terça-feira, 17 de novembro de 2015

Tenho que encontrar um novo nome preferido pra meus contos, porque era o seu. E não tinha nada a ver com você, era só um personagem que sempre existiu e eu o imaginava seguindo por vielas escuras e pensando um milhão de coisas que eu, sozinha, não poderia pensar. Tenho que ir pra um novo ambiente onde você não esteja, algum canto da minha memória escondida, porque ultimamente é o que se repete em um disco arranhado irritante dentro de mim, e eu já ouvi esse disco até o final: o final é péssimo. Tenho que me preocupar menos com o que acontece, esperar menos uma resposta, estar mais aqui do que lá. A minha vida bate de encontro com o que sinto e a máscara de ser alguém suportável se faz perceptível. Tenho que ser menos louca, mas isso significa estar fora de mim e fazer parte do que não se faz. Tenho tanto, sinto tanto, e é uma pena. Comecei uma história, e demorei meia hora pra conseguir escrever o nome do personagem, porque só vinham na minha mente nomes de antigos amores, romances, paqueras, distrações. Pensei na praia:

Jorge segurava a respiração. Dentro de um armário fechado e escuro, ele mantinha os olhos firmes na pequena brecha de luz que se apresentava por entre as portas. Lá fora, a música tocava com um grave absurdo e os seus ouvidos se esforçavam pra ouvir o que Pablo dizia. 
  • A gente tem que ficar aqui por quanto tempo?
A resposta não vinha, e não era surpresa. Acho que nenhum dos dois esperava por ela, só apertavam forte os nós dos dedos suados e frios, que tremiam levemente. Era importante seguir olhando pra frente, fingir que a situação não se sobrepunha à eles de maneira densa e física. As pernas encostadas esquentavam em progressão geométrica, e isso era o suficiente pra que todas as palavras estivessem ali com eles, vomitadas no chão e nas paredes, amassando seus rostos e seus cérebros, despindo-os e enrubescendo-os, circulando o sangue e tornando-os rígidos. Pouco a pouco, as mãos se afrouxam. 
  • Eu não queria estar aqui.


E é aí que eu queria chegar, no ápice do querer, na vontade que se sobrepõe à ideia, na loucura que se sobrepõe à personalidade. Estou acima de minha loucura, estou em cima de mim, sentada em cima da minha barriga e empurrando meu corpo para baixo, prendendo os meus braços e gritando: fique. Fique. Fique. Contendo o bicho furacão que finge ser a minha essência, tentando encontrar a verdadeira linha tênue, brilhante e lúcida que aparece quando me ponho no lugar do outro ou quando leio textos na internet. 
O problema é essa relação da minha loucura com tudo o que me incomoda, com a minha burrice e a minha desatenção, o meu tempo ocioso, o meu desperdício de mim. Em um instante, tudo isso se junta e eu me deparo com uma porta dura e estúpida, que acredito ser eu. A porta do maldito armário, escuro, inquerido mas insuportavelmente desejado. Preciso que não seja eu, preciso que seja Jorge. Preciso que seja praia, preciso que eu não goste da música, que eu não esteja dentro do armário nem fora. Preciso que seja lírico, preciso que seja um poema.

Lhe apresento a falta do novo, a morte do que não nasce
Lhe apresento a tentativa frustrada de se fazer algo
E de ser mais 
Do que eu nem sei que sou

Lhe apresento um projeto mal trabalhado, 
Um abraço desapertado,
Uma presença pela metade 
E uma angústia incessante

Um trabalho árduo e contínuo
Que nunca termina de se concluir 

Um jogo milimetricamente pensado
Que não diverte ninguém 
E que não tem um vencedor
Mas em que alguém sempre perde

O meu projeto de mim, mal feito
Sujo, inacabado e ainda assim roto
Que por algum motivo 
Me parece se relacionar com todas as desgraças que acontecem no mundo

Lhe apresento um poema que não rima
Não faz sentido 
E não tem métrica
Que, em verdade, de poema só tem prosa
Coisa que eu sempre achei covarde 

Mas só pra que de alguma forma isso faça sentido pra mim
Lhe apresento o projeto que eu mais detesto no mundo
Que vivo rompendo com raiva e frustração
E ainda assim, é de valor inestimável pra minha sanidade

Feito por e dedicado à:

Minha loucura.

Nenhum comentário: