.
A lua sangrenta é testemunha da caça à nossa liberdade e surge há cada trinta anos pra fechar os capítulos que não se deixam terminar, mas tambem pra acordar a força do bicho fêmea, pois funciona como nosso receptáculo com a Deusa mulher, aquela que nos diz que, como suas representantes, tudo podemos e a tudo temos direito.
Se a realidade é mágica, é porque existe a mulher. Somos lobas, discipulas da lua e filhas da natureza. Quando olhar pro céu e ver uma enorme bola de luz vibrando e banhando a noite, lembra da intensidade da nossa força e sinta com certeza: daremos cada vez menos passos atrás.
Um comentário:
Foda pra cacete. Te amo, te amo.
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