sábado, 4 de fevereiro de 2012

o porão sem graça

Ela caminhou até o seu destino nas pontas dos pés, tentando fazer com que o assoalho não rangesse como sempre, ou que o som do seu tênis batendo na madeira não se escutasse. Tinha apenas um celular na mão pra iluminar o caminho, e a chuva não ajudava com a localização. Quando finalmente chegou no fim do corredor, conseguiu visualizar melhor o cenário que lhe era tão familiar na infância: o sofá verde mofado, a cortina roxa agora com machas cinzas, e o caçador de pesadelos que um dia era algo mais do que um circulo com alguns fiapos coloridos pendurados, presos sabe-se lá como ou porquê. E, no canto direito, ao lado da mesinha torta, a caixa. Dentre todas as coisas ali, era a que se encontrava mais fiel à suas memórias: mantinha a tampa cor de madeira e o resto coberto de fotos coloridas de revistas diversas que ela mesmo colara em uma tarde de chuva como aquela. Tocou com as pontas dos dedos pra ver se sentia algum arrepio, mas não... Suspirou e carregou-a até o sofá.
Acomodou-se da melhor maneira que pôde, empenhando-se em não forçar as molas, fazendo-as rangerem como sempre rangeram desde que se entendia por viva. Esticou as pernas suavemente e debruçou-se sobre a caixa grande, como se fosse um mapa a ser desvendado. Sentindo o mofo penetrar no seu nariz e temendo pela alergia que lhe causaria depois - como sempre -, procurou assoprar a poeira por cima da tampa e levantá-la sem sujar mais os dedos. Não existia uma razão específica ainda em sua cabeça para estar fazendo aquilo. Não era a velha vontade de sensação de nostalgia, ou o desejo de não esquecer do que um dia foi importante: era algo mais. Ela queria sentir, dentro da sua espinha, que estava viva. Queria estar segura de que a onomatopeia contínua em seu pulso e o movimento de suas veias verdes - claramente visíveis - não eram a única prova disso. É óbvio que ela ouvia seu coração bater em compasso - mais forte agora que estava em um lugar escuro e assustador - mas aquilo não era o suficiente: o seu desejo por estar em qualquer lugar fora excluído de seu corpo, sentia-se um peso que vivia acomodado, procurando pequenas coisas que poderiam ser divertidas, mas que não lhe custassem muito esforço; um livro, horas no computador vendo imagens e vídeos inspiradores e deixando-os do outro lado da tela sentindo que nada do que lhe interessava existia na realidade.
Queria sentir vontade, LUZ! E a última coisa que lhe ocorrera fora a sua caixa de recordações, que preparara alguns anos atrás - talvez pressentindo que dias como esse chegariam.
Tentou não respirar fundo pra não tossir, e abriu vagarosamente, tirando a poeira grossa que cobria a parte exterior - por que aquele porão era tão sujo? - e mantendo a cautela pra não acordar ninguém na casa ou, ainda pior, qualquer bicho que poderia viver por ali em baixo.
Começou com as cartinhas: papéis coloridos, canetas brilhantes, letras tortas, grafia errada... As declarações que juravam ser pra sempre, e o beijinho de batom no canto da página. Frases de alguma Clarice Lispector, histórias engraçadas, piadas internas que não lembrava mais. Um mundo de coisas que achava que eram reais e foram caindo diante dos seus olhos... E só conseguira perceber agora. Quanta coisa mais não fora assim?
Continuou com os papéis de bombons de pessoas que jurava amar, o botão de uma camiseta que não era mais sua, um chaveiro que não significava mais o mesmo... dois, três, quatro! Vasculhou pra encontrar lacinhos, óculos quebrados, pedaços de caneta, papel crepom em forma de rosa, ingressos de cinema falhos e um cartãozinho vermelho que um dia já lhe custara muito caro... E hoje em dia era só papel com cheiro de mofo.
Parou quando percebeu que o que mais temia estava acontecendo: tudo aquilo, que já foi o mundo, hoje em dia era tão sem sentido que pensou em jogar fora. E mesmo dando-se conta disso, nem uma lágrima surgiu para consolá-la e mostrar que arrependia-se desse pensamento. Como é que os ponteiros se atrevem a transformar todo esse mar de sentimentos e cheiros em nada?
Fechou a caixa, suspirou, espirrou sete vezes e voltou encolhida para a cama, calculando quantas horas de sono poderia ter até ter que acordar para a aula mais uma vez. Até quando?

Talvez só aconteça comigo, mas agora só sinto medo. Medo de que o que tenho agora se torne nada mais uma vez, e que um dia eu chegue a só sentir o vazio dentro de mim. Sinto como se cada dia ficasse mais opaca, como se o buraco negro se expandisse mais e mais, sugando toda a explosão que eu sentia quando respirava fundo.
Quando sentei na minha cama e vi que começara a chover sem que eu me dera conta, tentei procurar dentro de mim a felicidade por ver as gotas descendo pela janela e só consegui sentir indiferenças. Como isso pôde acontecer?
Eu quero voltar a acordar sorrindo, estremecendo com a conversa que tive ontem a noite e me sentindo insegura sobre como eu vou agir a partir de então. Estou em um dos anos mais importantes da minha vida até agora e só o que eu sinto é que está tudo igual - ou mais sem graça. Onde está a luz que eu sentia e emanava?
E quando as estrelas não me causarem mais arrepios? Pra onde é que eu vou? Como é que eu vou sem você?
E se meus castelos não forem mais de areia? E se não existirem mais castelos?

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