quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

o extraordinário é demais

não foi andando pelo parque da cidade que eu consegui enxergar as coisas bonitas da vida, e não foi comprando um balão colorido que eu fiz uma criança feliz. eu esperei muito tempo - talvez tempo até demais - pra que uma dessas coisas mágicas aparecessem por aqui, e que eu pudesse sorrir pra elas, mas parece que o correio está alguns anos atrasado, ou o meu cérebro esqueceu de me lembrar dessas partes.
eu esperei por alguém o tempo todo, sem saber que eu estava cheia de alguéns ao redor, e eu só os negava e os repelia, porque pra mim ninguém era suficiente.
a verdade é que eu sempre expulsei o suficiente de perto de mim, como uma dessas pedrinhas no sapato que a gente só se sente bem depois de expulsar de vez. eu sempre expulsei as coisas que eu mais achei precisar - e agora eu não tenho a menor ideia do que eu preciso ou não.
é muito mais complexo do que ir se guiando pelo cheiro de filmes franceses, porque no final você não vai achar uma lanchonete antiga e sem amor. é muito mais complexo ir atrás do que você acha lindo, porque você nunca sabe se é isso o que se pode desejar, porque você nunca sabe o que é isso de verdade.
e agora eu parei pra perceber que eu nunca fiz as coisas que eu mais queria quando era pequena. eu nunca mergulhei com peixes, eu nunca entrei na barriga de um canguru, nunca voei e nunca provei uma torta de morango com chantilly, nem participei de um programa de televisão. eu nunca assisti o por do sol com o meu pai, nunca morei em uma floresta, muito menos comprei um óculos de visão raio-x.
e pode ser que eu ainda seja muito nova, que ainda haja tempo pra isso, mas as coisas vão mudando, e as imagens lindas vão se tornando cada vez mais impossiveis, porque o necessário vai se tornando cada vez maior, e eu só vou tornando as piores coisas mais necessárias, sempre.

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