segunda-feira, 9 de novembro de 2015

aninha

O peito aperta quando a cabeça viaja e traz imagens de você, da maneira como eu te conheci, os momentos e risos que vieram com os encontros, quase sempre inesperados.
Um mero sticker do Facebook, de repente se torna uma dor aguda. Uma mesa do Rio Vermelho se torna sombria, a gíria que eu mais gosto se torna mórbida. A noite, que me fazia fugir do casulo e procurar algum ambiente barulhento, parece agora gritar o seu nome e procurar o seu copo de cerveja; o que antes era só prazer, muda e ganha um novo significado depois de saber que você não está mais em um plano palpável, sólido, físico. Um plano onde os abraços se fazem possíveis antes que necessários. Um plano em que reina a dor de não usar das possibilidades no momento devido, que não abarca a necessidade de quem finge viver para sempre.
A mim me restam os risos - o lindo da tua essência - e os segredos, que sempre me surpreendiam quando compartilhados comigo. Ficam também o ardor e a coceira provocados por essa percepção da fragilidade da vida. Queima o medo da saudade, faz tremer a urgência de se perceber mortal.
Quando tudo estava escuro e minha cabeça não se permitia entender, abri o navegador e pesquisei sobre a juventude, sobre a morte prematura e as diferentes formas de vida. Encontrei diversas respostas que nadam no aquário inconstante que é a minha cabeça, mas uma surge diversas vezes e me acalma: dizem que os espíritos sabem quando se vão.
Se sabem, tu sabia que ficava por pouco tempo. Se sabia, faz sentido a especialidade do seu sorriso, o prazer da tua companhia e a beleza do seu olhar. Se sabia, teu olho realmente sorria quando brilhava e a tua dança realmente era mágica. E sabia, porque o seu deleite com a vida não era mero acaso, e a forma que se tornava fácil desfrutá-la ao estar contigo era de verdade um sinal de consciência do pleno, do plano, do aqui e do agora.
E o que me resta aqui e agora é carregar o que tu sempre acalentou com carinho nos braços: a vida. Há muito para se viver, e a única forma de aceitar isso é aceitando a sua partida. A maneira que encontrei de me manter sã é idealizando a tua imagem em uma estação de trem, dançando, sorrindo, plena, me olhando de canto de olho, sugerindo que eu aguarde. Se fosse por consolo, você diria que está ótima, que o tempo é astuto e há de sanar mais essa ferida. Diria que negar tua morte é negar tua vida, e que isso seria o maior dos pecados.
Com muito cuidado, guardo essa imagem naquela parte de mim que abriga minhas saudades crônicas e tento dançar também. O ritmo da música é a dúvida, o desejo do reencontro, a crença ferrenha na tal estação, a vontade de saber quais trens passam e pra onde vão.
A necessidade de pegar o mesmo trem que o teu bate forte, grave, constante. Mas deixo que bata lenta, pra que a dança possa durar mais.
Algum dia espero ter mais respostas, enquanto sei que teu riso continua me acompanhando. Espero que a tranquilidade, que sempre foi sua irmã, tenha te abraçado também nos últimos momentos e que me abrace em algum.

O mundo existe pra que você dance, Aninha. Espero que isso seja verdade, também.

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