sábado, 19 de junho de 2010

A carta

Caro amigo.
Devido às novidades, lhe escrevo com a mão esquerda. Minha mão direita me abandonou. Suponho que seja por cansaço, tristeza, e inveja da outra. Não sei exatamente. Os médicos me explicam algo totalmente diferente. Dizem que eu a danifiquei na adolescência. Fiquei ofendido. E eu lá sou de sem-vergonhices? Sempre fui direito, porta aberta o tempo todo. Mas me disseram que não era isso também. Me disseram que eu as estalei demais. Mas acho incompreensível tirar das mãos sua vontade-própria, culpando-me de tudo. Qual é o problema com a idéia de que ela simplesmente não aguenta mais escrever, cortar, limpar, mexer? Não sei. Os médicos só dão vida ao cérebro e ao coração, mas estes não fazem o corpo sozinho, não é?
Imagino que você não entenda nada do que digo. Lhe explico melhor: há alguns anos que minha mão direita dói nas juntas. E aos poucos, a tal dor foi tornando-se importante. Até o ponto em que qualquer movimento doía como um osso quebrado.
Tanto que imaginei ter ossos de vidro, ter quebrado todo o esqueleto sem impacto ou choque. Mas me levaram ao médico. E esse me receitou fisioterapia.
O amigo sabe o que é fisioterapia? Pois lhe conto: uma mulher vem à sua casa e mexe com a parte mais dolorida do seu corpo, em movimentos forçados e duros. O senhor acha que isso poderia me ajudar?
Que nada. Minha mão doía cada vez mais, a cada movimento um grito. Tão forte que comecei a treinar a mão esquerda novamente. Lembra, amigo?
Lembra que eu era canhoto? Lembra da régua dos professores? Doía, amigo. Tanto que virei ambidestro. Você lembra? Ganhava apostas com aquilo. Ah, tempos que não voltam mais.
Tanto usei a mão direita, que quase esqueci como se usava a esquerda, amigo. E tive que começar tudo de novo. Não é tão difícil, só cansativo mesmo.
Então amigo, quase que me perco nos detalhes. Lhe digo: um dia pirei. Tanto me doía a mão, e tanto me doíam os movimentos, que - rabugento que sou - expulsei aquela senhora fisioterapeuta da casa e declarei pros meus filhos: aquela loucura não fazia mais. Que fossem procurar um médico de verdade, que consertasse minha mão de uma vez, que o vidro poderia me cortar uma veia.
Meus filhos primeiro riram. Disseram que a biologia me fugira da cabeça. Me disseram que vidro não era osso, e que eu estava delirando. Mas com o tempo, viram que minha mão se inchava. E pararam de rir. Alguns até acharam que eu ia morrer, derrubavam lágrimas.
Não lhe digo que achei que ia ficar vivo. Achava que a morte me puxava pela mão, e por isso que me doía tanto. Mas me disseram que era coisa de coração delicado e inocente, que eu ia viver por muito tempo. Esses sim, me puxavam pela mão. E eu urrava de dor, amigo.
Pois bem. Me levaram ao médico. Esse médico era diferente, pois. Era velho, gasto, nas lentes se refletiam histórias. Na barba, se via respeito. Nos dentes, cuidado. Nas mãos, confiança. E eu sabia que ele iria me ajudar.
Pois. Ele me examinou. Tocou minhas mãos. Analisou. E sabe, amigo, ele conseguia fazer que não doesse. E aquilo não era fisioterapia. Era pessoa.
Algumas pessoas, você logo vê, tem delicadeza inconfundível. Já lhe aconteceu? Algumas pessoas tem um dom no coração. Já viu? Aquele médico, por exemplo. Amigo, lhe digo com toda a certeza: se aquele doutor torcesse minha mão, eu dor não ia sentir. Era que em seu coração ele guardava minha dor, entende? Não estou falando de amor, estou falando de algo sem nome. Dizem ser carisma, mas o dicionário nega. Não sei exatamente, amigo. Eu chamo de consensivel.
Como eu dizia. Ele, o médico, me disse que eu tinha artrites. Você já teve, amigo? Explicaria o fato de você não me escrever... Você não era canhoto, me engano?
Se não teve, ou não sabe, lhe conto: Artrites é uma doença que se dá pela gastura das cartilagens da mão, amigo. E imagine porque que as minhas estão gastas?
Você se lembra, amigo, deve se lembrar. Eu tinha aquele vício estranho de estalar os dedos. Lembra? O tempo inteiro. Croc, Croc, Croc. Estalava até a parte superior. Não lembra?
Quando estava com vergonha, medo, saudade, angústia, sono ou quando estava feliz: sempre estalando os dedos.
O médico me disse: aqueles croc's estragaram a minha mão, amigo.
Você deve se perguntar: por que só a mão direita? Se não se perguntou, eu me perguntei. E perguntei ao doutor. Ele me disse que eu as usei muito mais. Mas não me disse que estavam cansadas. Ele não podia deixar de ser médico, claro.
Me passou alguns remédios, mas minha direita não uso mais...
E isso que se deu, amigo. Agora lhe escrevo com a esquerda, essa letra diferente tem explicação. Não só lhe escrevo: corto as cebolas, o queijo e as conversas com esta mão. E eu espero não viver o bastante para que elas se cansem também, amigo. Espero que elas se mexam sem dor, no meu último suspiro. Que nós dois sabemos que não está longe.
Não está longe, amigo. E é por isso que lhe escrevo. Porque me lembro que você foi uma das coisas que não quero esquecer. E não quero que você se canse de mim, como a minha mão direita. Quero que você se junte a minha mão esquerda, e que escrevamos juntos.
Manda-me uma carta? Eu te espero.


Com carinho, Corral.

Um comentário:

sarah disse...

onde vc tira esas historias? esa fantasía maluca do médoco velho que é pessoa? vc é fantástica, maravilhosa e escreve feita deusa