terça-feira, 1 de março de 2016

14 again - mal escrito e mal sentido


Lembro de como era. Ouvir pra onde estávamos indo e respirar fundo, fechar os olhos, ir ao banheiro, lavar o rosto com as lágrimas e grudar a máscara com cola quente. Vestir a roupa que não me cabia, os sapatos que mutilavam meus pés, o penteado que puxava cada fio com a intensidade de tortura, que não termina por arrancar nada mas faz com que todo o seu corpo se arrependa da humanidade por ter criado xuxas. Eu nunca consegui explicar como não eram só os sorrisos de plástico, os quitutes caros e os copos vermelhos, mas toda a minha história: cada pedaço da minha vida torta que produziu o meu sorriso “contagiante”, a minha especialidade ou a minha coragem de ser o que sou, a conexão com meus pais, com a casa em que eu cresci, os espíritos que sussurravam no meu ouvido e as tantas limpezas espirituais pelas quais passamos na busca de livrar-nos de um carma familiar que nos fez permanecer juntos. Eu poderia começar a te falar do dia 14 de Julho de 1995 até o dia de hoje, e poderia te explicar o que eu sinto e porquê eu sinto quando tomo um mojito na barra. E faria todo o sentido, mas ainda assim faltaria um brilho no fundo do seu olho que existe nos olhos de quem já perdeu alguém, de quem já se sentiu um peixe fora d’água e teve que nadar na terra pra poder continuar respirando. A compreensão que só existe dentro de alguém que se trancou num quarto e deixou o choro tomar conta, alguém que questionou cada ponto de sua personalidade e ainda assim a defendeu com unhas e dentes, alguém que já sentiu o rasgar das unhas da injustiça, alguém que já cortou o próprio pé pra caber nos sapatos. Alguém que compreende a tristeza profunda e real e que ainda pode senti-la quando fecha os olhos. Só assim pra entender o que eu sou, só assim pra se aproximar do que eu sinto quando o dia está perfeito e a cerveja é Stella Artois. Quando olho pra você, é como se estivesse à um quilometro de distancia e houvesse um buraco sem fim entre nós e para que possamos nos ouvir tenhamos que gritar o máximo que podemos, a ponto de estourar os pulmões, e ainda assim, várias palavras se perdem no meio do caminho. O bonito era o esforço do grito, a vontade de saltar o buraco, as mãos esticando-se ao máximo pra se tocarem. O bonito era o amor, que ainda existe em mim e que me grita nos sonhos, no café da manhã, na hora de deitar na cama e encarar um teto estupidamente branco e baixo. O sentimento que pra você se resume a se encontrar em um bar numa sexta feira a noite e se olhar nos olhos, um abraço apertado, a conformidade em si sendo a forma mais bonita de dizer “eu não quero mais te fazer mal, eu não posso mais te fazer mal”. O seu é o sentimento lindo de quem nunca viu o amor fugir pela porta dos fundos levando tudo o que você tinha. O meu é o sentimento de chorar abraçada em um travesseiro quente numa noite úmida e grunhir, gemer pelo seu corpo de volta, seu sorriso, a ilusão de que você nunca poderia me fazer mal, a sincronia de não precisar dizer nada, a necessidade de ouvir sua voz cantando Bob Marley pra que tudo fique bem. Eu não tenho mais medo de te perder, mas me perdi quando você foi embora. E diante de tudo o que você fez, diante dos sentimentos e traições que me restaram nas costas cansadas, eu peço a qualquer força que possa me ouvir pra tirar você daqui, de dentro de mim. Quando o mundo inteiro te diz que não é possível, o que o coração ainda quer dizer? 

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