quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Chegar em casa. Uma porta, dois cadeados, correntes. Abre as janelas, trancas diferentes. Chave em cima da mesa, compras vão pra cozinha. Guarda o que comprou na geladeira, lava os pratos. Uma varridinha rápida no chão, já que estamos aqui. No automático das obrigações diárias, rotina que desrespeita qualquer conceito de férias, uma memória engraçada me vem à cabeça. No automático das respostas à sinapses nervosas, solto um riso frouxo. O som da minha risada me surpreende com a percepção do que está acontecendo: estou só. Olho em volta e as paredes querem me engolir, estou só. As mãos estremecem, estou só. A vassoura perde o ponto de matéria sólida, só. Desço as escadas para o calabouço reformado, deito na cama e observo o teto baixo, branco, só. O silêncio é o som de estar só e a minha risada desnudou a falta de contato de mim comigo mesma. O automático me mantém estável, tornando tudo um mesmo borrão que não fica. Esqueço as conversas que tive ontem, as obrigações que tenho pra amanhã e o que tinha que dizer agora. Me mantenho nessa inércia sintomática, nesse viver pela metade, se é que existe metade de algo como a vida. O meu quarto, que nem bem é meu, nem bem me quer, presencia as faltas de conversas que tenho comigo mesma e as danças que eu danço sozinha, numa urgência de soltar os diabos que tenho no corpo. De nada me adianta a solidão se não a uso para estar comigo, esse é o lembrete vital que surge na minha cabeça e surte o efeito imediato: acendo um cigarro, ponho uma música e danço mais uma vez, mas dessa vez prestando atenção nos meus passos, nos meus braços, no meu laço e na minha voz. Sinto a urgência da juventude pulsando nos meus dedos, o correr do sangue batendo junto com o tambor, o cérebro se conectando diretamente com o ritmo e entregando o corpo ao seu compasso. Deito mais uma vez, olho pro teto. A apatia que sinto pelo mundo ainda há de se derrubar só pelo existir da música. A minha solidão, essa ilha em que eu moro e sou única habitante, há de se dissipar pra sempre um dia e não haverá mais espaço para a dor que me mastiga, porque ela é acalentada pelo "estar só" e os momentos de quietude. Chego a ter medo por não saber em que gaveta vou guardar as histórias que preciso contar pra mim mesma, histórias que só cabem na cabeça-só. Sigo buscando, sigo só. Vou encontrar ou vai vir ao meu encontro. Até lá, tenho que cuidar de mim. Até lá, eu sou a minha piveta.
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