Acomodou-se da melhor maneira que pôde, empenhando-se em não forçar as molas, fazendo-as rangerem como sempre rangeram desde que se entendia por viva. Esticou as pernas suavemente e debruçou-se sobre a caixa grande, como se fosse um mapa a ser desvendado. Sentindo o mofo penetrar no seu nariz e temendo pela alergia que lhe causaria depois - como sempre -, procurou assoprar a poeira por cima da tampa e levantá-la sem sujar mais os dedos. Não existia uma razão específica ainda em sua cabeça para estar fazendo aquilo. Não era a velha vontade de sensação de nostalgia, ou o desejo de não esquecer do que um dia foi importante: era algo mais. Ela queria sentir, dentro da sua espinha, que estava viva. Queria estar segura de que a onomatopeia contínua em seu pulso e o movimento de suas veias verdes - claramente visíveis - não eram a única prova disso. É óbvio que ela ouvia seu coração bater em compasso - mais forte agora que estava em um lugar escuro e assustador - mas aquilo não era o suficiente: o seu desejo por estar em qualquer lugar fora excluído de seu corpo, sentia-se um peso que vivia acomodado, procurando pequenas coisas que poderiam ser divertidas, mas que não lhe custassem muito esforço; um livro, horas no computador vendo imagens e vídeos inspiradores e deixando-os do outro lado da tela sentindo que nada do que lhe interessava existia na realidade.
Queria sentir vontade, LUZ! E a última coisa que lhe ocorrera fora a sua caixa de recordações, que preparara alguns anos atrás - talvez pressentindo que dias como esse chegariam.
Tentou não respirar fundo pra não tossir, e abriu vagarosamente, tirando a poeira grossa que cobria a parte exterior - por que aquele porão era tão sujo? - e mantendo a cautela pra não acordar ninguém na casa ou, ainda pior, qualquer bicho que poderia viver por ali em baixo.
Começou com as cartinhas: papéis coloridos, canetas brilhantes, letras tortas, grafia errada... As declarações que juravam ser pra sempre, e o beijinho de batom no canto da página. Frases de alguma Clarice Lispector, histórias engraçadas, piadas internas que não lembrava mais. Um mundo de coisas que achava que eram reais e foram caindo diante dos seus olhos... E só conseguira perceber agora. Quanta coisa mais não fora assim?
Continuou com os papéis de bombons de pessoas que jurava amar, o botão de uma camiseta que não era mais sua, um chaveiro que não significava mais o mesmo... dois, três, quatro! Vasculhou pra encontrar lacinhos, óculos quebrados, pedaços de caneta, papel crepom em forma de rosa, ingressos de cinema falhos e um cartãozinho vermelho que um dia já lhe custara muito caro... E hoje em dia era só papel com cheiro de mofo.
Parou quando percebeu que o que mais temia estava acontecendo: tudo aquilo, que já foi o mundo, hoje em dia era tão sem sentido que pensou em jogar fora. E mesmo dando-se conta disso, nem uma lágrima surgiu para consolá-la e mostrar que arrependia-se desse pensamento. Como é que os ponteiros se atrevem a transformar todo esse mar de sentimentos e cheiros em nada?
Fechou a caixa, suspirou, espirrou sete vezes e voltou encolhida para a cama, calculando quantas horas de sono poderia ter até ter que acordar para a aula mais uma vez. Até quando?
Talvez só aconteça comigo, mas agora só sinto medo. Medo de que o que tenho agora se torne nada mais uma vez, e que um dia eu chegue a só sentir o vazio dentro de mim. Sinto como se cada dia ficasse mais opaca, como se o buraco negro se expandisse mais e mais, sugando toda a explosão que eu sentia quando respirava fundo.
Quando sentei na minha cama e vi que começara a chover sem que eu me dera conta, tentei procurar dentro de mim a felicidade por ver as gotas descendo pela janela e só consegui sentir indiferenças. Como isso pôde acontecer?
Eu quero voltar a acordar sorrindo, estremecendo com a conversa que tive ontem a noite e me sentindo insegura sobre como eu vou agir a partir de então. Estou em um dos anos mais importantes da minha vida até agora e só o que eu sinto é que está tudo igual - ou mais sem graça. Onde está a luz que eu sentia e emanava?
E quando as estrelas não me causarem mais arrepios? Pra onde é que eu vou? Como é que eu vou sem você?
E se meus castelos não forem mais de areia? E se não existirem mais castelos?
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