Ele não sabe responder a pergunta do professor. Não se imagina fazendo nada do que lhe é pedido no futuro. Já não sabe mais porque estar aqui, quando "aqui" pode ser qualquer lugar. O suor frio surge tão rápido quanto os olhares irrequietos da sala, mas seu físico não faz muita diferença no momento.
Em instantes como esses, nada é real. O mundo torna-se apenas um espaço ignorável, enquanto sua imaginação corre para outras cenas. Imediatamente, ele consegue ver-se no dorso de um dragão vermelho, queimando os poemas velhos que ela tinha lhe escrito. Consegue vê-la ali, ajoelhando-se por perdão, arrependendo-se, amando-o fervorosamente. Quanto mais queima e crepita o fogo, mais ela morre dentro de si, e o suor frio transforma-se em transpiração pelo calor. O universo é todo laranja e vermelho, e ele quase consegue sorrir. Quantas pessoas se importariam com isso agora?
Ele não quer responder. Ele não quer sair de seu mundo rubro, não quer abandonar o seu dragão imponente, não quer se dar conta de que vai ouvir a risada dela quando ele disser que não sabe. Não quer lembrar de quando riram juntos de alguém com ele.
- 1960. Ou mitocôndrias, e respiração celular. Ou raiz quadrada de dois. Não faz muita diferença, né? É só eu empinar o nariz e mostrar que eu tentei, que não estou desperdiçando o seu tempo ou o meu. Isso não é mais um discurso sobre como tudo é inútil, é um discurso sobre mim. Eu não vou responder nada enquanto você souber a resposta. Não é medo de errar e eu não estou falando com o professor, apesar do meu olhar estar na direção dele. Mas agora que ficou claro, o que você acha de dragões? O que você acha do fogo, da lava, e da bílis do mundo? Ele pode ser desprezivelmente pequeno quando você está sozinha no seu quarto, não é? Eu não vou responder enquanto você souber a resposta. Eu não sou só uma imagem, apesar de mil e uma estarem passando pela minha cabeça agora. Mas nada disso importa. Eu tinha que responder alguma coisa estúpida agora, e você tinha que ter rido. Então vamos, repita a pergunta e façamos os nosso papéis. Ninguém tem tempo, né? Ninguém tem tempo pra ser de verdade. Compre outro copo de plástico e encha de mentiras, sem medo de que caia no chão e quebre. Beba tudo e jogue fora depois. E quando jogar, não esqueça de fingir que se importa.
3 comentários:
Sei que não é assim, mas me senti dentro desse texto de alguma forma.
Thissssssssss so much
é porque isso diz muito sobre uma parte de mim, a parte de mim que tá em vocês..
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