Acredito que essa carta não vá além da minha gaveta, mas ainda tenho esperanças de me encher de coragem e postá-la no correio.
É que preciso desabafar, e sei que você ainda pode me ouvir.
Os tempos mudaram, nossas crianças cresceram, e estão indo bem na escola. Comprei um carro com a herança que você me deixou, e posso levá-las e buscá-las todos os dias. Não existe mais aquela coisa de ir caminhando... segurança.
Mas o que eu vim lhe falar não tem a ver com nossos filhos, que estão mais do que bem. Vim falar de mim. De nós dois.
Ah, querido... Como você pôde? Como pôde ir pra essa loucura vermelha e quente que é a guerra, enquanto eu fiquei escondida no porão, com um bebê e uma garotinha de três anos? Como pôde, meu amor, ser tão descuidado, e morrer assim? Ah, meu querido...
Se você soubesse! Ando vasculhando os pedacinhos de você nas fotos, pra poder me completar. Leio os artigos, um por um, só pra sentir seu cheiro de jornal. Faz anos que vou no guarda-roupa só pra ver seu casaco. Sentir seu perfume.
Seus retratos me arrancam lágrimas, querido. Sinto como se mais de mil anos tivessem se passado, quando só foram doze. E eles nem sabem... Os anos. Nem sabem o quanto se arrastam, sem pedir permissão.
Meu amor, volte. Não sabe o quanto eu preciso te sentir aqui, do meu lado, mais uma vez. Por favor, dê um jeito, um daqueles que você sempre deu, e venha me ver. Venha enxugar essa tristeza crônica que se instalou no meu travesseiro. Venha e desarrume a cama, pelo menos uma vez.
Estou precisando de uma dose de você. Mesmo tendo dito tantas vezes que era o tal e o qual, eu sei que você me amava. Eu sentia, a cada gosto de omelete seu. A cada noite, e a cada dia. E a cada trago, e a cada gole.
Por favor, meu senhor. Você não me ensinou essa parte da vida, e eu não posso voltar a ser o que era. Não posso voltar pra aquele lugar. Não posso deixar tudo o que eu sei. Tudo o que você me ensinou.
Volte para mim antes do pôr do sol, porque isso está me matando.
Amorosamente, sua.
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