Respirou fundo. O espelho brilhava a sua frente. Ela sempre se via tão linda da cintura pra cima! Tão superficial, virasse de lado, era feia.
Encarou-se. Seus olhos eram perfeitamente desenhados, brilhantes, feitos pra atrair quem quisesse. E eis que ela queria aquilo que não podia. A maçã inalcançável, com gosto que não lhe era típico.
Mas a serpente tinha ido lhe dar desejo sem possibilidades, e ela estava enfeitiçada pelo fruto impossível.
A esse ponto, seus olhos brilhavam escuros, e ela sorria. Seu sorriso era angelical, os dentes desalinhadamente lindos, a boca feita pra seduzir com palavras e risos quem ela desejasse.
E a tal maçã não parecia ter vontade de descer até ela, e seu corpo era muito fraco e feio para subir não tão majestosa árvore.
Ficou por anos ali, sentada na frente do espelho, na frente da árvore, olhando pra si mesma, olhando pra maçã, e a serpente a lhe segredar coisas afiadas, com voz de sussurro obscuro.
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