E, de verdade, quase que não sobra o cheiro de bolo de chocolate que eu tanto gosto. Não sobram olhos que me lembram o que eu já vi e nem sorrisos de anos atrás.
Eu sei, meus caros, que eu nem sou tão velha assim. E se sou, os anos são poucos, nesse mundo externo. Quinze anos e milhões de memórias não cabem em contas.
Não posso dizer que tudo se foi. Ainda gosto de chuva, e de doces e de sorrisos. Ainda gosto de pular e de filmes como aqueles. Ainda sinto o cheiro de bolo em algumas tardes, e ainda amo estourar plástico-bolha.
Mas é que não dá mais. Esses prazeres tão curtos e tão extensos me fazem bem, mas não é o suficiente. Estou sentindo aquela antiga falta. Aquele gostinho de saudade no canto da boca, de alguém que nunca existiu de verdade.
Gostaria de até hoje ver aquela menina com quem eu subia na árvore e aquele menino de quem nem me lembro o nome. Hoje em dia meus relacionamentos mais longos tem três anos, ou quatro.
Estou sentindo falta. Falta de uma coisa que eu nunca tive: longa data. E é impossível ter isso por agora, porque eu - na minha ignorância - sempre amei aqueles que com o tempo se vão.
É tarde demais para querer voltar a ter o que eu não tive, e é quase tarde demais para explicá-lo.
Peço, a vocês que me lêem que só enquanto possam, não me abandonem. Que passem as chuvas, os bolos e os plásticos-bolha, mas que vocês fiquem aqui, aproveitando cada um. Só enquanto possam.
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