quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

madrugada lúcida



As luzes se misturam e correm pela noite, as ruas estão turvas e vazias, a madrugada é incrível, a única que pode normalizar o grito de um vagabundo, o uivar de uma loba perdida, o beijo gritante de irmãos de coração. Pé atrás de pé, cavando as ruas de uma cidade que você aprende a amar porque consegue se ver fugindo nas esquinas, caindo nos buracos, cuspindo nas pedras, jogando os retalhos no chão e fazendo xixi no mar. Um viaduto vazio como o que você sente por dentro, uma noite que precisa se aglomerar aos poucos pra que ninguém se perca, e ainda assim, só o que se vê são perdidos. Uma cidade que não sabe dizer não, assim como você nunca soube, e lá vem outro copo. Uma relação de irmandade com o líquido amarelo que cava o seu estômago como a chuva cava os buracos no chão, que desnorteia e molha e embaça o caminho de quem nem sabe pra onde está indo. Um rio que não é nem rio nem vermelho, um coração que bombeia veneno fingindo bombear o sangue rubro que deveria ser 70% do seu corpo. E é claro que só uma mente chapada pode fazer tantas analogias baratas pra poder se justificar e embelezar um pouco mais o que só é uma vaidade imbecil provocada por distúrbios demais e construções de menos. Um texto por semana e isso há de se justificar, eu tenho tanta poesia aqui dentro… “A vida comeu meu coração e ainda me disse que é assim que se faz um grande poeta”. Faltou dizer de onde vem o poema, porra. De onde vem o nó na garganta e pra onde vai o vômito que eu nunca vomito. Quero musicar as ruas, "aproximar o cantar vagabundo dos que zelam pela beleza do mundo”, mas quem são eles? Porque é tão bonito ser inútil? Eu já sei a resposta e você também, mas continuamos dando voltas suicidas ao redor da lâmpada, apaixonados pela cegueira vazia que, no final das contas, é só uma invenção de Thomas Edison (ou Charles Bukowski, srs). Ah, se eu conseguisse acessar o medo que sei que tenho… Será que ficaria apavorada, trancafiada na casa escura à sete chaves? Ou será que choraria os prantos todos de uma só vez e sairia na rua com sede de suco de laranja? É tarde demais pra mim? Eu ouvi dizer que ela quebrou o seu coração mais uma vez, eu espero que dessa vez valha de alguma coisa. Eu tenho todos os meus corações guardados no meu quarto, conservados em potinhos com formol. Não me serviram de muita coisa, só aprendi com mais destreza todo o processo de arrancá-los do peito e guardá-los como pequenos souvenirs dos momentos em que a realidade era suficiente por si só. Ah, se eu soubesse o que sei, que aprender a viver com a realidade não se inicia num órgão duro e teimoso como o coração… Mas eu só sei que to com larica e que não tem nada na geladeira. 

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