quarta-feira, 1 de setembro de 2010

res pirar

Abaixo a cabeça e inspiro. Inspiro tudo isso que me faz tossir, e tudo isso que me faz doer e sentir o coração saltar sem aviso. Vou inspirando, bem devagar, tudo aquilo que fez e faz falta no meu interior. Cheiro de roça. Vou inspirando essas mágoas e músicas que já me fizeram tão bem e tão mal. E vou inspirando os gostos e cheiros, que sempre se prendem no meu bem-querer.
Inspiro tudo isso - talvez mais - e deixo tudo preso por algum tempo. É que parece que não se faz o valor quando as coisas passam muito rápido, como quando um flash de lembrança corre pelo olho, e acaba pairando no canto da memória - já um pouco distorcida - e você fica se perguntando o que aconteceu. Prendendo a respiração, parece que se absorve mais ar.
Prendo até que minhas bochechas fiquem vermelhas, e os olhos comecem a esbugalhar. Então, no melhor dos alívios, solto. Solto todos os gritos que engulo - e me arrependo de ter engolido - e todas as conversas que gostaria de ter tido. Solto as palavras que me faltaram te dizer, e as verdades que eu guardo nas lentes que não uso, mas que... céus! como deveria usar!
Vou soltando, não sei se rápido ou devagar, e fecho os olhos, no intuito de expirar tudo o que sobrou de morto em mim. Aquele frango, e aquela coca-cola. Aquela nota. Ah, quase me esqueço: aqueles abraços que não vieram, que se materializaram em uma esperança morta que se prende em mim todos os dias.
E, enfim, quando sopro todo ar que existe e que não existe em mim, volto a respirar normalmente.
Ando suspirando muito ultimamente.

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