quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

E finalmente, Nathaniel contou a piada.
Alguém no canto da sala cochichou, mas a maioria das pessoas riu. Do jeito que ele esperava, com os dentes escancarados e - vez ou outra - uma mãozinha tapando a gengiva sobressalente.
Talvez, como lembrou o seu amigo mais tarde, as pessoas estivessem rindo de suas vestimentas deselegantemente coloridas naquele baile tão à-rigor, mas ELA tinha rido. Tinha notado que suas botas eram de couro, e isso o fazia sorrir.
Várias coisas faziam Nathaniel sorrir: o jeito que os raios da bicicleta se mexiam quando a roda ia muito rápido, o cheiro do seu cachorro, as anedotas do seu livro azul, algumas ameixas...
Mas ela o fazia sorrir constantemente: o jeito que um único cacho loiro caía sobre seu olho esquerdo, a maneira como o vento fazia seu cabelo grudar no gloss de morango, seus dentes meio amarelados e suas gengivas... Ah, suas gengivas...
Lembrava ainda da primeira vez que vira aquelas gengivas: tinha se mudado recentemente para o bairro e ela estava sentada na calçada rindo de um gato perseguindo uma mosca. Usava meias três-quartos coloridas e um relógio digital que continha chicletes embaixo do visor, e ria soluçando do felino listrado. Nathaniel achou-a maravilhosa. Atravessou a rua e tentou um contato:
- Oi.
- (soluços) ... Oi... (soluços)
- Acho ameixas engraçadas.
- Ameixas não tem listras. Ameixas não correm atrás de (soluço) moscas!
- Ameixas são roxas.
- Vou entrar. (soluço)
- Ok. Te vejo por aí?
- (soluço)
Nathaniel podia sentir o amor que jorrava de seus cachos loiros para ele. Em questão de segundos imaginou os dois escalando uma montanha correndo atrás de um enxame de moscas, e rindo aos soluços. Sabia que algum dia ela entenderia o real humor das ameixas, e então estariam entrelaçados pela mais linda relação, onde gatos - esperançosamente - não teriam mais graça.
Nathaniel achava que algum dia ela riria para ele. E ela rira. Mas mais tarde, na festa, percebeu um erro fatal.
Logo após a sua anedota, foi procurá-la e encontrou-a comendo no fim do salão. Ela sorriu quando achou que seus olhos - um pouco vesgos - encararam-na, e acenou para ele como um convite.
- Oi.
- Oi... Foi muito engraçada a sua piada. E o seu sapato. É engraçado! (soluço)
- Eu disse que ameixas eram engraçadas.
- Você só tem que inserir o contexto certo.
- Sim. O que você está comendo?
- Sushi. Eu amo sushi.
- Está brincando, não é?
- O quê?
- Eu não acredito. Meses achando que você era um relógio-chiclete... E agora vem me dizer que gosta de peixe cru!
- Mas... muita gente...
- Ora! Eu achando que você poderia entender uma ameixa! Um sapato! E você gosta de sushi!
- Eu gosto de você!
- Esqueça as montanhas!
Nathaniel deixou o baile, e nunca mais quis saber seu nome. Em dois meses mudou-se para os Alpes, e vive lá até hoje, casado satisfatóriamente com uma mosca.

Um comentário:

Lana Scott disse...

Muito bom! Você está de volta!!!