- Não espera que acreditemos nisso. - cuspiu a contorcionista.
Tina não tinha pensado naquela resposta. Toda a sua vida imaginara que, uma vez que houvesse conseguido escapar, tudo estaria resolvido e ela alcançaria seus sonhos. Quando os integrantes do grupo mostraram-se resistentes a acreditar nela, não conseguia deixar de sentir-se uma garotinha boba e incapaz.
- Eu não sei o que fazer para que acreditem... Eu... Não achava que seria desse jeito.
(...)
E então ele apareceu: Berry, o apresentador. Vestia um sobretudo tão negro quanto seu chapéu, e tinha nas mãos os chicotes que usava para guiar a carruagem. Tina sentiu seu rosto corar. Era ele, o motivo pelo qual ela começara tudo aquilo, o homem sorridente e forte que ocupava seus sonhos. Sentia que ele não lhe faria mal, sentia que era só ela falar, e ele a entenderia, e poderiam ficar juntos e satisfeitos.
Mas o olhar que ele lhe deu não era o olhar caloroso das apresentações. Quando ele analisou-a, sentiu-se nua e fraca, estúpida. E quando a voz dele reverberou pela carruagem, sabia que aquele havia sido outro engano:
- Deixe-me adivinhar. Você tinha esperança. Esperança de que fosse mais do que as pessoas ao seu redor. Você achava que era especial, assim como nós. Você planejou por anos conseguir escapar para cá e se sentir em "casa", mas nem sabe o que isso significa. Nem sabe de onde queria escapar, se lhe perguntarem. Você achava que nós te levaríamos a um mundo mágico, onde suas aventuras começariam, e causaria inveja nas pessoas fúteis da sua cidade. E agora que está aqui, você nem sabe o que dizer.
"Sabe o que é o circo, menina? Sabe alguma coisa sobre a vida? Sonhos e esperanças são como amigos traiçoeiros. Eles não te levarão para nenhum lugar além da decepção. O circo é exatamente igual: nós enganamos vocês. Nós mentimos, alimentamos desejos e aspirações para depois irmos embora e abandoná-los na mesmice de suas vidas. Fazemos com que acreditem que existe purpurina no mundo e que está em vocês, enquanto vemos o quão idiotas são.
"Pegue os seus sonhos e vá embora, garota. Esse é o melhor presente que posso lhe dar. Aqui não é um lugar pra você. Não existe "lugar" pra você, enquanto estiver escapando do que tem para viver. Pare de fugir da vida e aceite quem você é, e da próxima vez que aparecermos na sua cidade, entenderá mais quem é o palhaço do que qualquer outra criança no pátio.
Acho que eu entendi. E agora?
Um comentário:
Agora fodeu.
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