quinta-feira, 12 de julho de 2012

entrelinhas

Tina trancou a porta e encostou-se sobre o carvalho solene. Aquela não era a primeira vez que precisara fugir para o seu pequeno conforto privado, e temia que não fosse a última, mas dessa vez era diferente. Ela precisava se concentrar e fazer o que tinha de ser feito.
Ajoelhou-se sobre o tapete e buscou a irregularidade, pressionando o chão com as pontas dos dedos, até ouvir o pequeno e familiar estalido. Tampouco era a primeira vez que ela abria aquele pequeno alçapão - e isso não a fazia nem um pouco mais feliz.
- Maldito seja, vamos, levante!
A madeira pesada resistia, e algumas farpas entraram em suas unhas. Por um instante pensou que teria que inventar uma desculpa para o estado de suas mãos de moça, mas logo esqueceu do assunto. Não tinha tempo. Eles estavam chegando, e dessa vez ela iria acompanhá-los.
Finalmente abriu o esconderijo escuro: estava tudo lá, como da última vez que o abrira. A pequena caixa marrom, a grande caixa verde, o cinto de couro gasto, o medalhão e o punhal.
Quantas vezes tinha se deparado com aqueles itens? Quando aquilo tinha começado? Ela não sabia. Sabia que o tempo passava, e tratou de fazer tudo o mais rápido possível. Apanhou as caixas e os objetos e começou a aprontar-se.
Primeiro despiu-se daquelas vestes pesadas, levando um tempo a mais para abrir o corpete. Era um de seus momentos preferidos: desamarrar aqueles cordões infernais e respirar fundo, sentindo suas costelas se expandirem o quanto realmente deveriam. Suspirou mais uma vez. Guardou tudo na caixa verde e abriu a marrom.
Lá só se encontravam um par de calças e uma grande bata - grande demais para ela -, ambos negros e leves. Caíam-lhe como seda pura, deslizando sobre sua pele. Prendeu o cinto à sua cintura, com o punhal amarrado á esquerda deste. Atou os cabelos louros em um rabo-de-cavalo alto e mirou-se no espelho. Aquela era ela. Sem vestidos, veludos e - principalmente - corpetes. Podia ver seus olhos brilharem enquanto prometia a si mesma que dessa vez conseguiria.
Por último, ajoelhou-se para mirar o medalhão mais uma vez. Era de ouro puro, e tinha a forma de uma contorcionista com os pés na cabeça. Tina apertou-o contra o peito e prendeu em sua corrente também dourada.
- Isto é por você.
Fechou as duas caixas e guardou-as onde estavam, junto com uma carta pra Linda. Sua irmã era astuta, sabia que Tina lhe deixaria algo, e iria procurar por todos os cantos até encontrar o que quer que fosse.
Era hora de ir, podia ouvir o alvoroço das ruas. Calçou as botas e olhou pela janela: lá estavam eles, rindo, fazendo acrobacias, jogos e fazendo piadas para dez crianças, que assistiam com os olhos brilhando.
Olhou para o resto da cidade. Sim, aquele fora por muito tempo o seu lugar. Por mais que negasse, ela já pertencera aquilo, já fora como um deles e sabia que um dia sentiria falta. Mas agora já não havia mais volta. Depois de cinco anos tentando e arquitetando aquilo, não poderia voltar atrás. E - para a tristeza de seus amigos e sua família - tampouco queria.
- Me desculpem.
E era tudo o que ela poderia dizer. Com um último suspiro, desceu os vários níveis de escadas na ponta dos pés, com a maior agilidade que poderia ter. Passou por todo o lugar que morava com os olhos semi-cerrados. Não queria despedidas, os deuses sabiam que já tivera o suficiente nesta vida. Esgueirou-se pelos arbustos e entrou na carruagem azul e vermelha, escondendo-se ao lado do banco de veludo.
Respirou fundo mais uma vez, mas de outra forma. Agora ela sabia o que estava fazendo, sabia para onde estava indo. Ela estava indo para o futuro, e não havia mais nada que pudesse impedir isso.

Me desculpem, mas eu quero fugir com o circo.

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