domingo, 20 de junho de 2010

Eu lembro bem daquele dia.
Eu estava assustada. Eu fechava meus olhos e via você, e todo o terror que você me passou vinha de novo. Eu congelava por dentro, podia sentir aquela coisa fria se espalhar pelo meu corpo. Medo.
Lembrava de seus "amigos", do seu punhal - ou seja lá o nome que você dava pra aquilo - e de você. De seu sorriso cínico, assustador. Lembro dos seus olhos. Eles me perseguiam, não é?
Aquele dia. Eu tinha achado que você tinha ido embora. Eu tinha achado que eu tinha ido embora. Mas você me achou. O que você queria me mostrar? Que seus olhos realmente me perseguiam? Eu já sabia disso. Eu ainda posso te ver, ainda posso vê-los. Ainda sinto.
Eu saí. Eu já estava desconfiada. Assustada. Apavorada. Eu me lembro bem. Eu não esqueceria.
Eu abri a porta, ia sair. A quanto tempo eu não sentia o sol, com a certeza de que você não estaria ali? Muito tempo... Mas a minha certeza se esvaiu quando eu baixei os olhos e te vi. Você estava sorrindo. Sorrindo seu sorriso cínico, assustador. Aquele sorriso. Aquelas lembranças. Aquela faca. Sorrindo.
Eu me apavorei. Você viu. Eu corri. Tranquei. Chorei. Tudo voltava. Eu achei, pensei. Pensei que você nunca me esqueceria. Que eu nunca seria livre. Achei que você não ia desistir nunca. Eu não sabia o que fazer. Não sabia que tudo o que você queria era me assustar.
Porque no final, tudo o que você era é um psicopata. Você só saberia me assustar. Você gostava disso. Você sabia que isso me faria ficar. Submissa, assustada, sua.
Você sabia, não é? Era o que você queria. Era o que você era. Era o quê.
E eu me sentia morta. Pensei que nunca mais viveria. Pensei que meu filho seria órfão, pensei no que ele sentiria, no que ele estava sentindo. Pensei no que aconteceria com o menino a quem eu tanto amava. Você sabia que eu pensava nisso.
E é por isso que todos os dias, quando eu saía, você estava ali. Sorrindo. Sua faca sorrindo pra mim no seu bolso. E eu, chorando. Eu chorava pelos poros. Você podia ver o medo me matando. Você me torturava com aquele sorriso.
Eu achei que todos os vocês estariam espalhados pelo mundo. Sendo chamados de mestre, sendo idolatrados. Enquanto eu me esconderia na sombra da ameaça. Me esconderia, ou morreria. Era isso o que eu pensava, temia. Pensava, logo temia.
Mas eu não podia mais. Não podia me trancar, não podia chorar. Eu não viveria assim pra sempre. Se fosse pra ser assim, então viver já não me importava. Eu levantei. Eu encarei você no pensamento. Destranquei a porta no intuito de ir até você. E lhe enfrentar de uma vez. Lhe dizer o que queria no tom que queria. Eu era uma mulher. Uma pessoa. E você era um assassino. Eu tinha que lutar por mim, meu filho, e se necessário, minha morte.
E então, você sumiu. Você e seu sorriso. Vocês sumiram. Da minha vida, dos meus olhos, das minhas lágrimas, da minha casa, do meu filho, de mim, da minha cabeça.
Você não está mais ali, Ali.


Ou está?

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